Leia o conto “Estes contos”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
1 Há muita coisa a emendar em meus contos. Às vezes eles saem totalmente ao contrário daquilo que pretendiam contar. Costumam até ficar melhor, mas nem sempre.
Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis, e os inverossímeis, pois também escrevi alguns desta natureza, despertam o comentário: “Daí, quem sabe? Tudo pode acontecer”.
Tenho a impressão de que tudo pode mesmo acontecer em matéria de contos, ou melhor, no interior deles. Houve um que se recusou a terminar, como se dissesse: “Fica tão bom assim… Só você não percebe isto”.
Duas historietas exigiram que as concluísse confessando minha incapacidade de contista. Como eu me recusasse a atendê-las, retrucaram: “Não faz mal. Não é preciso confessar; todos sabem”.
5 Só um de meus contos me acompanha por toda parte, ao jeito de gato fiel, sem que o faça para pedir alimento. É um continho bobo, anão, contente da vida. Vai no meu bolso. Não o leio para ninguém. Seu calor me agasalha. Já não me lembra o que diz, pois nunca o releio, mas sei que é raríssimo o texto que seja amigo do autor, e quanto a este, não duvido. Meu melhor amigo é um continho em branco, de enredo singelo, passado todo ele na antena esquerda de um gafanhoto.
(Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis, 2025.)
“Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis, e os inverossímeis, pois também escrevi alguns desta natureza, despertam o comentário” (2º parágrafo) Nesse trecho do conto, o emprego da vírgula imediatamente antes da conjunção aditiva “e” se justifica, pois
Aindica a elipse de um sujeito.
Bsepara os itens de uma enumeração.
Csepara orações com sujeitos diferentes.
Dsepara orações com o mesmo sujeito.
Eindica a elipse de um verbo.
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GabaritoC — separa orações com sujeitos diferentes.
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Vírgula antes do "e": quando o sujeito muda, a vírgula é obrigatória
Gabarito: letra C. A vírgula imediatamente antes da conjunção aditiva "e" se justifica porque separa orações com sujeitos diferentes: na primeira oração, o sujeito é "Certos contos, os mais simples"; na segunda, o sujeito é "os inverossímeis". Como se lê no 2º parágrafo do conto:
"Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis, e os inverossímeis, pois também escrevi alguns desta natureza, despertam o comentário"
A regra é clara: quando o "e" liga orações coordenadas com sujeitos distintos, a vírgula é obrigatória para marcar a mudança de sujeito e evitar ambiguidade. É exatamente o que ocorre no trecho.
O comando da questão
A questão pede que você justifique o emprego da vírgula antes do "e". Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto: você precisa analisar a estrutura sintática do período e identificar qual regra de pontuação está sendo usada. Não é interpretação de sentido, é reconhecimento de função sintática.
A estrutura do período
Vamos decompor o trecho:
1ª oração: "Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis" — sujeito: "Certos contos" (núcleo: "contos"), verbo: "parecem".
2ª oração: "e os inverossímeis, pois também escrevi alguns desta natureza, despertam o comentário" — sujeito: "os inverossímeis" (núcleo: "inverossímeis", substantivado), verbo: "despertam".
Perceba: cada oração tem seu próprio sujeito, e eles são diferentes. A vírgula antes do "e" sinaliza exatamente essa mudança de sujeito. Se os sujeitos fossem os mesmos, a vírgula seria desaconselhada (ou até proibida).
A regra da vírgula antes do "e"
A conjunção "e" é aditiva, mas há três casos em que se usa vírgula antes dela:
Orações com sujeitos diferentes (caso da questão);
Polissíndeto (repetição enfática do "e": "E chora, e ri, e grita");
Valor adversativo ("e" com sentido de "mas": "Estudou muito, e não passou").
Fora desses casos, a vírgula antes do "e" é desaconselhada quando as orações têm o mesmo sujeito.
Análise das alternativas
Vírgula antes do "e"
1Casos que exigem
Sujeitos diferentes (caso da questão)
Polissíndeto (repetição enfática)
Valor adversativo ("mas")
2Caso que dispensa
Mesmo sujeito (desaconselhada)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Indica a elipse de um sujeito. Não há elipse de sujeito no trecho. Elipse seria a omissão de um termo que poderia ser recuperado pelo contexto, mas aqui os sujeitos estão explícitos ("Certos contos" e "os inverossímeis"). A vírgula não marca omissão de sujeito; marca a mudança de sujeito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Separa os itens de uma enumeração. Não há enumeração no trecho. Enumeração seria uma lista de termos da mesma função sintática (ex.: "Comprei frutas, legumes, cereais"). Aqui temos orações coordenadas, não termos enumerados. A vírgula antes do "e" não está separando itens de uma lista.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Separa orações com sujeitos diferentes. Exatamente o que ocorre: a primeira oração tem sujeito "Certos contos"; a segunda, "os inverossímeis". A vírgula é obrigatória para marcar essa mudança de sujeito, conforme a regra. É a única justificativa correta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Separa orações com o mesmo sujeito. É o oposto do que ocorre. Se os sujeitos fossem os mesmos, a vírgula seria desaconselhada. Aqui os sujeitos são diferentes, então a alternativa contradiz a estrutura do período.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Indica a elipse de um verbo. Não há elipse de verbo. Os verbos estão explícitos: "parecem" e "despertam". A vírgula não está marcando omissão de verbo; está separando orações com sujeitos distintos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura casos de vírgula antes do "e" — muitos candidatos marcam "enumeração" (B) ou "elipse" (A/E), mas o que decide é a mudança de sujeito. Sempre que vir vírgula antes de "e", pergunte: os sujeitos são diferentes? Há repetição do "e"? Há valor de oposição?
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões de vírgula antes do "e", identifique os sujeitos de cada oração antes de olhar as alternativas. Se forem diferentes, a vírgula é obrigatória; se forem iguais, é desaconselhada.