Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2026
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
vu166709
Banca
VUNESP
Órgão
Humanitas
Ano
2026
Cargo
Vest Med ( )
Leia o trecho da cantiga trovadoresca “Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado”, cuja autoria é atribuída a Afonso X ou Sancho I.
Ai eu coitada, como vivo em gram1
cuidado
por meu amigo que hei alongado2;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram
desejo
por meu amigo que tarda e nom3 vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
(Cantigas trovadorescas, 2013.)
1gram: grande.
2alongado: distante, afastado.
3nom: não.
Essa cantiga trovadoresca corresponde a uma cantiga de
Aamor, em que a alma feminina é retratada de maneira cortês.
Bamor, em que o eu lírico feminino rejeita o seu amante.
Cmaldizer, pois se vale de crítica explícita a determinado comportamento.
Damigo, em que o eu lírico feminino confessa a saudade da pessoa amada.
Eescárnio, pois alude a comportamentos risíveis de uma cortesã.
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GabaritoD — amigo, em que o eu lírico feminino confessa a saudade da pessoa amada.
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Cantiga de amigo: a saudade do eu lírico feminino
Gabarito: letra D. A cantiga é uma cantiga de amigo, pois o eu lírico é feminino e confessa a saudade da pessoa amada, como se lê nos versos "Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado / por meu amigo que hei alongado" e "muito me tarda / o meu amigo na Guarda". A alternativa D é a única que combina corretamente o gênero (cantiga de amigo) com a característica (confissão de saudade).
O comando da questão
A questão pede que você identifique o gênero da cantiga trovadoresca. Isso exige conhecimento prévio sobre as cantigas líricas do Trovadorismo (amigo e amor) e as satíricas (escárnio e maldizer). Não é uma questão de interpretação pura do texto, mas de aplicar a teoria ao que o texto apresenta. O comando "corresponde a uma cantiga de" indica que você deve classificar o texto dentro das modalidades da lírica trovadoresca.
O texto: tema e características
O texto é uma cantiga de refrão ("muito me tarda / o meu amigo na Guarda"), típica das cantigas de amigo. O eu lírico é feminino ("Ai eu coitada"), o que é a marca distintiva desse gênero: a voz poética é de uma mulher que fala de seu amado ("meu amigo"). O sentimento expresso é a saudade e a angústia pela demora do amado, que está distante ("alongado") e não chega ("tarda e nom vejo").
"Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado / por meu amigo que hei alongado; / muito me tarda / o meu amigo na Guarda."
A repetição do refrão e a estrutura paralelística são características formais das cantigas de amigo, mas o que decide a questão é o conteúdo: a confissão de saudade feita por uma voz feminina.
A técnica: distinguir as cantigas trovadorescas
Para acertar, você precisa dominar a diferença entre os quatro tipos de cantiga:
Tipo
Eu lírico
Tema
Tom
Amigo
Feminino
Saudade do amado
Lírico, sentimental
Amor
Masculino
Amor cortês, sofrimento por amor
Lírico, idealizado
Escárnio
Masculino (geralmente)
Crítica indireta, com ambiguidade
Satírico, irônico
Maldizer
Masculino (geralmente)
Crítica direta e ofensiva
Satírico, agressivo
A cantiga de amigo é a única em que o eu lírico é feminino. Isso é decisivo: o texto diz "Ai eu coitada" (feminino) e se refere ao amado como "meu amigo". A cantiga de amor, por outro lado, tem eu lírico masculino e idealiza a dama. As cantigas satíricas (escárnio e maldizer) têm intenção de crítica, o que não aparece aqui.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de gênero. A alternativa diz "cantiga de amor", mas o eu lírico é feminino ("Ai eu coitada"), o que é característica da cantiga de amigo, não da de amor. Além disso, o texto não retrata a "alma feminina de maneira cortês" — a cantiga de amor é a que idealiza a dama, com eu lírico masculino. Aqui, a voz é da mulher que sofre de saudade, sem a idealização cortês.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o eu lírico feminino rejeita o amante. O texto faz o oposto: ela o espera e sofre por sua ausência ("muito me tarda / o meu amigo na Guarda"). Não há nenhum indício de rejeição; há, sim, desejo de reencontro. A alternativa contradiz o sentimento expresso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: fuga ao tema. A alternativa classifica a cantiga como de maldizer, que é um gênero satírico com crítica explícita. O texto não contém crítica alguma; é uma confissão lírica de saudade. Não há alvo de crítica, nem tom agressivo. A alternativa tangencia o assunto, pois mistura gêneros sem base no texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. A cantiga é de amigo porque o eu lírico é feminino ("Ai eu coitada") e confessa a saudade do amado ("por meu amigo que hei alongado"). A saudade é o sentimento central, expresso também no refrão "muito me tarda / o meu amigo na Guarda". A alternativa D é a única que une corretamente o gênero e a característica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: fuga ao tema. A alternativa classifica a cantiga como de escárnio, que é um gênero satírico com crítica indireta e tom irônico. O texto não tem nenhum elemento de sátira ou zombaria; é uma cantiga lírica de saudade. A menção a "comportamentos risíveis de uma cortesã" é totalmente estranha ao texto, que fala de uma mulher que sofre pela ausência do amado.
Conclusão
A questão testa seu conhecimento sobre os gêneros das cantigas trovadorescas. A pista decisiva é o eu lírico feminino e o sentimento de saudade, que caracterizam a cantiga de amigo. As alternativas que mencionam amor, escárnio ou maldizer falham porque não se sustentam no texto.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar uma cantiga trovadoresca, verifique primeiro o gênero do eu lírico: se for feminino, é cantiga de amigo; se masculino, pode ser de amor (se lírica) ou satírica (se houver crítica). Isso elimina rapidamente várias alternativas.