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Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — VUNESP 2026

PortuguêsTipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
vu166716
Banca
VUNESP
Órgão
UniCEUB
Ano
2026
Cargo
Vest Med ( )

Leia o trecho do romance O Karaíba: Uma história do pré-Brasil, de Daniel Munduruku, para responder a questão

 

O sol nem tinha dado cores à floresta quando Perna Solta pulou de sua rede. Não conseguia dormir havia muitos dias por causa dos burburinhos que se ouvia na aldeia. Havia medo e revolta espalhados pelo ar, e ele não compreendia direito o que se passava.

 

Saiu da casa logo após atiçar o fogo que estava ficando fraco e deixando seus outros habitantes com frio. Havia chovido na noite anterior, e uma brisa violenta tinha se abatido sobre as casas, gerando nas pessoas espanto e temor. Mesmo a pequena Yrá, sua irmã mais jovem, que sempre teve espírito de bravura, ficou recolhida no colo da mãe, mirando o horizonte com olhos arregalados. O que estaria por acontecer?

 

O jovem foi até a beira do rio que banha sua aldeia e acocorou-se, enquanto percebia que o alvoroço da noite anterior estava refletido também nas calmas águas daquele parente. Mesmo assim, fitou o rio e deixou que seus pensamentos voltassem para um passado próximo, a fim de que refrescassem sua memória e lhe ajudassem a entender o que estava acontecendo.

 

Lembrou do velho Karaíba, que havia passado por sua aldeia há pouco tempo e tinha dito coisas assustadoras que aconteceriam dentro em breve. Entre elas, disse que aquele mundo conhecido por todos acabaria e tudo seria destruído pela passagem de um grande monstro vindo de outros cantos.

 

Ele disse: “Minhas visões trazem sinais terríveis. Não sobrarão nem vestígios de nossa passagem sobre esta terra onde nossos pais viveram. O monstro virá e destruirá nossa memória e nossos caminhos. Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados. Tudo.”

 

Foram palavras fortes, que abalaram a comunidade, e muitos acreditavam que a tempestade dos últimos dias tinha sido o sinal desses acontecimentos.

 

Perna Solta nunca tinha visto seu povo chorar que não fosse por luto ou ritual. Nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados. O que haveria mesmo de acontecer? Estariam preparados para um tempo novo que começaria amanhã?

 

(O Karaíba: Uma história do pré-Brasil, 2018.)

O discurso indireto livre consiste em, conservando os enunciados próprios do nosso interlocutor, não fazer-lhe referência direta. Como ensina o linguista Mattoso Câmara, mediante o estilo indireto livre reproduz-se a fala dos personagens sem os verbos que anunciam o discurso.   (Evanildo Bechara. Moderna Gramática Portuguesa, 2009. Adaptado.)   Verifica-se o uso de discurso indireto livre no seguinte trecho:
  1. A“muitos acreditavam que a tempestade dos últimos dias tinha sido o sinal desses acontecimentos.”
  2. B“Ele disse: ‘Minhas visões trazem sinais terríveis.’”
  3. C“Nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados. O que haveria mesmo de acontecer?”
  4. D“O jovem foi até a beira do rio que banha sua aldeia e acocorou-se”
  5. E“O sol nem tinha dado cores à floresta quando Perna Solta pulou de sua rede.”
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GabaritoC — “Nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados. O que haveria mesmo de acontecer?”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso indireto livre: a fala da personagem sem marcas de anúncio

Gabarito: letra C. O discurso indireto livre está no trecho "Nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados. O que haveria mesmo de acontecer?" — a pergunta final "O que haveria mesmo de acontecer?" é o pensamento da personagem Perna Solta, inserido na narração em 3ª pessoa sem verbo de elocução, sem aspas, sem travessão e sem conjunção, exatamente como define o enunciado: reproduz-se a fala/pensamento do personagem sem os verbos que anunciam o discurso.

O comando pede que você identifique o trecho em que ocorre o discurso indireto livre, conforme a definição de Mattoso Câmara citada: conservar os enunciados do interlocutor sem fazer-lhe referência direta, ou seja, sem "ele disse", "pensou", "perguntou" etc. A técnica é procurar a passagem em que a voz do personagem emerge dentro da narração sem nenhuma marca formal de separação. No texto-base, o narrador conta, em 3ª pessoa, que Perna Solta "nunca tinha visto seu povo chorar" e "nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados" — e, de repente, surge a pergunta "O que haveria mesmo de acontecer?", que só pode ser a indagação interna do próprio personagem, pois é ele quem está angustiado com os presságios. Não há "ele perguntou" nem aspas: a fala interior está fundida ao discurso do narrador. É isso que caracteriza o indireto livre: a ausência de marcas (verbos dicendi, dois-pontos, travessão, aspas, conjunção integrante) e a mistura de vozes — narrador e personagem se confundem.

A armadilha central da questão é confundir os três tipos de discurso. No direto (alternativa B), há verbo de elocução ("disse"), dois-pontos e aspas — marcas explícitas. No indireto (alternativa A), há a conjunção integrante "que" e a transposição para a 3ª pessoa ("muitos acreditavam que a tempestade... tinha sido"). No indireto livre (alternativa C), não há nenhuma dessas marcas: a pergunta surge solta, no meio da narração, como se fosse do narrador, mas é do personagem. As alternativas D e E são pura narração, sem qualquer fala ou pensamento de personagem.

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar discurso indireto livre, grife as perguntas e exclamações que aparecem sem aspas e sem verbo de elocução — é o sinal clássico de que a voz do personagem invadiu a narração.

Tipo de Discurso

Marcas Formais

Exemplo do Texto

Direto

Verbo de elocução ("disse"), dois-pontos, aspas ou travessão

"Ele disse: 'Minhas visões trazem sinais terríveis.'" (B)

Indireto

Verbo de elocução ("acreditavam") + conjunção integrante "que"

"muitos acreditavam que a tempestade... tinha sido..." (A)

Indireto Livre

Ausência de marcas (sem verbo dicendi, aspas, travessão ou "que"); voz do personagem fundida à narração

"Nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados. O que haveria mesmo de acontecer?" (C)

Discurso indireto livre
  • 1Sem marcas de anúncio
    • Sem verbo dicendi
    • Sem aspas/travessão
    • Sem conjunção "que"
  • 2Voz do personagem fundida à narração
    • Perguntas e exclamações soltas
    • Mistura de vozes (narrador + personagem)
  • 3Contrasta com
    • Discurso direto (verbo dicendi + aspas)
    • Discurso indireto (conjunção "que")
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"muitos acreditavam que a tempestade dos últimos dias tinha sido o sinal desses acontecimentos."

Aqui há discurso indireto, não indireto livre. A fala/pensamento de terceiros é introduzida pelo verbo "acreditavam" e pela conjunção integrante "que", que anuncia a oração subordinada substantiva objetiva direta. O narrador reporta o que muitos pensavam, com referência indireta — exatamente o oposto do que define o indireto livre, que dispensa esses elementos. Erro: troca de conceito (indireto × indireto livre).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Ele disse: 'Minhas visões trazem sinais terríveis.'"

É o exemplo típico de discurso direto: há o verbo de elocução ("disse"), dois-pontos e aspas delimitando a fala literal do Karaíba. O narrador cede a palavra ao personagem com todas as marcas formais de separação. No indireto livre, essas marcas não existem. Erro: troca de conceito (direto × indireto livre).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados. O que haveria mesmo de acontecer?"

A primeira oração é narração em 3ª pessoa (o narrador descreve a experiência de Perna Solta). A segunda, "O que haveria mesmo de acontecer?", é a pergunta interior do personagem, inserida sem nenhum verbo de elocução, sem aspas, sem travessão e sem conjunção. O leitor só percebe a mudança de voz pelo conteúdo: é a angústia de Perna Solta diante dos presságios, ecoando as perguntas anteriores do texto ("O que estaria por acontecer?", "O que haveria mesmo de acontecer?"). A fala do personagem funde-se à narração — é a definição exata de discurso indireto livre dada no enunciado.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"O jovem foi até a beira do rio que banha sua aldeia e acocorou-se"

Trecho puramente narrativo: o narrador descreve uma ação de Perna Solta em 3ª pessoa, sem qualquer fala ou pensamento do personagem. Não há discurso de personagem algum, portanto não pode haver indireto livre. Erro: fora do escopo (não há discurso reproduzido).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"O sol nem tinha dado cores à floresta quando Perna Solta pulou de sua rede."

Também é narração pura: o narrador situa a cena no tempo ("O sol nem tinha dado cores à floresta") e descreve a ação do personagem ("pulou de sua rede"). Não há fala nem pensamento de personagem reproduzido. Erro: fora do escopo (não há discurso reproduzido).

Gabarito: letra C. A regra de ouro: no indireto livre, a voz do personagem aparece sem anúncio — sem verbo dicendi, sem aspas, sem travessão, sem "que". Quando a pergunta ou exclamação surge solta na narração, é o pensamento do personagem invadindo o texto. Nas demais, ou há marcas formais (direto/indireto) ou não há discurso algum.

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