Leia o trecho do romance O Karaíba: Uma história do pré-Brasil, de Daniel Munduruku, para responder a questão
O sol nem tinha dado cores à floresta quando Perna Solta pulou de sua rede. Não conseguia dormir havia muitos dias por causa dos burburinhos que se ouvia na aldeia. Havia medo e revolta espalhados pelo ar, e ele não compreendia direito o que se passava.
Saiu da casa logo após atiçar o fogo que estava ficando fraco e deixando seus outros habitantes com frio. Havia chovido na noite anterior, e uma brisa violenta tinha se abatido sobre as casas, gerando nas pessoas espanto e temor. Mesmo a pequena Yrá, sua irmã mais jovem, que sempre teve espírito de bravura, ficou recolhida no colo da mãe, mirando o horizonte com olhos arregalados. O que estaria por acontecer?
O jovem foi até a beira do rio que banha sua aldeia e acocorou-se, enquanto percebia que o alvoroço da noite anterior estava refletido também nas calmas águas daquele parente. Mesmo assim, fitou o rio e deixou que seus pensamentos voltassem para um passado próximo, a fim de que refrescassem sua memória e lhe ajudassem a entender o que estava acontecendo.
Lembrou do velho Karaíba, que havia passado por sua aldeia há pouco tempo e tinha dito coisas assustadoras que aconteceriam dentro em breve. Entre elas, disse que aquele mundo conhecido por todos acabaria e tudo seria destruído pela passagem de um grande monstro vindo de outros cantos.
Ele disse: “Minhas visões trazem sinais terríveis. Não sobrarão nem vestígios de nossa passagem sobre esta terra onde nossos pais viveram. O monstro virá e destruirá nossa memória e nossos caminhos. Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados. Tudo.”
Foram palavras fortes, que abalaram a comunidade, e muitos acreditavam que a tempestade dos últimos dias tinha sido o sinal desses acontecimentos.
Perna Solta nunca tinha visto seu povo chorar que não fosse por luto ou ritual. Nunca havia presenciado fortes guerreiros amedrontados. O que haveria mesmo de acontecer? Estariam preparados para um tempo novo que começaria amanhã?
(O Karaíba: Uma história do pré-Brasil, 2018.)
No trecho “‘Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados’”, os dois-pontos introduzem uma
Acausa.
Bexplicação.
Cconsequência.
Dconcessão.
Eoposição.
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GabaritoB — explicação.
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Função dos dois-pontos: explicação no trecho
Gabarito: letra B. No trecho “Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados”, os dois-pontos introduzem uma explicação — mais precisamente, o detalhamento do que significa “tudo será revirado”. A pista está na própria estrutura: a parte após os dois-pontos esclarece o termo genérico “tudo”, enumerando os elementos que serão destruídos. Como se lê no texto-base, o Karaíba anuncia: “Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados. Tudo.” — a enumeração que segue os dois-pontos explica o alcance do “tudo”.
O comando
A questão pergunta o que os dois-pontos introduzem no trecho. Isso é uma questão de pontuação e sentido: não se trata de interpretar o texto, mas de reconhecer a função do sinal naquele contexto específico. As alternativas oferecem relações semânticas (causa, explicação, consequência, concessão, oposição) — todas são relações que podem ser expressas por conectivos, mas aqui o sinal de pontuação é que estabelece a relação. O candidato precisa saber que os dois-pontos podem introduzir enumeração, explicação, citação ou fala, e identificar qual dessas funções ocorre no trecho.
O texto e a passagem decisiva
No trecho, o Karaíba profetiza a destruição total: “Tudo será revirado”. A palavra “tudo” é vaga; os dois-pontos vêm exatamente para especificar o que esse “tudo” abrange: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados. Ou seja, a segunda parte do enunciado explica o sentido da primeira, detalhando os elementos que serão revirados. Não há relação de causa (o que vem depois não é o motivo do que vem antes), nem de consequência (não é o efeito), nem de concessão ou oposição (não há quebra de expectativa). A relação é de esclarecimento: a enumeração que segue os dois-pontos explica o termo “tudo”.
A técnica que decide
Para resolver, pergunte: o que a parte após os dois-pontos faz em relação à parte anterior? Se ela detalha, especifica ou esclarece o que foi dito, é explicação. Se ela indica o motivo do que foi dito, seria causa. Se ela indica o efeito, seria consequência. Se ela quebra a expectativa, seria concessão ou oposição. No trecho, a enumeração “as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados” explica o que é “tudo” — logo, explicação.
PEGA ESSA DICA!
Nos dois-pontos, teste a substituição por “isto é” ou “a saber”. Se a frase continuar fazendo sentido, a função é de explicação. Ex.: “Tudo será revirado, isto é, as águas, a terra...” — funciona!
Dois-pontos: Funções (Explicação, Enumeração, Citação, Fala); Teste da explicação (Substituir por "isto é", Substituir por "a saber", Se mantém o sentido → explicação); Relações que NÃO são (Causa (motivo), Consequência (efeito), Concessão (ressalva), Oposição (contraste))
Alternativa A — ❌ Incorreta
Causa. A parte após os dois-pontos não indica o motivo de “tudo será revirado”. Não há relação de causa e efeito; a enumeração não responde “por que” será revirado, mas “o que” será revirado. A alternativa confunde explicação com causa — relações distintas.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Explicação. Os dois-pontos introduzem o detalhamento do que significa “tudo será revirado”. A enumeração “as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados” explica o alcance do termo “tudo”. É a função clássica de explicar/esclarecer o que foi dito antes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Consequência. A parte após os dois-pontos não é o efeito de “tudo será revirado”. Não há relação de causa-consequência; a enumeração não é o resultado da ação, mas a especificação dela. A alternativa troca explicação por consequência.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Concessão. Concessão expressa uma ressalva, uma quebra de expectativa (“embora”, “apesar de”). No trecho, não há ressalva; a enumeração reforça o que foi dito, não o contesta. A alternativa introduz uma relação que não existe no trecho.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Oposição. Oposição expressa contraste (“mas”, “porém”). No trecho, não há contraste entre as partes; a enumeração complementa o “tudo”, não se opõe a ele. A alternativa inventa uma relação adversativa que não está presente.
Fechamento
A regra de ouro: os dois-pontos podem introduzir explicação, enumeração, citação ou fala — e, no trecho, a função é de explicação, pois a segunda parte detalha o sentido da primeira. Ao se deparar com questões de pontuação, sempre teste a relação entre as partes: se a segunda esclarece a primeira, é explicação; se indica motivo, é causa; se indica efeito, é consequência. Nomeie a relação e elimine as que não se encaixam.