Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166738
Banca
VUNESP
Órgão
UNISA
Ano
2026
Cargo
Vest Med ( )
Eu amava! Amava aquele rapaz elegante que me plantou no coração um sentimento desconhecido e cruel! Passaram dias e meses e nunca mais o encontrei. Foi porque me viu entrar para o cortiço, explicava-me eu...
Esse amor parecerá absurdo a quem não tiver, como eu tive sempre, a preocupação da fealdade1; a quem não se sentir isolada na vida, longe de todos os primores da graça, da distinção ou da inteligência.
Eu, além de feia, era inabilidosa. Nunca soube fazer um laço, cortar um vestido, pregar uma flor. A pequenez dos meus olhos de um verde sujo, a cor trigueira das minhas faces de maçãs salientes, a longura dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu andar, que eu nunca soube corrigir, asseguravam-me que ninguém pousaria em mim a vista com prazer; que eu cortaria a vida, de ponta a ponta, sem deter os passos de quem quer que fosse num movimento espontâneo de simpatia...
Convenço-me de que naquele rapaz eu não amei o homem: amei o Amor, o meu triunfo, a hipótese de ser amada — que é o melhor sonho de todas as mulheres, mesmo daquelas que brilham, que são formosas, que fascinam...
(Memórias de Martha, 2024.)
1 fealdade: feiura.
Leia o trecho do romance Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, para responder à questão.
No parágrafo, a descrição física que a narradora faz de si mesma cumpre a função de
Aindicar suas mudanças físicas ao longo do tempo.
Bvalorizar sua aparência como traço de identidade.
Cenaltecer a compreensão que o rapaz tem dela.
Dreforçar a percepção negativa que tem de si mesma.
Eatrelar suas características às do ambiente social em que vive.
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GabaritoD — reforçar a percepção negativa que tem de si mesma.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A função da descrição física na construção da autoimagem
Gabarito: letra D. A descrição física que a narradora faz de si mesma cumpre a função de reforçar a percepção negativa que tem de si mesma, como se prova no trecho em que ela enumera seus traços — "a pequenez dos meus olhos de um verde sujo, a cor trigueira das minhas faces de maçãs salientes, a longura dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu andar" — e conclui que "ninguém pousaria em mim a vista com prazer". A alternativa D é a única que capta o efeito argumentativo da descrição: cada característica é apresentada como defeito, servindo para justificar a convicção de que ela não despertaria simpatia em ninguém.
O comando pede que se identifique a função da descrição física, ou seja, o papel que ela desempenha na construção do sentido do parágrafo. Não se trata de localizar uma informação isolada, mas de perceber como a enumeração de traços físicos sustenta a tese da narradora sobre si mesma. É uma questão de compreensão — a resposta está ancorada em pistas explícitas do texto, não exige dedução além do que está escrito.
O parágrafo central do trecho é uma longa autodescrição negativa. A narradora não se limita a dizer que é feia; ela prova essa feiura com detalhes: "olhos de um verde sujo", "faces de maçãs salientes", "braços finos", "modo desengraçado do andar". A escolha dos adjetivos — "sujo", "salientes", "desengraçado" — já carrega juízo de valor negativo. A conclusão do raciocínio vem em seguida: "asseguravam-me que ninguém pousaria em mim a vista com prazer; que eu cortaria a vida, de ponta a ponta, sem deter os passos de quem quer que fosse num movimento espontâneo de simpatia". Ou seja, a descrição física existe para fundamentar a percepção negativa que ela tem de si.
A técnica para resolver é perguntar: o que o texto faz com essa descrição? Ela não é neutra, não é elogiosa, não é comparativa com o ambiente — ela é autoavaliativa e depreciativa. Cada traço listado é um argumento a favor da tese de que ela é indigna de ser notada com prazer. A alternativa correta precisa captar exatamente esse movimento: a descrição reforça a visão negativa que a narradora tem de si mesma.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de o candidato buscar relações externas (ambiente social, mudança ao longo do tempo) quando o texto é claro: a descrição é interna, sobre a autoimagem da narradora. A alternativa E, por exemplo, parece plausível porque o texto menciona o cortiço, mas a descrição física não está atrelada a ele.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a descrição indica "mudanças físicas ao longo do tempo". O texto não apresenta qualquer comparação entre o aspecto da narradora em momentos diferentes; a descrição é estática, retrata o estado presente. Não há verbos de mudança nem marcas temporais que sustentem essa leitura. Erro: extrapolação — acrescenta uma ideia (transformação física) que o texto não aborda.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que a descrição "valoriza sua aparência como traço de identidade". O texto faz exatamente o oposto: os adjetivos são depreciativos ("verde sujo", "desengraçado") e a conclusão é de que ninguém a olharia com prazer. Não há valorização alguma; há autodepreciação. Erro: contradiz o texto — inverte o juízo de valor expresso pela narradora.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a descrição "enaltece a compreensão que o rapaz tem dela". O texto não diz que o rapaz compreende ou enaltece a narradora; ele apenas "plantou no coração" um sentimento e depois desapareceu. A descrição física é sobre a autoimagem da narradora, não sobre a visão que o rapaz teria dela. Erro: fora do escopo — introduz um elemento (a opinião do rapaz) que não está no texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que a descrição "reforça a percepção negativa que tem de si mesma". É exatamente o que o texto faz. A narradora enumera seus traços como defeitos e conclui:
"a pequenez dos meus olhos de um verde sujo, a cor trigueira das minhas faces de maçãs salientes, a longura dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu andar, que eu nunca soube corrigir, asseguravam-me que ninguém pousaria em mim a vista com prazer"
A expressão "asseguravam-me" mostra que a descrição física serve de prova para a convicção negativa. Cada traço é apresentado como razão para acreditar que não despertaria simpatia. A função da descrição é, portanto, reforçar a percepção negativa que ela tem de si mesma.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa diz que a descrição "atrela suas características às do ambiente social em que vive". O texto menciona o cortiço apenas como explicação para o desaparecimento do rapaz ("Foi porque me viu entrar para o cortiço"), mas a descrição física não estabelece relação com o ambiente. Os traços listados são apresentados como características individuais, não como reflexo do meio social. Erro: tangencia o tema — aproxima-se do texto (o cortiço é citado), mas atribui à descrição uma função que ela não cumpre.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a função de um trecho, pergunte: "o que este trecho faz no texto?" — ele prova uma tese, contradiz algo, elogia, critica? A resposta estará no efeito que a passagem produz, não em relações externas que você imagina.
Gabarito: letra D. A descrição física é autoavaliativa e depreciativa: cada traço é um argumento para a convicção de que ninguém a olharia com prazer. As demais alternativas ou extrapolam (A), contradizem o texto (B), introduzem elemento ausente (C) ou tangenciam o tema (E).