Questão de Português — Questões Mescladas sobre Pronomes — VUNESP 2026
Português›Questões Mescladas sobre Pronomes
Código
vu166739
Banca
VUNESP
Órgão
UNISA
Ano
2026
Cargo
Vest Med ( )
Eu amava! Amava aquele rapaz elegante que me plantou no coração um sentimento desconhecido e cruel! Passaram dias e meses e nunca mais o encontrei. Foi porque me viu entrar para o cortiço, explicava-me eu...
Esse amor parecerá absurdo a quem não tiver, como eu tive sempre, a preocupação da fealdade1; a quem não se sentir isolada na vida, longe de todos os primores da graça, da distinção ou da inteligência.
Eu, além de feia, era inabilidosa. Nunca soube fazer um laço, cortar um vestido, pregar uma flor. A pequenez dos meus olhos de um verde sujo, a cor trigueira das minhas faces de maçãs salientes, a longura dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu andar, que eu nunca soube corrigir, asseguravam-me que ninguém pousaria em mim a vista com prazer; que eu cortaria a vida, de ponta a ponta, sem deter os passos de quem quer que fosse num movimento espontâneo de simpatia...
Convenço-me de que naquele rapaz eu não amei o homem: amei o Amor, o meu triunfo, a hipótese de ser amada — que é o melhor sonho de todas as mulheres, mesmo daquelas que brilham, que são formosas, que fascinam...
(Memórias de Martha, 2024.)
1 fealdade: feiura.
Leia o trecho do romance Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, para responder à questão.
A recorrência dos pronomes na primeira pessoa do singular (“eu”, “me”, “mim”) no texto
Aproduz ambiguidade referencial, dificultando a identificação dos sujeitos envolvidos.
Bconstrói um discurso objetivo, centrado em fatos externos à narradora.
Creforça a interiorização do relato, marcada por autoanálise e reflexão.
Daproxima a narrativa de uma conversa ao indicar interlocução direta com o leitor.
Eevidencia a dependência da narradora em relação ao julgamento alheio.
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GabaritoC — reforça a interiorização do relato, marcada por autoanálise e reflexão.
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A recorrência dos pronomes de 1ª pessoa: efeito de interiorização
Gabarito: letra C. A recorrência de “eu”, “me” e “mim” no texto reforça a interiorização do relato, marcada por autoanálise e reflexão — como se vê na passagem em que a narradora conclui: “Convenço-me de que naquele rapaz eu não amei o homem: amei o Amor, o meu triunfo, a hipótese de ser amada”. O uso insistente da 1ª pessoa coloca o foco no mundo interior da narradora, não em fatos externos, nem em ambiguidade, nem em diálogo com o leitor.
O comando
A questão pede que você avalie o efeito de sentido produzido pela repetição de pronomes de 1ª pessoa. Não se trata de classificar morfologicamente cada pronome (reto/oblíquo), mas de perceber o que essa escolha linguística faz no texto. É uma questão de interpretação — a resposta não está literalmente escrita, mas é deduzida com base nas pistas que o texto oferece. O verbo “reforça” indica que você deve identificar a função expressiva que esses pronomes cumprem.
O texto
O trecho é um monólogo interior de Martha, narradora-personagem. Ela fala de si o tempo todo: “Eu amava!”, “me plantou”, “me viu entrar”, “eu era inabilidosa”, “meus olhos”, “meu andar”, “meu triunfo”. Tudo gira em torno de suas sensações, de sua autoimagem e de sua reflexão sobre o próprio sentimento. O clímax dessa interiorização está no último parágrafo, quando ela analisa o próprio amor e o redefine: não amou o homem, amou “o Amor, o meu triunfo, a hipótese de ser amada”.
“Convenço-me de que naquele rapaz eu não amei o homem: amei o Amor, o meu triunfo, a hipótese de ser amada — que é o melhor sonho de todas as mulheres”
Essa passagem é a prova de que a 1ª pessoa serve à autoanálise: a narradora não descreve o rapaz, mas examina a própria alma. Os pronomes de 1ª pessoa são o instrumento dessa volta para dentro.
A técnica que decide
A repetição de “eu/me/mim” é um recurso de função emotiva (ou expressiva) da linguagem: o emissor (a narradora) coloca em primeiro plano suas emoções, opiniões e reflexões. Quando um texto é centrado no “eu”, o leitor acompanha o fluxo interior da personagem, não os acontecimentos externos. É exatamente isso que a alternativa C afirma: “reforça a interiorização do relato, marcada por autoanálise e reflexão”.
Para testar cada alternativa, pergunte: o texto autoriza essa afirmação? Se a alternativa exige acrescentar algo que não está no texto (como “diálogo com o leitor” ou “dependência do julgamento alheio”), ela é uma extrapolação.
Efeito dos pronomes de 1ª pessoa: Interiorização do relato (Autoanálise, Reflexão, Função emotiva da linguagem); Ambiguidade referencial (Sujeito é sempre a narradora); Discurso objetivo (Foco é interno, não em fatos externos); Interlocução direta com o leitor (Monólogo interior, sem marcas de diálogo); Dependência do julgamento alheio (Preocupação existe, mas é secundária)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. Não há ambiguidade referencial: todos os pronomes de 1ª pessoa referem-se claramente à narradora. O texto é inequívoco quanto ao sujeito — é sempre Martha falando de si. A alternativa inventa um problema que não existe.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O discurso é subjetivo, centrado nas emoções e reflexões da narradora, não em “fatos externos”. Basta ver “Eu amava!”, “me plantou no coração um sentimento desconhecido e cruel” — tudo é interno. A objetividade é o oposto do que o texto apresenta.
Alternativa C — ✅ Correta
Erro: nenhum. Como provado acima, a 1ª pessoa é o veículo da autoanálise. A narradora não apenas narra, mas reflete sobre o próprio sentimento (“Convenço-me de que...”), e os pronomes de 1ª pessoa são a marca linguística dessa interioridade. É a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapola. Não há “interlocução direta com o leitor”. O texto é um monólogo interior, sem marcas de diálogo (como “você”, “caro leitor”, perguntas retóricas dirigidas a alguém). A aproximação com uma conversa não está no texto — é uma suposição de fora.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapola com opinião embutida. É verdade que a narradora se preocupa com a opinião alheia (“ninguém pousaria em mim a vista com prazer”), mas a alternativa generaliza isso como o efeito principal da recorrência dos pronomes. O texto mostra que a 1ª pessoa serve à autoanálise (inclusive para superar essa preocupação: “amei o Amor, o meu triunfo”), não para evidenciar dependência. A alternativa reduz o texto a um aspecto secundário.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de escolher uma alternativa que contém uma verdade parcial (a preocupação com o julgamento alheio existe) e transformá-la em efeito principal. Mas o comando pergunta o que a recorrência dos pronomes reforça — e isso é a interiorização, não a dependência.
PEGA ESSA DICA!
Em questões sobre efeito de sentido de pronomes, pergunte: “quem fala e sobre o quê?”. Se o “eu” fala de si e de seus sentimentos, o efeito é de subjetividade/interiorização. Desconfie de alternativas que citam elementos que o texto não menciona (como “leitor” ou “ambiguidade”).