Leia o poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, para responder a questão seguinte.
XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezes Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra. Penso e escrevo como as flores têm cor Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me Porque me falta a simplicidade divina De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me, Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...
(Fernando Pessoa. Alberto Caeiro: Poemas completos, 2007.)
“Porque me falta a simplicidade divina” (1ª estrofe)
Mantendo o sentido original do poema, a palavra sublinhada pode ser substituída por:
AÀ medida que.
BUma vez que.
CDesde que.
DAssim como.
EDe forma que.
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GabaritoB — Uma vez que.
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Substituição de conectivo: o valor causal de "porque"
Gabarito: letra B. A palavra "porque" no verso "Porque me falta a simplicidade divina" introduz uma oração subordinada adverbial causal — ela explica o motivo de o eu lírico escrever "com menos perfeição". A única alternativa que preserva exatamente esse sentido é "uma vez que", locução conjuntiva também causal. Como se lê no poema: "Penso e escrevo como as flores têm cor / Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me / Porque me falta a simplicidade divina".
O comando pede uma substituição sem alteração de sentido: você não deve trocar a palavra por qualquer sinônimo, mas por um conectivo que mantenha a mesma relação lógica entre as orações. Aqui, a relação é de causa: a falta de simplicidade divina é o motivo de o poeta se expressar com menos perfeição. A banca testa se você reconhece o valor semântico do conectivo no contexto — e não se você decorou listas de conjunções.
No poema de Alberto Caeiro, o eu lírico valoriza a naturalidade e a simplicidade: ele quer escrever como as flores têm cor, mas admite que não consegue porque lhe falta "a simplicidade divina / De ser todo só o meu exterior". Ou seja, a oração iniciada por "porque" justifica a limitação expressa na oração anterior. É exatamente esse valor de justificativa/motivo que "uma vez que" carrega.
A técnica para resolver: identifique a relação lógica que o conectivo estabelece no trecho e procure, nas alternativas, a locução que expresse a mesma relação. As conjunções adverbiais têm valores bem definidos: causa, consequência, condição, proporção, comparação, conformidade, finalidade, tempo, concessão. Cada alternativa traz um valor diferente — só uma coincide com o original.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece locuções de outros valores semânticos (proporcional, condicional, comparativa, consecutiva) para confundir quem não identifica a relação de causa. A armadilha está em trocar o conectivo por outro que pareça equivalente, mas mude a lógica do período.
Valor semântico
Conectivo
Relação no trecho
Causal
Uma vez que (✅)
Explica o motivo: falta de simplicidade → menos perfeição
Proporcional
À medida que (❌)
Fato varia em proporção a outro
Condicional
Desde que (❌)
Condição hipotética
Comparativa
Assim como (❌)
Comparação entre elementos
Consecutiva
De forma que (❌)
Consequência/efeito
Alternativa A — ❌ Incorreta
"À medida que" é locução proporcional: indica que um fato ocorre em proporção/simultaneidade a outro (ex.: "À medida que o tempo passa, aprendemos mais"). No poema, não há proporção entre a falta de simplicidade e a perfeição da escrita — há uma causa. Substituir "porque" por "à medida que" criaria a ideia de que a perfeição varia proporcionalmente à falta de simplicidade, o que não está no texto. Erro: troca de valor semântico (causal → proporcional).
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Uma vez que" é locução causal, equivalente a "já que", "visto que", "porque". No trecho, "Porque me falta a simplicidade divina" explica o motivo de o poeta se expressar com menos perfeição. A substituição mantém intacta a relação de causa: "Uma vez que me falta a simplicidade divina, escrevo com menos perfeição". É a única alternativa que preserva o sentido original. Correta: mesmo valor semântico (causal).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Desde que" é locução condicional (equivale a "se", "caso") ou, em outros contextos, temporal. No poema, não há condição: o eu lírico não diz "escrevo com menos perfeição se me faltar a simplicidade". A relação é de causa já estabelecida, não de condição hipotética. Erro: troca de valor semântico (causal → condicional).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Assim como" é locução comparativa: estabelece comparação entre dois elementos (ex.: "Assim como as flores têm cor, escrevo"). No trecho, "porque" não compara nada — ele introduz uma justificativa. Aliás, a comparação já aparece antes, com "como as flores têm cor"; trocar o conectivo causal por um comparativo quebraria a lógica do período. Erro: troca de valor semântico (causal → comparativo).
Alternativa E — ❌ Incorreta
"De forma que" é locução consecutiva: indica consequência/efeito (ex.: "Estudou tanto, de forma que passou"). No poema, a oração "me falta a simplicidade divina" não é consequência de escrever com menos perfeição — é a causa. Inverter a relação (fazer a falta de simplicidade virar efeito) contraria o sentido original. Erro: troca de valor semântico (causal → consecutiva).
PEGA ESSA DICA!
Ao substituir conectivos, pergunte: "que relação lógica essa conjunção estabelece no contexto?" Depois, teste cada alternativa substituindo no trecho e veja se o sentido continua o mesmo. Desconfie de locuções que mudam a relação (causa vira condição, proporção, etc.).
Gabarito: letra B — "uma vez que" é a única locução causal entre as opções, preservando o sentido original do poema.