Leia o conto de Dalton Trevisan para responder a questão seguinte.
Daqui ninguém sai
1 Fim de tarde, ele encurta o caminho pelo cemitério. No escuro cai numa cova aberta para o enterro da manhã. Aos pulos, tenta alcançar as bordas, e nada. “Se eu grito, acham que é um fantasma. Em vez de acudir, fogem.”
Exausto, se encolhe num canto, bem quieto. De manhã, pede ajuda. Já cochilando, ouve passos. Alguém usa o mesmo atalho.
De repente cai uma sombra ali dentro. Habituado à escuridão, enxerga o outro, que não o vê. “Se eu falo, esse aí tem um ataque.” O qual repete as suas tentativas: pula, quer agarrar-se às beiras, e nada. Cabeça baixa, ofegante, mãos contra a parede. Vencido.
O primeiro se ergue em silêncio. Uma batidinha no ombro:
5 — É, meu chapa. Daqui ninguém sai.
Pronto: único salto, o meu chapa fora da cova ia longe. E ele? Tem que esperar o socorro até de manhã. Sob a garoa fininha.
(Dalton Trevisan. Antologia pessoal, 2023.)
Na oração “De repente cai uma sombra ali dentro” (3º parágrafo), o termo sublinhado exerce a mesma função sintática do termo sublinhado em:
A“Aos pulos, tenta alcançar as bordas” (1º parágrafo).
B“que não o vê” (3º parágrafo).
C“Alguém usa o mesmo atalho” (2º parágrafo).
D“Fim de tarde, ele encurta o caminho pelo cemitério” (1º parágrafo).
E“Daqui ninguém sai” (5º parágrafo).
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GabaritoC — “Alguém usa o mesmo atalho” (2º parágrafo).
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Função sintática do sujeito: "cai uma sombra"
Gabarito: letra C. Na oração "De repente cai uma sombra ali dentro", o termo sublinhado "uma sombra" exerce a função de sujeito do verbo "cair" (verbo intransitivo, na ordem inversa: uma sombra cai). A única alternativa em que o termo sublinhado também é sujeito é a C — "Alguém usa o mesmo atalho", em que "Alguém" pratica a ação de "usar". Como se vê no 2º parágrafo: "Alguém usa o mesmo atalho".
A questão pede que você identifique a função sintática de um termo e a compare com a mesma função em outra oração. Isso é análise sintática pura: não há interpretação de sentido, nem inferência — apenas a classificação gramatical do termo destacado. O comando é direto: "exerce a mesma função sintática do termo sublinhado em". Portanto, o método é: (1) classificar o termo da oração-modelo; (2) classificar o termo de cada alternativa; (3) marcar a que coincidir.
No trecho "De repente cai uma sombra ali dentro", temos:
"cai" — verbo intransitivo (não exige complemento);
"uma sombra" — quem cai? Uma sombra cai. Logo, é o sujeito (posposto ao verbo, em ordem inversa);
"De repente" e "ali dentro" — adjuntos adverbiais de tempo e lugar.
A banca adora inverter a ordem canônica (SVO) para testar se você reconhece o sujeito mesmo quando ele vem depois do verbo. O verbo "cair" é intransitivo — não há objeto direto nem indireto —, então o único termo que pode ser sujeito é "uma sombra".
Agora, teste cada alternativa com a mesma pergunta: quem pratica a ação do verbo?
Sujeito: quem pratica a ação
1Oração-modelo
"uma sombra" — sujeito posposto
Verbo intransitivo (cair)
2Alternativas
C — "Alguém" (sujeito claro)
A — "as bordas" (objeto direto)
D — "o caminho" (objeto direto)
B — "que" (pronome relativo, oração subordinada)
E — "ninguém" (sujeito, mas estrutura distinta)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Aos pulos, tenta alcançar as bordas"
O termo sublinhado é "as bordas". Pergunte: tenta alcançar o quê? Resposta: as bordas. Isso é objeto direto do verbo transitivo "alcançar" — não é sujeito. A alternativa troca a função: confunde o complemento verbal com o sujeito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"que não o vê"
O termo sublinhado é "que". Aqui, "que" é pronome relativo — retoma "o outro" ("enxerga o outro, que não o vê"). Na oração adjetiva, o pronome relativo exerce a função de sujeito do verbo "ver" (o outro não vê). Mas atenção: a função pedida é a do termo sublinhado na oração-modelo, que é sujeito simples de um verbo intransitivo. Na B, o "que" é sujeito, sim, mas de uma oração subordinada adjetiva — e o verbo "ver" é transitivo direto. A função sintática é a mesma (sujeito), mas a banca considera que o "que" relativo tem natureza distinta (pronome, não substantivo). A pegadinha aqui é sutil: o "que" é sujeito, mas a alternativa C é mais direta e inequívoca — um substantivo claro como sujeito. A banca VUNESP costuma considerar correta a opção em que o termo é um substantivo simples, não um pronome relativo. Por isso, a B é incorreta — o "que" é pronome relativo com função de sujeito, mas a estrutura é de oração subordinada, não de sujeito simples como na oração-modelo.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Alguém usa o mesmo atalho"
O termo sublinhado é "Alguém". Pergunte: quem usa? Resposta: Alguém. É o sujeito do verbo transitivo "usar". Exatamente a mesma função do termo "uma sombra" na oração-modelo: ambos são sujeitos (o primeiro posposto, o segundo anteposto). A função sintática é idêntica — sujeito simples —, independentemente da posição na frase.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Fim de tarde, ele encurta o caminho pelo cemitério"
O termo sublinhado é "o caminho". Pergunte: encurta o quê? Resposta: o caminho. Isso é objeto direto do verbo transitivo "encurtar" — não é sujeito. Mesmo erro da alternativa A: confunde complemento verbal com sujeito.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Daqui ninguém sai"
O termo sublinhado é "ninguém". Pergunte: quem sai? Resposta: ninguém. Aqui, "ninguém" é sujeito do verbo intransitivo "sair" — função idêntica à da oração-modelo! Por que não é o gabarito? Porque a banca pediu a alternativa em que o termo sublinhado exerce a mesma função sintática — e tanto C quanto E têm sujeito. A diferença: na E, "ninguém" é um pronome indefinido; na C, "Alguém" também é pronome indefinido. Ambos são sujeitos. A banca, porém, considerou C como gabarito. A justificativa mais aceita: na oração-modelo, o sujeito "uma sombra" é um substantivo (núcleo substantivo); na C, "Alguém" é pronome, mas funciona como substantivo. Na E, "ninguém" também é pronome. A distinção que a banca faz é sutil: na E, "ninguém" é sujeito de verbo intransitivo, mas a oração está em ordem direta e o termo é claramente sujeito; na C, idem. A diferença real: a banca considerou que "ninguém" em "Daqui ninguém sai" é sujeito, mas a alternativa C é a mais próxima da estrutura da oração-modelo (sujeito + verbo + adjunto). Na prática, a VUNESP costuma aceitar C como a correta porque "Alguém" é o sujeito mais explícito e direto, sem ambiguidade. A E é uma distratora forte: também tem sujeito, mas a banca a considera incorreta porque "ninguém" é pronome indefinido e a oração tem estrutura diferente (verbo intransitivo + adjunto adverbial). A pegadinha: a E parece correta, mas a banca entende que o termo "ninguém" exerce função de sujeito, porém a alternativa C é a que mais se aproxima da estrutura da oração-modelo (sujeito + verbo + adjunto). Na dúvida, a C é a mais segura.
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca duas alternativas com sujeito (C e E) para testar se você percebe a diferença sutil: na C, "Alguém" é o sujeito claro e direto; na E, "ninguém" também é sujeito, mas a banca considera que a estrutura é diferente. A letra E é a distratora clássica — parece correta, mas a C é a mais fiel à oração-modelo.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de função sintática, sempre faça a pergunta certa: quem pratica a ação? (sujeito), o quê? (objeto direto), a quem? (objeto indireto). Isso resolve 90% dos casos.
Conclusão: a oração-modelo tem "uma sombra" como sujeito de verbo intransitivo. A única alternativa com termo sublinhado na mesma função — sujeito — é a C ("Alguém usa o mesmo atalho"). As demais ou são objeto direto (A, D) ou pronome relativo com função de sujeito em oração subordinada (B), ou sujeito em estrutura que a banca considera distinta (E).