Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Geral — VUNESP 2026

PortuguêsGeral
Código
vu166937
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2026
Cargo
Med ( )

Nelson Rodrigues foi desde criancinha homem de jornal

 

  Nelson Rodrigues foi desde criancinha homem de jornal. A partir de certa altura, quando começou a publicar suas memórias e confissões, Nelson repetiu sem parar certos lances de sua biografia. Era, de fato, a "flor de obsessão", como ele próprio se definia. O jornal, pode-se dizer, estava no seu berço. Quando o conheci, era já autor de A mulher sem pecado e acabava de estourar com O vestido de noiva, em 1943. Virou uma celebridade nacional. Uma única peça de estrondoso sucesso, ainda que controvertida, apagou o nosso complexo de inferioridade dramatúrgica. Dizia-se que a literatura brasileira, em todos os gêneros, florescia exuberante de talento e criatividade. Só o teatro tinha ficado para trás.

 

  Não demorou muito e começou a polêmica em torno de seu êxito e de sua obra. Não tenho dúvida de que o próprio Nelson provocou e alimentou essa polêmica. Para isto, serviu-se do jornal. Não apenas dos jornais em que trabalhava, mas de toda a imprensa, na medida em que seu nome passou a ter um eco muito grande.

 

  Só no Brasil, nas circunstâncias do momento em que viveu Nelson, em que viveu sua geração, pode-se admitir que um autor dramático da sua importância tenha permanecido na mais sufocante tarimba do jornal. Por gosto, por escolha, por fatalidade, por hábito, por um indisfarçável apego à rotina, Nelson nunca se afastou do dia a dia da redação. Só nos últimos anos, com a saúde abalada e com os jornais em franca transformação, modificou o seu estilo de vida. Ainda assim, não largou o jornalismo. Juntou-o à sua intensa atividade na televisão. Assinava três colunas diárias e nunca se recusava a escrever qualquer texto que lhe fosse pedido, sobretudo se dissesse respeito às suas peças e às suas convicções.

 

  Fora as peças, que podia escrever em casa, toda a obra de Nelson Rodrigues foi escrita na redação. Escrita e, em boa parte, elaborada. Ou pensada. Podia dizer vivida. Ao contrário do que se pensou a certa altura e até se espalhou, ele nunca bebeu. Não conseguiu largar o cigarro, que naquela época ainda não sofria a campanha que veio a sofrer.

 

  Chegava cedíssimo à redação, como era costume. Ao jornal O Globo eu chegava às seis horas da manhã. Devia ser essa também a hora de Nelson, se não fosse antes. Nelson era um monstro de trabalho. Jamais dava parte de cansado, por mais que se mostrasse abatido.

 

  Sofrendo de uma úlcera, não comia nada que lhe fizesse mal ou que não conhecesse desde a infância. Mas era doido por sanduíches de mortadela e, às vezes, pedia a um amigo que comesse um para ele... ver. Era assim um autêntico voyeur de sanduíche de mortadela. Foi sempre, arraigadamente, um homem de jornal. Seu sangue cheirava a tinta e sua pele era de papel linha-d'água.

 

RESENDE, Otto Lara. Seu palco sempre foi a redação de um jornal. Crônica Brasileira, 22 mar. 1992. Adaptado. Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br. Acesso em: 22 jul. 2026.

Em relação aos hábitos de Nelson Rodrigues, o autor faz afirmações que permitem concluir que Nelson
  1. Aera tabagista inveterado porque, à época, havia uma profusão de campanhas que favoreciam esse hábito.
  2. Btinha o costume de expor colegas que se mostravam cansados pela rotina exaustiva de uma redação de jornal.
  3. Cvinha sempre a público declarar-se abstêmio, haja vista os constantes rumores que afirmavam o contrário.
  4. Dganhou notoriedade por escrever sobre si mesmo e seus trabalhos, rejeitando abordar outros temas em suas colunas.
  5. Edemonstrava cuidado com a própria saúde, mesmo apreciando alimentos que poderiam lhe fazer mal.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — demonstrava cuidado com a própria saúde, mesmo apreciando alimentos que poderiam lhe fazer mal.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Hábitos de Nelson Rodrigues: cuidado com a saúde e a pegadinha da causalidade

Gabarito: letra E. A alternativa E é a única inteiramente sustentada pelo texto: o autor afirma que Nelson, "Sofrendo de uma úlcera, não comia nada que lhe fizesse mal ou que não conhecesse desde a infância", mas, ao mesmo tempo, "era doido por sanduíches de mortadela" — ou seja, ele demonstrava cuidado com a saúde (evitava o que lhe fazia mal) mesmo apreciando alimentos que poderiam prejudicá-lo. As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam informações que ele não traz.

O comando pede uma conclusão a partir das afirmações do autor sobre os hábitos de Nelson. Isso significa que a resposta pode ser uma inferência — desde que ancorada em pistas do texto — e não apenas uma repetição literal. A alternativa correta, porém, está quase explícita: o trecho sobre a úlcera e a mortadela descreve exatamente o comportamento de quem cuida da saúde, mas não abre mão do prazer.

O texto é uma crônica memorialística de Otto Lara Resende sobre Nelson Rodrigues. O autor destaca a dedicação de Nelson ao jornalismo, sua rotina na redação, e, no último parágrafo, revela um traço curioso: apesar da úlcera, Nelson adorava sanduíches de mortadela, a ponto de pedir a um amigo que comesse um para ele ver. Essa passagem é a chave da questão.

A técnica para resolver é simples: teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora? A alternativa correta é a que se apoia em dados presentes no texto, sem exigir suposições. As incorretas, em geral, ou invertem a relação de causa e efeito, ou atribuem a Nelson comportamentos que o texto não menciona.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora inverter a relação de causa e consequência. Na alternativa A, por exemplo, o texto diz que o cigarro "não sofria a campanha" — logo, não havia campanhas que favorecessem o hábito. A alternativa inverte a lógica: diz que as campanhas favoreciam, quando o texto afirma o contrário.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "permitem concluir" pede inferência com pista, não o que está escrito. Desconfie de alternativas que usam "porque" — elas costumam criar uma relação causal que o texto não estabelece.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto afirma que Nelson "não conseguiu largar o cigarro, que naquela época ainda não sofria a campanha que veio a sofrer". Ou seja, na época de Nelson não havia campanhas contra o fumo — e muito menos campanhas que "favorecessem" o hábito. A alternativa inverte a relação causal: diz que as campanhas favoreciam o tabagismo, quando o texto diz exatamente o oposto. Além disso, o texto não diz que Nelson era "tabagista inveterado" — apenas que não conseguiu largar o cigarro.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapola. O texto diz que Nelson "Jamais dava parte de cansado, por mais que se mostrasse abatido". Isso significa que ele não reclamava de cansaço — não que ele "expunha colegas" que estivessem cansados. A alternativa atribui a Nelson um comportamento de delator que o texto não menciona em nenhum momento. É uma extrapolação clara: o texto fala do comportamento de Nelson, não de sua relação com colegas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapola. O texto afirma que "Ao contrário do que se pensou a certa altura e até se espalhou, ele nunca bebeu". Ou seja, o autor corrige um boato de que Nelson bebia. Mas o texto não diz que Nelson "vinha sempre a público declarar-se abstêmio" — isso é uma invenção. O texto apenas registra o fato de que ele não bebia, sem mencionar qualquer declaração pública. A alternativa acrescenta uma informação que não está no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: restringe e extrapola. O texto diz que Nelson "nunca se recusava a escrever qualquer texto que lhe fosse pedido, sobretudo se dissesse respeito às suas peças e às suas convicções". Isso mostra que ele escrevia sobre vários temas, com preferência por assuntos ligados a suas peças e convicções. A alternativa diz que ele "rejeitava abordar outros temas" — o que contradiz o texto, que afirma que ele escrevia "qualquer texto que lhe fosse pedido". Além disso, o texto não diz que ele "ganhou notoriedade por escrever sobre si mesmo" — isso é uma inferência sem base.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa correta é a E. O texto afirma que Nelson, "Sofrendo de uma úlcera, não comia nada que lhe fizesse mal ou que não conhecesse desde a infância". Isso demonstra cuidado com a saúde: ele evitava alimentos que pudessem agravar sua úlcera. Ao mesmo tempo, o texto diz que "era doido por sanduíches de mortadela" — um alimento que, para quem sofre de úlcera, pode fazer mal. A combinação dessas duas informações permite concluir que Nelson demonstrava cuidado com a própria saúde, mesmo apreciando alimentos que poderiam lhe fazer mal. A alternativa é uma paráfrase fiel do texto, sem acrescentar nada de fora.

Conclusão: a questão testa a habilidade de inferir a partir de pistas textuais. A alternativa E é a única que se sustenta integralmente no texto, enquanto as demais ou contradizem o que está escrito, ou extrapolam informações. Lembre-se: a resposta mora no texto — se você precisar acrescentar algo de fora para a alternativa fazer sentido, ela está errada.

Gabarito: letra E

Link permanente: /questoes/vu166937