Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Substantivo — VUNESP 2023

PortuguêsSubstantivo
Código
vu182726
Banca
VUNESP
Órgão
DPE SP
Ano
2023
Cargo
ODP ( )

Casas amáveis

 

Vocês me dirão que as casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?

 

Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ser humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

 

Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

 

As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro. Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia- -se a sua linguagem com enternecimento. Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides? Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade.

 

Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.

 

Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas — flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas — e suas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril.

 

Afinal, tudo serão arranha-céus.

 

E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas, que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes. Casas amáveis.

 

(Cecília Meireles. Escolha o seu Sonho. Adaptado)

 

Vocabulário:

  • Platibandas: espécies de mureta construída na parte mais alta das paredes externas de uma construção, para proteger e ornamentar a fachada.
  • Compoteiras: elementos ornamentais parecidos com vasos.
  • Monogramas: siglas formadas por uma ou várias letras, conjuntas ou entrelaçadas, significando um símbolo ou a inicial, ou iniciais, de um nome.
  • Cariátides: suportes arquitetônicos, originários da Grécia antiga, que se apresentavam quase sempre com a forma de uma estátua feminina e cuja função era sustentar um entablamento

Leia o texto para responder à questão.

   

Na passagem *... por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril.”, o diminutivo dos substantivos indica

  1. Azombaria nos dois empregos.
  2. Bcrítica no primeiro emprego, e tamanho no segundo.
  3. Ctamanho primeiro emprego, e intensidade no segundo.
  4. Dironia no primeiro emprego, e desdém no segundo.
  5. Eafetividade nos dois empregos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — afetividade nos dois empregos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O diminutivo afetivo em "Casas amáveis"

Gabarito: letra E. Os diminutivos "cortininhas" e "gatinho" expressam afetividade — e não tamanho, zombaria, crítica ou ironia. A passagem que prova isso é a descrição nostálgica e carinhosa das casas antigas, em que a autora enumera "suas ingênuas alegrias íntimas" e lamenta seu desaparecimento, como se lê no trecho: "suas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril."

O comando pede que se identifique o valor semântico do grau diminutivo no contexto. Não se trata de uma questão de compreensão literal, mas de interpretação do efeito de sentido que o sufixo "-inho/-inha" produz no texto. A banca quer saber se o candidato percebe que o diminutivo, além de indicar tamanho, pode carregar valores subjetivos — e aqui o valor é claramente afetivo, reforçado pelo tom geral do texto.

O texto de Cecília Meireles é uma elegia às casas antigas: a autora as descreve como "expressivas, comunicantes" e "amáveis", opondo-as aos "arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos". Todo o vocabulário é carregado de afeto — "festa", "alegria", "vestido de noiva", "árvore de Natal", "ingênuas alegrias íntimas", "risonhas proprietárias". Nesse contexto, "cortininhas" e "gatinho" não indicam objetos pequenos, mas objetos queridos, que despertam ternura. O diminutivo, aqui, é um recurso expressivo de conotação afetiva, e não uma informação objetiva de tamanho.

A distinção central é entre denotação (sentido literal: "cortininha" = cortina pequena) e conotação (sentido figurado: "cortininha" = cortina que inspira carinho). No texto, o contexto de saudade e valorização do passado obriga a leitura afetiva. Se a autora quisesse apenas informar o tamanho, não haveria a carga emocional que permeia todo o parágrafo. Perceba que ela diz "Ah! não veremos mais essas palavras" — a exclamação e a repetição de "não veremos mais" revelam pesar, não zombaria.

A pegadinha da banca está em explorar a polissemia do diminutivo: o mesmo sufixo pode indicar tamanho ("casinha" = casa pequena), afetividade ("mãezinha"), ironia ("espertinho"), depreciação ("livrinho" = livro sem valor) etc. O candidato apressado marca "tamanho" porque é o valor mais comum, mas o texto desautoriza essa leitura. A regra de ouro: o contexto decide o valor do diminutivo — nunca o sufixo isoladamente.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar um diminutivo, pergunte: "o autor quer informar o tamanho ou expressar um sentimento?" Se houver carga emocional (carinho, ironia, desprezo), o valor é conotativo. Grife as palavras que indicam o tom do texto ("amáveis", "tristes", "saudade") — elas são a bússola.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Zombaria nos dois empregos. O texto não tem nenhum traço de zombaria. A autora fala com ternura das casas antigas: "Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes. Casas amáveis." Zombaria seria um tom de escárnio ou deboche, que não aparece em nenhum momento. A alternativa extrapola um valor negativo que o texto não sustenta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Crítica no primeiro emprego, e tamanho no segundo. Não há crítica em "cortininhas" — a autora as descreve com carinho, dentro de uma cena acolhedora ("de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril"). Tampouco "gatinho" indica tamanho: o contexto é de afeto, não de medida. A alternativa contradiz o tom do texto e troca o valor semântico do sufixo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Tamanho no primeiro emprego, e intensidade no segundo. "Cortininhas" não indica tamanho — indica afeto. "Gatinho" também não expressa intensidade (que seria algo como "gatinhíssimo"). A alternativa restringe o diminutivo ao valor denotativo e inventa um valor de intensidade que não existe no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Ironia no primeiro emprego, e desdém no segundo. Ironia e desdém são valores negativos, opostos ao tom do texto. A autora lamenta a perda das casas: "as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas". Não há ironia (dizer o contrário do que se pensa) nem desdém (desprezo). A alternativa contradiz a tese do texto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Afetividade nos dois empregos. Tanto "cortininhas" quanto "gatinho" expressam carinho e ternura. A prova está no contexto: a autora descreve as casas como "amáveis" e "expressivas", e a cena da janela com cortininhas e gatinho é um quadro de aconchego doméstico. O diminutivo, aqui, é um recurso de conotação afetiva — não informa tamanho, mas transmite o sentimento da autora em relação ao que está sendo descrito. A alternativa é a única inteiramente sustentada pelo texto.

Conclusão: a questão ensina que o diminutivo é polissêmico — seu valor depende do contexto. A banca adora cobrar isso: o candidato que decora "diminutivo = tamanho" erra; o que lê o texto e percebe o tom afetivo acerta. Gabarito: letra E.

Link permanente: /questoes/vu182726