Questão de Português — Formação e Estrutura das Palavras — VUNESP 2023
Português›Formação e Estrutura das Palavras
Código
vu183161
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2023
Cargo
CFO/QC ( )
Para responder a questão, leia o fragmento a seguir.
A hora era de muito sol – o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava.
(João Guimarães Rosa, “Soroco, sua mãe, sua filha”, em Primeiras estórias.)
A criação neológica é uma característica da prosa de Guimarães Rosa. No texto, as palavras “reluzências” e “canoão” suscitam
Ao preciosismo da linguagem, por meio da parassíntese.
Ba vivacidade da língua, por meio da derivação imprópria.
Ca tonalidade afetiva de ênfase, por meio da derivação sufixal.
Da depreciação das ideias, por meio da derivação regressiva.
Ea imprecisão da linguagem, por meio da derivação prefixal.
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GabaritoC — a tonalidade afetiva de ênfase, por meio da derivação sufixal.
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Derivação sufixal e efeito de sentido em Guimarães Rosa
Gabarito: letra C. As palavras “reluzências” e “canoão” são formadas por derivação sufixal — acréscimo de sufixo ao radical — e produzem tonalidade afetiva de ênfase: o sufixo -ência (em “reluzências”) e o sufixo -ão (em “canoão”) intensificam a ideia de brilho e de tamanho, respectivamente. O texto confirma essa leitura ao descrever o carro como um “canoão no seco, navio” e as “reluzências do ar”, em que a luz parece deformar a visão.
O comando da questão
O enunciado pede que você relacione o processo de formação das palavras (criação neológica) ao efeito de sentido que elas produzem no texto. Não basta saber que são neologismos; é preciso identificar como foram formadas (qual processo) e qual efeito isso gera (ênfase, afetividade, depreciação etc.). A banca mistura os dois aspectos: cada alternativa combina um processo (parassíntese, derivação imprópria, sufixal, regressiva, prefixal) com um efeito (preciosismo, vivacidade, afetividade, depreciação, imprecisão).
O texto e a pista decisiva
No fragmento, o narrador observa o carro sob o sol forte: “O carro lembrava um canoão no seco, navio”. A palavra “canoão” é formada pelo radical canoa + sufixo -ão (aumentativo). O sufixo -ão não apenas indica tamanho maior, mas também carrega uma carga afetiva — o narrador vê o carro como algo grande, imponente, quase um navio. Já “reluzências” vem de reluzir + sufixo -ência (formador de substantivos abstratos que indicam qualidade/estado). O sufixo -ência aqui não só nominaliza o verbo, mas também intensifica a ideia de brilho: não é apenas “luz”, é um brilho intenso, múltiplo, que se espalha no ar. A combinação dos dois sufixos gera uma tonalidade afetiva de ênfase: o narrador não descreve objetivamente, mas valoriza o que vê, dando grandeza e luminosidade à cena.
A técnica que decide
Para resolver, você precisa dominar os processos de derivação e saber identificar o efeito de sentido que cada sufixo/prefixo produz. Veja o quadro:
Processo
Como funciona
Exemplo
Efeito típico
Sufixal
Acréscimo de sufixo ao radical
canoa + -ão = canoão
Aumentativo, afetividade, ênfase
Prefixal
Acréscimo de prefixo ao radical
in + justo = injusto
Negação, oposição
Parassintética
Prefixo + sufixo simultâneos (retirar um, a palavra deixa de existir)
em + magr + ecer = emagrecer
Transformação, processo
Regressiva
Redução do verbo para formar substantivo
dançar → dança
Ação, resultado
Imprópria
Mudança de classe sem alterar a forma
o olhar (verbo → substantivo)
Conversão
No caso, “reluzências” e “canoão” são claramente derivação sufixal: há um radical (reluz-, canoa-) + um sufixo (-ência, -ão). Não há prefixo, não há parassíntese (retirar o sufixo não deixa a palavra inexistente: “reluz” e “canoa” existem), não há redução verbal (não vieram de verbos que foram encurtados) e não há mudança de classe (continuam substantivos). O efeito é de ênfase afetiva: o sufixo -ão é aumentativo e carrega admiração; o sufixo -ência forma substantivos que expressam qualidade intensa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura o processo de formação com o efeito de sentido. A alternativa B, por exemplo, acerta o efeito (“vivacidade”) mas erra o processo (“derivação imprópria”). A alternativa A acerta o processo? Não — “reluzências” e “canoão” não têm prefixo, então não é parassíntese. A pegadinha clássica é confundir derivação sufixal com parassíntese ou derivação imprópria.
Derivação sufixal: Sufixo -ência (reluzências, intensifica o brilho); Sufixo -ão (canoão, aumentativo afetivo); Efeito de sentido (tonalidade afetiva, ênfase)
Alternativa A — ❌ Incorreta
“o preciosismo da linguagem, por meio da parassíntese” — Erro: troca de processo. As palavras “reluzências” e “canoão” não são formadas por parassíntese. A parassíntese exige prefixo + sufixo simultâneos, como em emagrecer (em- + magr- + -ecer). Aqui, há apenas sufixo: reluz-ência e canoa-ão. Além disso, o efeito não é “preciosismo” (excesso de requinte), mas ênfase afetiva. A alternativa erra nos dois aspectos.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“a vivacidade da língua, por meio da derivação imprópria” — Erro: troca de processo. A derivação imprópria (ou conversão) ocorre quando a palavra muda de classe gramatical sem alterar a forma, como em o olhar (verbo → substantivo). No texto, “reluzências” e “canoão” continuam substantivos — não houve mudança de classe. O efeito de “vivacidade” até se aproxima, mas o processo está errado. A banca troca o processo para confundir.
Alternativa C — ✅ Correta
“a tonalidade afetiva de ênfase, por meio da derivação sufixal” — Correta. As palavras são formadas por derivação sufixal: reluz-ência (sufixo -ência, que forma substantivos abstratos e intensifica a qualidade) e canoa-ão (sufixo -ão, aumentativo com carga afetiva). O efeito é de ênfase afetiva: o narrador valoriza a cena, dando grandeza ao carro e intensidade à luz. O texto confirma: “O carro lembrava um canoão no seco, navio” — o aumentativo “canoão” transmite admiração; “nas reluzências do ar” — o sufixo -ência intensifica o brilho.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“a depreciação das ideias, por meio da derivação regressiva” — Erro: efeito invertido + processo errado. A derivação regressiva forma substantivos a partir de verbos por redução (ex.: dançar → dança). Aqui, “reluzências” e “canoão” não vêm de redução verbal; são formadas por sufixação. Além disso, o efeito não é de depreciação (rebaixamento), mas de valorização/ênfase. O sufixo -ão, em “canoão”, não diminui nem deprecia; ele engrandece.
Alternativa E — ❌ Incorreta
“a imprecisão da linguagem, por meio da derivação prefixal” — Erro: processo errado + efeito errado. Não há prefixo em “reluzências” nem em “canoão” — são formadas por sufixo. O efeito também não é de imprecisão (falta de clareza); pelo contrário, os sufixos precisam e intensificam o sentido: “reluzências” não é qualquer luz, é um brilho intenso; “canoão” não é qualquer canoa, é uma canoa grande. A alternativa erra nos dois aspectos.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de formação de palavras, identifique primeiro o radical e os afixos. Pergunte: há prefixo? há sufixo? os dois são simultâneos? Se houver só sufixo, é derivação sufixal. Depois, analise o efeito de sentido: aumentativo/diminutivo, intensidade, afetividade, depreciação etc. Isso elimina rapidamente as alternativas que misturam processo e efeito.
Conclusão: a única alternativa que acerta tanto o processo (derivação sufixal) quanto o efeito (tonalidade afetiva de ênfase) é a letra C. As demais erram ao trocar o processo (A, B, D, E) ou o efeito (A, D, E).