Questão de Português — Questões Variadas de Verbo — VUNESP 2023
Português›Questões Variadas de Verbo
Código
vu183541
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2023
Cargo
V - - Vest ( )
Leia o soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, para responder a questão.
Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes
Os Zéfiros 1 brincar por entre as flores?
Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos 2 ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!
Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha para.
Ora nos ares, sussurrando, gira.
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a noite me causara.
(Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poemas escolhidos, 1974.)
1 Zéfiro: vento que sopra do ocidente. 2 ósculo: beijo.
Na linguagem literária, visando obter maior expressividade, pode-se empregar um tempo verbal em lugar de outro. É o que ocorre nos seguintes versos:
A“Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes / Os Zéfiros brincar por entre as flores?” (1ª estrofe)
B“Ora nas folhas a abelhinha para. / Ora nos ares, sussurrando, gira.” (3ª estrofe)
C“Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira, / Mais tristeza que a noite me causara.” (4ª estrofe)
D“Olha, Marília, as flautas dos pastores, / Que bem que soam, como estão cadentes!” (1ª estrofe)
E“Vê como ali, beijando-se, os Amores / Incitam nossos ósculos ardentes!” (2ª estrofe)
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GabaritoC — “Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira, / Mais tristeza que a noite me causara.” (4ª estrofe)
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Emprego expressivo dos tempos verbais no soneto de Bocage
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que um tempo verbal é empregado no lugar de outro para obter expressividade: o verbo "vira" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo, de ver) e "causara" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo, de causar) são usados com valor de futuro do pretérito ("se eu não te visse, mais tristeza que a noite me causaria"). Essa substituição é um recurso estilístico clássico da língua literária, e é exatamente o que o enunciado pede.
O comando da questão é direto: identificar em qual trecho ocorre a substituição de um tempo verbal por outro com finalidade expressiva. Isso não é uma questão de compreensão de texto, mas de gramática aplicada ao texto — precisamos analisar o valor semântico de cada forma verbal no contexto em que aparece. A banca não quer que você interprete o poema, mas que reconheça um fenômeno morfológico específico: o uso de um tempo no lugar de outro.
No soneto, o eu lírico descreve uma manhã alegre e campestre para Marília, mas na última estrofe há uma reviravolta: "Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira, / Mais tristeza que a noite me causara." O conectivo "Mas" já sinaliza a oposição — tudo aquilo que parece belo se tornaria triste se Marília não estivesse ali. É nesse trecho que mora a resposta.
A técnica para resolver: identifique o tempo verbal padrão de cada forma e verifique se ele está sendo usado com o valor de outro tempo. No português, o pretérito mais-que-perfeito composto ("tinha visto") e o simples ("vira") podem, em linguagem literária, substituir o futuro do pretérito ("veria") para expressar um fato hipotético, irreal ou condicional. É o que ocorre aqui: "se eu não te vira" = "se eu não te visse" (pretérito imperfeito do subjuntivo, expressando condição) e "me causara" = "me causaria" (futuro do pretérito, expressando consequência).
NÃO CAIA NESSA!
A banca não pede para identificar o tempo verbal em si, mas o emprego de um tempo no lugar de outro. As alternativas A, B, D e E usam os tempos verbais em seu valor próprio e esperado (presente do indicativo, imperativo), sem qualquer substituição expressiva. A armadilha é o candidato marcar qualquer trecho com verbos no presente, sem perceber que ali não há deslocamento temporal.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver "se eu não te vira", pergunte-se: "vira" está no tempo que eu esperaria numa oração condicional? Não — o esperado seria "visse". Esse estranhamento é o sinal de que há um tempo verbal empregado por outro.
Emprego expressivo de tempos verbais
1Conceito
Um tempo no lugar de outro
Recurso de linguagem literária
2Caso do gabarito
"Vira" (mais-que-perfeito)
valor de futuro do pretérito ("veria")
"Causara" (mais-que-perfeito)
valor de futuro do pretérito ("causaria")
3Uso próprio (sem deslocamento)
Presente do indicativo
Imperativo
Infinitivo
Gerúndio
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes / Os Zéfiros brincar por entre as flores?"
Aqui, "Olha" é imperativo (ordem/pedido), "sentes" é presente do indicativo, "brincar" é infinitivo. Todos os tempos estão em seu valor próprio: o eu lírico pede que Marília olhe e pergunta se ela não sente. Não há substituição de um tempo por outro. O erro é de troca de conceito: a alternativa apresenta verbos em tempos diferentes, mas todos usados normalmente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Ora nas folhas a abelhinha para. / Ora nos ares, sussurrando, gira."
"Para" e "gira" estão no presente do indicativo, descrevendo ações habituais da abelha. O uso do presente para descrever cenas é normal e não configura substituição expressiva. A alternativa tangencia o tema: fala de verbos, mas não do fenômeno pedido.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira, / Mais tristeza que a noite me causara."
"Vira" e "causara" são pretéritos mais-que-perfeitos do indicativo, mas estão empregados com valor de futuro do pretérito ("veria" e "causaria"). A oração condicional "se eu não te vira" equivale a "se eu não te visse", e a consequência "me causara" equivale a "me causaria". Esse deslocamento temporal é um recurso expressivo típico da linguagem literária, exatamente o que o enunciado descreve.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Olha, Marília, as flautas dos pastores, / Que bem que soam, como estão cadentes!"
"Olha" é imperativo, "soam" e "estão" são presentes do indicativo. Todos os tempos estão em seu valor próprio: o eu lírico chama a atenção de Marília e descreve o som das flautas. Não há substituição expressiva. O erro é de troca de conceito: a alternativa apresenta verbos no presente, mas sem deslocamento temporal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Vê como ali, beijando-se, os Amores / Incitam nossos ósculos ardentes!"
"Vê" é imperativo, "Incitam" é presente do indicativo, "beijando-se" é gerúndio. Todos os tempos estão em seu valor próprio: o eu lírico pede que Marília veja e descreve os Amores incitando os beijos. Não há substituição de um tempo por outro. A alternativa tangencia o tema: fala de verbos, mas não do fenômeno pedido.
Conclusão: a questão testa o reconhecimento do emprego expressivo dos tempos verbais, um recurso estilístico em que o autor usa um tempo no lugar de outro para criar efeito de sentido. A única alternativa que apresenta esse fenômeno é a C, com o pretérito mais-que-perfeito no lugar do futuro do pretérito. Ao resolver questões assim, pergunte-se sempre: "este tempo verbal está sendo usado com o valor que eu esperaria, ou há um deslocamento?".