Questão de Português — Questões Mescladas de Ortografia — VUNESP 2023
Português›Questões Mescladas de Ortografia
Código
vu183562
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
O anúncio a seguir foi publicado no jornal O Farol Paulistano em 6 de agosto de 1828.
João Rost, Cirurgião Dentista, approvado por varias faculdades de Medicina tem a honra de avizar a este respeitavel publico, que ele tira, alimpa, chumba dentes, e os faz claros por sujos que elles sejão, e tambem transplanta os dente da frente como naturaes, ou ainda mais fortes, sendo a pessoa livre de molestias chrónicas. Tambem em sua casa se vende elixir antiscorbútico para tirar a dôr de dentes, a sua moradia é na Rua de Santa Thereza número 10, e também está prompto a ir a qualquer casa aonde o mandem chamar.
E os preços eram commodos... Anúncios de jornais brasileiros – século XIX.
São Paulo: Humanitas – FFLCH/USP. p. 358. Adaptado)
Do exame do anúncio, pode-se depreender que
Aa ausência da marca de acento em termos como “varias”, “publico” e “respeitavel” é um indicativo de que, naquela época, essas palavras ainda não tinham sílaba tônica, e por isso não recebiam o acento gráfico.
Ba ocorrência de “sejão” mostra que a sequência “ão” era usada naquela época para representar a mesma combinação de fonemas representada pela sequência “am” na escrita padrão do português contemporâneo.
Cas ocorrências de “avizar”, em lugar de “avisar”, e de “dôr”, em lugar de “dor”, mostram que a pronúncia dessas palavras era diferente do modo como são pronunciadas atualmente, o que se refletia no modo como eram escritas.
Da presença de palavras que não mais ocorrem no português contemporâneo, como “chrónicas” e “naturaes”, evidencia que o léxico do português sofreu alterações, perdendo alguns vocábulos, mas ganhando outros novos.
Eo uso de consoantes dobradas, em itens como “approvado” e “elles”, indica que certas palavras daquela época podiam ser usadas com um sentido diferente do que apresentam no português contemporâneo.
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GabaritoB — a ocorrência de “sejão” mostra que a sequência “ão” era usada naquela época para representar a mesma combinação de fonemas representada pela sequência “am” na escrita padrão do português contemporâneo.
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Variação ortográfica histórica no português
Gabarito: letra B. A ocorrência de “sejão” no anúncio de 1828 mostra que a sequência “ão” era usada, naquela época, para representar a mesma combinação de fonemas que hoje representamos com “am” na escrita padrão — ou seja, a grafia mudou, mas o som permaneceu o mesmo. A pista está no próprio texto: a forma “sejão” corresponde ao atual “sejam”, e a alternativa B é a única que estabelece essa correspondência sem inventar diferenças de pronúncia ou de sentido.
O comando pede que se depreenda algo do anúncio — ou seja, exige uma inferência ancorada no texto, não uma leitura literal. A tarefa é observar as grafias do século XIX e relacioná-las com o português contemporâneo, identificando o que elas revelam sobre a língua da época. Para resolver, é preciso comparar cada palavra do anúncio com sua forma atual e perguntar: a diferença é gráfica (só a escrita mudou) ou fonética (a pronúncia mudou)?
O texto é um anúncio de jornal de 1828, escrito por um cirurgião-dentista. Nele aparecem várias grafias que hoje consideramos arcaicas: “approvado”, “avizar”, “publico”, “respeitavel”, “sejão”, “dôr”, “chrónicas”, “naturaes”, “commodos”. A questão central é interpretar essas grafias: algumas refletem apenas a ortografia da época (como “sejão” por “sejam”), outras indicam mudanças fonéticas reais (como “dôr” por “dor”, que na época tinha vogal fechada e hoje tem vogal aberta). A alternativa B acerta ao identificar que “sejão” e “sejam” representam o mesmo som — a diferença é puramente ortográfica.
A armadilha central da questão é a extrapolação: várias alternativas tentam fazer o candidato acreditar que diferenças de grafia implicam diferenças de pronúncia ou de sentido. A banca sabe que o candidato pode se confundir e achar que “avizar” (com Z) indica pronúncia diferente, ou que “approvado” (com PP dobrado) muda o sentido. Mas o texto não autoriza essas conclusões — ele apenas mostra grafias de outra época. A regra de ouro é: toda diferença de grafia deve ser testada contra o que sabemos da evolução da língua; se a pronúncia atual é a mesma, a diferença é gráfica; se a pronúncia mudou, aí sim há mudança fonética.
A alternativa afirma que a ausência de acento em “varias”, “publico” e “respeitavel” indica que essas palavras não tinham sílaba tônica na época. Isso é um erro de extrapolação: o texto não diz nada sobre a tonicidade dessas palavras. Na verdade, todas têm sílaba tônica — “várias”, “público”, “respeitável” — e a ausência de acento na grafia antiga se devia a convenções ortográficas da época, não à inexistência de tonicidade. A alternativa contradiz o que sabemos da língua: toda palavra tem sílaba tônica, e a falta de acento gráfico não elimina a tonicidade.
Alternativa B — ✅ Correta
A alternativa B é a única inteiramente sustentada pelo texto. A forma “sejão” aparece no anúncio: “por sujos que elles sejão”. No português contemporâneo, escrevemos “sejam”. A sequência “ão” e a sequência “am” representam, em final de palavra, o mesmo conjunto de fonemas: a vogal nasal [ãw] (ou [ɐ̃w], dependendo da análise). A grafia mudou ao longo do tempo — o “ão” foi substituído por “am” na 3ª pessoa do plural de certos verbos — mas o som permaneceu. A alternativa B capta exatamente essa relação: “ão” era usado para representar a mesma combinação de fonemas que hoje representamos com “am”. Não há extrapolação: a correspondência é direta e comprovável pelo par “sejão”/“sejam”.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que “avizar” (com Z) e “dôr” (com acento) mostram que a pronúncia dessas palavras era diferente da atual. Isso é uma extrapolação para “avizar”: a troca de S por Z em “avizar” é uma variação gráfica histórica — a palavra sempre foi pronunciada com o som de Z, e a grafia com S ou Z era indiferente na época. Já “dôr” realmente indica uma pronúncia com vogal fechada, que hoje é aberta em “dor”. Mas a alternativa generaliza: diz que ambas mostram pronúncia diferente, o que é falso para “avizar”. O texto não autoriza afirmar que a pronúncia de “avizar” era diferente — apenas que a grafia era outra.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que palavras como “chrónicas” e “naturaes” não mais ocorrem no português contemporâneo. Isso é um erro de restrição: essas palavras existem hoje, apenas com grafia diferente — “crônicas” e “naturais”. A alternativa confunde grafia arcaica com vocábulo extinto. O texto não diz que essas palavras desapareceram; ele apenas as apresenta com a ortografia da época. A alternativa extrapola ao afirmar que o léxico perdeu esses vocábulos, quando na verdade eles continuam vivos, apenas com outra forma escrita.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que o uso de consoantes dobradas em “approvado” e “elles” indica que essas palavras podiam ser usadas com sentido diferente do atual. Isso é uma extrapolação absurda: a duplicação de consoantes na grafia antiga era uma convenção ortográfica (influência do latim e do francês), não um recurso para distinguir sentidos. “Aprovado” e “elles” (hoje “eles”) têm exatamente o mesmo sentido. A alternativa inventa uma função semântica para a grafia que o texto não menciona e que não existe na história da língua.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer você acreditar que toda diferença de grafia implica diferença de pronúncia ou de sentido. A única alternativa que respeita a relação entre grafia e som é a B — as demais extrapolam, restringem ou contradizem o texto.
PEGA ESSA DICA!
Ao comparar grafias antigas e modernas, pergunte: “o som mudou ou só a escrita?”. Se o som é o mesmo, a diferença é gráfica; se o som mudou, aí sim há mudança fonética. Essa pergunta resolve a questão.