Questão de Português — Questões Mescladas de Ortografia — VUNESP 2023
Português›Questões Mescladas de Ortografia
Código
vu183569
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
Hotel Universal em Campinas
Rua do Commercio número 43
Este estabelecimento acha-se hoje montado com todo necessario. Os senhores viajantes ahi encontrarão sempre bons commodos, salão e quartos mobiliados. Um excellente cosinheiro e muito bons empregados servirão com a maior promptidão e aceio. Tem constantemente um completo sortimento de bebidas e refrescos e um sortimento de doces de todas as qualidades. Aprompta qualquer petisco sem demora. Recebe pensionistas internos e externos e manda comida para fóra por muito diminutos preços. Garante bem servir os freguezes para o que não poupa nem trabalho nem despeza. Tem cocheira para animaes onde são tratados perfeitamente com abundancia de capim e milho, e mandando-se laval-os e escoval-os. Estão a chegar ao mesmo hotel bons bilhares, jogos de bagatella, xadrez, damas, dominó, etc.
(Adaptado de: Guedes, Marymarcia & Berlinck, Rosane (orgs). (2000)
E os preços eram commodos… Anúncios de jornais brasileiros – século XIX.
São Paulo: Humanitas – FFLCH/USP. p. 280)
Leia o texto a seguir, transcrição de um anúncio comercial publicado na Gazeta de Campinas, em 23 de junho de 1870.
A partir da análise desse anúncio, é correto afirmar que
Aa pronúncia das palavras “excelente” e “cômodos” era diferente da pronúncia atual, por isso eram escritas com consoantes dobradas (“excellente” e “commodos”).
Bseu autor tinha baixo nível de escolarização, o que o levou a escrever várias palavras em desacordo com a norma ortográfica, como “animaes”, “ahi” e “promptidão”.
Ca palavra “aceio”, escrita atualmente com “ss”, sugere que houve uma mudança na forma de representar os fonemas representados pela letra “c”.
Da ocorrência de palavras como “cosinheiro” e “freguezes” indica que as letras “s” e “z” eram usadas para representar um mesmo fonema, tal como no sistema ortográfico atual.
Ea ocorrência de “laval-os” e “escoval-os” mostra que os verbos eram conjugados de forma diferente, com o sufixo número-pessoal “os” sendo flexionado fora da raiz verbal.
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GabaritoD — a ocorrência de palavras como “cosinheiro” e “freguezes” indica que as letras “s” e “z” eram usadas para representar um mesmo fonema, tal como no sistema ortográfico atual.
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A relação entre letras e fonemas no anúncio do século XIX
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única correta porque as palavras "cosinheiro" e "freguezes" mostram que as letras "s" e "z" eram usadas para representar o mesmo fonema — o som de /z/ entre vogais — exatamente como ocorre no sistema ortográfico atual, em que "casa" e "cozinha" têm o mesmo som de /z/ grafado de formas diferentes. O texto não autoriza nenhuma das outras afirmações: elas ou extrapolam (A, B, C) ou contradizem a análise linguística (E).
O comando: o que a questão pede
O enunciado pede uma análise do anúncio: "a partir da análise desse anúncio, é correto afirmar que". Isso significa que cada alternativa deve ser comprovada por elementos do próprio texto — não por conhecimentos externos, nem por suposições. A questão mistura compreensão (o que o texto mostra) com conhecimento de fonologia e ortografia (como letras e sons se relacionam). O candidato precisa observar as palavras do anúncio e identificar qual afirmação sobre elas é verdadeira.
O texto: o que ele revela
O anúncio é uma transcrição de 1870, com grafias da época: "commodos", "excellente", "ahi", "promptidão", "aceio", "cosinheiro", "freguezes", "laval-os", "escoval-os". Essas grafias não são erros de um autor ignorante — são registros históricos da língua. A questão explora exatamente isso: o que essas grafias nos dizem sobre a relação entre letras e sons naquele período?
A técnica que decide: letra × fonema
O ponto central é distinguir letra (representação gráfica) de fonema (som). No português, um mesmo fonema pode ser representado por letras diferentes. Por exemplo, o som /z/ pode ser escrito com s ("casa"), com z ("cozinha") ou com x ("exame"). No anúncio, "cosinheiro" usa s para o som /z/, e "freguezes" usa z para o mesmo som /z/. Isso prova que, naquela época, s e z eram usados de forma intercambiável para representar o mesmo fonema — exatamente como hoje, em que "mesa" e "cozinha" têm o mesmo som de /z/ com grafias diferentes.
A alternativa D afirma isso com precisão: "as letras 's' e 'z' eram usadas para representar um mesmo fonema, tal como no sistema ortográfico atual". O texto autoriza essa leitura porque as duas palavras aparecem com esses sons. Não há nenhuma informação no texto que contradiga essa afirmação.
Análise das alternativas
Grafias do anúncio (1870): "cosinheiro" e "freguezes" (s e z representam o mesmo fonema /z/, Igual ao sistema atual (mesa/cozinha)); "excellente" e "commodos" (Consoantes dobradas, Não indicam pronúncia diferente); "animaes", "ahi", "promptidão" (Grafias comuns da época, Não indicam baixa escolaridade); "aceio" (c representava /s/ antes de e/i, Mudou a grafia, não o fonema); "laval-os" e "escoval-os" (Forma antiga de lavá-los/escová-los, Pronome oblíquo enclítico)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a pronúncia de "excelente" e "cômodos" era diferente da atual, por isso eram escritas com consoantes dobradas. Isso é uma extrapolação. O texto não fornece nenhuma informação sobre a pronúncia da época. As grafias "excellente" e "commodos" podem ter razões históricas (como a etimologia latina), mas o anúncio não diz nada sobre como essas palavras eram pronunciadas. A alternativa inventa uma causa (diferença de pronúncia) que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o autor tinha baixo nível de escolarização, o que o levou a escrever palavras em desacordo com a norma. Isso é uma opinião embutida e uma extrapolação. O texto não diz nada sobre a escolaridade do autor. Além disso, as grafias "animaes", "ahi" e "promptidão" eram comuns na época — não eram erros. A alternativa acrescenta um juízo de valor (baixo nível de escolarização) que não tem base no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a palavra "aceio", escrita atualmente com "ss", sugere uma mudança na forma de representar os fonemas representados pela letra "c". Isso é uma confusão conceitual. A palavra "aceio" (hoje "asseio") tem o som de /s/, que na época era representado por "c" (antes de "e" e "i"). A mudança não foi na representação do fonema /s/ em si, mas na grafia da palavra: de "aceio" para "asseio". A alternativa troca o conceito: não houve mudança na representação do fonema, mas sim na escolha da letra para grafá-lo. Além disso, o texto não discute mudanças na representação de fonemas.
Alternativa D — ✅ Correta
A alternativa D é a única que se sustenta no texto. As palavras "cosinheiro" e "freguezes" aparecem no anúncio:
"Um excellente cosinheiro e muito bons empregados servirão com a maior promptidão e aceio." "Garante bem servir os freguezes para o que não poupa nem trabalho nem despeza."
Em "cosinheiro", a letra s representa o som /z/ (como em "casa"); em "freguezes", a letra z representa o mesmo som /z/ (como em "cozinha"). Isso mostra que s e z eram usados para representar o mesmo fonema, exatamente como no sistema atual, em que "mesa" (com s) e "cozinha" (com z) têm o mesmo som de /z/. A alternativa não acrescenta nada além do que o texto mostra — ela apenas descreve o que as palavras revelam.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "laval-os" e "escoval-os" mostram que os verbos eram conjugados de forma diferente, com o sufixo número-pessoal "os" sendo flexionado fora da raiz verbal. Isso é um erro de análise morfológica. Na verdade, "laval-os" é a forma antiga de "lavá-los", com o pronome oblíquo "os" enclítico ao verbo. A forma "laval" é uma variação histórica de "lavar" (com queda do "r" final), e "os" é o pronome átono. Não há "sufixo número-pessoal" flexionado fora da raiz — o pronome é um elemento separado. A alternativa contradiz a estrutura da língua e não tem base no texto.
Conclusão
A questão testa a capacidade de observar a relação entre letras e fonemas em um texto histórico. A alternativa D é a única que se apoia diretamente nas palavras do anúncio, sem extrapolar ou distorcer. As demais ou inventam causas (A, B), ou confundem conceitos (C, E).
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar grafias antigas, pergunte: "que som essa letra representa aqui?" e "esse som é o mesmo que outra letra representa em outra palavra?". Isso evita cair em extrapolações sobre pronúncia ou escolaridade.