Questão de Português — Formação e Estrutura das Palavras — VUNESP 2023
Português›Formação e Estrutura das Palavras
Código
vu183578
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
3º AEM ( )
Mamãe ia visitar a doente, a mulher do colono Zé Pavio. – “Ah, e você vai conosco ou sem-nosco?” Brejeirinha perguntava. Mamãe, por não rir nem se dar de alheada, desferia chufas meigas: “Que nossa vergonha!...” – e a dela era uma voz de vogais doçuras. A manhã se faz de flores. Então, pediu-se licença de ir espiar o riachinho cheio. Mamãe deixava, elas não eram mais meninas de agarra-a-saia. Só que alguém teria de junto ir, para não se esquecerem de não chegar perto das águas perigosas. O rio, ali, é assaz. Se o Zito não seria, próprio, essa pessoa de acompanhar, um meiozinho-homem, leal de responsabilidades?
(João Guimarães Rosa, Partida do audaz navegante.
Primeiras estórias, 1975. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão. A criatividade de Guimarães Rosa está também na exploração de processos de formação de palavras para produzir efeitos de sentido. Nesse texto, em que a situação envolve personagens crianças, destaca-se:
Ao emprego do sufixo em “alheada”, para indicar que a palavra perdeu o vínculo de sentido com “alhear-se”, “distrair-se”.
Bo emprego de sufixo diminutivo em “meiozinho-homem” para acentuar que o personagem que vai cuidar das meninas ainda é jovem.
Ca criação da expressão “agarra-a-saia”, por junção de palavras, para sugerir que as meninas não abriam mão de usar saias.
Da criação da palavra “sem-nosco”, empregando como prefixo um elemento que não guarda relação com a noção de privação, falta.
Eo emprego do sufixo diminutivo em “Brejeirinha” para enfatizar sua indisciplina e o caráter autoritário de sua pergunta, exigindo resposta da mãe.
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GabaritoB — o emprego de sufixo diminutivo em “meiozinho-homem” para acentuar que o personagem que vai cuidar das meninas ainda é jovem.
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A criatividade de Guimarães Rosa: o sufixo diminutivo em "meiozinho-homem"
Gabarito: letra B. A alternativa correta destaca o emprego do sufixo diminutivo em "meiozinho-homem" para acentuar que o personagem que vai cuidar das meninas ainda é jovem. No texto, lê-se: "Se o Zito não seria, próprio, essa pessoa de acompanhar, um meiozinho-homem, leal de responsabilidades?" — o diminutivo "-zinho" somado a "meio" indica que Zito é apenas "meio homem", ou seja, ainda não é adulto, é um jovem. As demais alternativas ou interpretam erroneamente o sentido das palavras ou atribuem efeitos que o texto não sustenta.
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique qual processo de formação de palavras é usado por Guimarães Rosa para produzir efeitos de sentido no texto. Isso significa que não basta reconhecer o processo morfológico (sufixação, composição etc.); é preciso relacionar a forma à intenção expressiva do autor. A questão é de interpretação de texto aliada à morfologia: a resposta deve ser ancorada no sentido que a palavra adquire no contexto.
O texto e o movimento argumentativo
O trecho narra a ida de Brejeirinha e outras meninas para visitar uma doente. A mãe permite que vão, desde que alguém as acompanhe para não se aproximarem das águas perigosas. A dúvida é se Zito seria essa pessoa: "um meiozinho-homem, leal de responsabilidades?". A expressão "meiozinho-homem" é uma criação de Rosa: o sufixo diminutivo "-zinho" é acrescentado a "meio", formando um adjetivo que qualifica Zito como alguém que está no meio do caminho entre a infância e a idade adulta — ou seja, ainda jovem, mas já capaz de assumir responsabilidades. O diminutivo aqui não tem valor de tamanho, mas de atenuação da qualidade: Zito é "meio homem", não um homem completo.
A técnica que decide
A chave é perceber que o sufixo diminutivo "-zinho" em "meiozinho" não indica tamanho pequeno, mas sim grau reduzido da qualidade expressa pelo adjetivo "meio". Em outras palavras, o diminutivo suaviza a ideia de "homem": Zito é apenas "meiozinho-homem", ou seja, ainda não é um homem adulto. Essa é a função expressiva do diminutivo: modular a intensidade do sentido, criando um efeito de imaturidade ou juventude. O texto reforça isso ao chamá-lo de "leal de responsabilidades", sugerindo que, apesar de jovem, ele é confiável.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar processos de formação de palavras em textos literários, pergunte-se: qual efeito de sentido o autor quis produzir? O diminutivo pode indicar tamanho, carinho, ironia ou atenuação — o contexto decide.
Análise das alternativas
Processos de formação (Guimarães Rosa): "meiozinho-homem" — sufixo diminutivo (Atenua a qualidade ("meio homem"), Indica juventude (não é adulto)); "alheada" — sufixo "-ada" (Mantém vínculo com "alhear-se", Sentido: distraída, desatenta); "agarra-a-saia" — composição (Sentido figurado: dependência da mãe, Não é apego literal a saias); "sem-nosco" — prefixo "sem-" (Não perde a noção de privação, Significa "sem nós"); "Brejeirinha" — diminutivo no nome (Não indica indisciplina/autoritarismo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o sufixo em "alheada" indica que a palavra perdeu o vínculo de sentido com "alhear-se", "distrair-se". No texto, "alheada" significa "distraída", "desatenta": "Mamãe, por não rir nem se dar de alheada". O sufixo "-ada" forma um adjetivo a partir do verbo "alhear", mantendo o sentido de "que se alheou", "que se distraiu". Portanto, não há perda de vínculo semântico; ao contrário, o sentido é preservado. A alternativa contradiz o texto ao afirmar o oposto do que ocorre.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Como explicado, o sufixo diminutivo "-zinho" em "meiozinho-homem" atenua a qualidade de "homem", indicando que Zito é ainda jovem, não um adulto completo. O texto diz: "um meiozinho-homem, leal de responsabilidades?" — a expressão sugere que ele está no meio do caminho entre a infância e a maturidade, mas já é confiável. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "agarra-a-saia" sugere que as meninas não abriam mão de usar saias. No texto, a expressão aparece em: "elas não eram mais meninas de agarra-a-saia". O sentido é que as meninas não eram mais crianças que se agarravam à saia da mãe, ou seja, que dependiam dela. A expressão indica independência, não apego a saias. A alternativa extrapola ao interpretar literalmente a expressão, ignorando o sentido figurado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "sem-nosco" emprega como prefixo um elemento que não guarda relação com a noção de privação, falta. No texto, "sem-nosco" é uma criação de Brejeirinha: "Ah, e você vai conosco ou sem-nosco?". O prefixo "sem-" guarda sim relação com privação, pois "sem-nosco" significa "sem nós". A alternativa contradiz o texto ao negar essa relação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o sufixo diminutivo em "Brejeirinha" enfatiza sua indisciplina e o caráter autoritário de sua pergunta. No texto, "Brejeirinha" é o nome da menina, e o diminutivo "-inha" pode indicar carinho ou afeto, mas não há evidência de que enfatize indisciplina ou autoritarismo. A alternativa extrapola ao atribuir um efeito de sentido que o texto não sustenta.
Conclusão: A única alternativa que relaciona corretamente o processo de formação de palavras ao efeito de sentido é a letra B, pois o diminutivo em "meiozinho-homem" acentua a juventude de Zito, como o texto evidencia.