Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Denotação e Conotação — VUNESP 2023

PortuguêsDenotação e Conotação
Código
vu183604
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Jaguariúna
Ano
2023
Cargo
Ag ( )

Éramos quatro escritoras em volta de uma mesa, num restaurante. A conversa não podia estar mais divertida. Até que um sujeito passou por nós, nos reconheceu, cumprimentou e disse: “Posso imaginar o papo cabeça que está rolando aí”. E saiu de perto com uma cara de “Deus me livre”.

 

O simpático cidadão ficaria corado se escutasse um pedacinho do nosso “papo cabeça”. Logo nos perguntamos: será mesmo que as pessoas pensam que a gente se reúne para falar sobre filósofos e que tentamos desvendar o significado de cada verso dos Lusíadas enquanto dividimos uma pizza marguerita?

 

Não abro mão de conversas inteligentes, mas, para longas dissertações, existe hora e lugar. Eu mesma, podendo, corro para o outro lado quando alguém começa uma conferência didática-enciclopédica em mesa de bar. Numa sala de universidade, é estimulante. Em meio a uma palestra num auditório, empolga. Escutar um sábio falar durante um jantar, na casa de alguém, salva a noite. Mas num boteco barulhento, em meio a bolinhos de bacalhau, copos de chope e cercado por amigos da adolescência, quem vai querer escutar sobre a profundidade poética de um brilhante cineasta polonês?

 

E se for um primeiro jantar a dois, romântico, aí o papo cabeça funciona mais ou menos como um ex que entrou no recinto para quebrar o clima. Dá aquela vontade súbita de pedir a conta.

 

Em nosso último encontro, minhas amigas e eu conversamos sobre as vantagens triunfais da maturidade, sobre a diferença da nossa geração para a de nossos filhos, sobre a viagem que uma de nós fez aos Lençóis Maranhenses, sobre a Anitta, sobre uma fofoca que aconteceu na cidade, sobre uma exposição que ainda está em cartaz em São Paulo, sobre paixões infernais, sobre amores inventados e mais outras coisas porque os assuntos são sempre múltiplos e vêm acompanhados de muitas gargalhadas. Somos criaturas trágicas, mas isso a gente deixa para debater na consulta com o analista. Fora do horário do expediente, nosso papo cabeça desce a linha do pescoço, ronda o coração e onde mais a alma alcança — enquanto isso, o cérebro descansa.

 

(Martha Medeiros. Papo cabeça. https://oglobo.globo.com, 24.09.2022. Adaptado)

Texto

   

Um vocábulo empregado em sentido figurado, no contexto em que se encontra, está destacado em:

  1. AÉramos quatro escritoras em volta de uma mesa, num restaurante. (1o parágrafo)
  2. B… tentamos desvendar o significado de cada verso dos Lusíadas enquanto rachamos uma pizza marguerita? (2o parágrafo)
  3. CMas num boteco barulhento, em meio a bolinhos de bacalhau… (3o parágrafo)
  4. D… quem vai querer escutar sobre a profundidade poética de um brilhante cineasta polonês? (3o parágrafo)
  5. E… sobre uma exposição que ainda está em cartaz em São Paulo… (5o parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — … quem vai querer escutar sobre a profundidade poética de um brilhante cineasta polonês? (3o parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido figurado: a metáfora de "profundidade"

Gabarito: letra D. A alternativa correta é a que traz "profundidade poética" — vocábulo empregado em sentido figurado, pois a poesia não tem profundidade física mensurável; trata-se de uma metáfora que transfere a ideia de "profundidade" (própria de objetos físicos, como um poço) para o campo abstrato da qualidade estética. Como se lê no 3º parágrafo: "quem vai querer escutar sobre a profundidade poética de um brilhante cineasta polonês?".

O comando pede que se identifique o vocábulo em sentido figurado (conotativo), ou seja, aquele que foge do sentido literal, dicionarizado, e ganha novo significado pelo contexto. Isso é diferente de pedir "o que o texto afirma" — aqui a tarefa é semântica: reconhecer a linguagem conotativa. A banca não quer que você interprete o texto, mas que localize a palavra que não pode ser tomada ao pé da letra.

No texto, a autora discute o estereótipo do "papo cabeça" — a ideia de que escritoras só conversam sobre temas eruditos. Ela ironiza essa visão e defende que há hora e lugar para discussões profundas. No trecho da alternativa D, a pergunta retórica "quem vai querer escutar sobre a profundidade poética de um brilhante cineasta polonês?" usa "profundidade" para qualificar a poesia de forma figurada: a poesia não tem profundidade física, mas sim valor estético ou intelectual. É uma metáfora — comparação implícita sem conectivo.

A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando: "essa palavra pode ser entendida literalmente? Se sim, é denotativa; se não, é conotativa." No caso de "profundidade", não há como medir a profundidade de algo abstrato como a poesia — logo, é figurado. Já em "rachamos uma pizza", o verbo "rachar" no sentido de "dividir" é uso corrente e dicionarizado (denotativo), embora coloquial. "Papo cabeça" é expressão cristalizada, mas o comando pede um vocábulo (palavra isolada), não expressão inteira.

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca "rachamos" (que parece figurado, mas é coloquialismo denotativo) e "papo cabeça" (expressão cristalizada) para confundir. A correta exige perceber a metáfora em "profundidade", que não é literal.

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar sentido figurado, pergunte: "isso pode existir fisicamente?" Se não, é conotação. E desconfie de expressões cristalizadas — elas podem ser denotativas no uso cotidiano.

Sentido figurado (conotação)
  • 1Teste: pode existir fisicamente?
    • Sim → denotativo
    • Não → conotativo
  • 2Pegadinhas
    • Coloquialismo ≠ figurado
      • "Rachamos" (dividir)
    • Expressão cristalizada ≠ figurado
      • "Em cartaz"
      • "Papo cabeça"
  • 3Exemplo de conotação
    • "Profundidade poética"
      • Poesia não tem profundidade física
      • Metáfora (comparação implícita)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Éramos quatro escritoras em volta de uma mesa, num restaurante."

Aqui, todas as palavras estão em sentido denotativo: "mesa" é o móvel, "restaurante" é o estabelecimento. Não há desvio de sentido. A alternativa tenta atrair pelo contexto (escritoras, mesa), mas não há figura de linguagem. Erro: não há conotação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"... tentamos desvendar o significado de cada verso dos Lusíadas enquanto rachamos uma pizza marguerita?"

O verbo "rachamos" é usado no sentido de "dividir", "partilhar" — uso coloquial, mas dicionarizado e literal (rachar = partir ao meio). Não é figurado. "Desvendar" também é literal (descobrir). A alternativa confunde coloquialismo com conotação. Erro: troca de conceito — coloquial ≠ figurado.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Mas num boteco barulhento, em meio a bolinhos de bacalhau..."

"Boteco", "bolinhos", "bacalhau" — todos em sentido próprio. Não há metáfora nem qualquer desvio. A alternativa é puramente denotativa. Erro: ausência de conotação.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"... quem vai querer escutar sobre a profundidade poética de um brilhante cineasta polonês?"

"Profundidade" é o vocábulo em sentido figurado: a poesia não tem profundidade física; o termo é transferido para o campo abstrato da qualidade estética ou intelectual. É uma metáfora — comparação implícita. A palavra "brilhante" também é figurada (cineasta não emite luz), mas o comando pede "um vocábulo", e "profundidade" é o mais evidente e central. Correta: conotação clara.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"... sobre uma exposição que ainda está em cartaz em São Paulo..."

"Em cartaz" é expressão cristalizada (sentido denotativo no contexto de eventos culturais: estar em exibição). Não é figurada. A alternativa tenta confundir com a ideia de "cartaz" físico, mas o uso é literal e consagrado. Erro: expressão cristalizada ≠ conotação.

Conclusão: a única alternativa com vocábulo em sentido figurado é a D, pois "profundidade" não pode ser literal. As demais ou são denotativas ou usam coloquialismos/expressões cristalizadas. Lembre-se: conotação exige desvio do sentido literal, não apenas informalidade.

Gabarito: letra D

Link permanente: /questoes/vu183604