Questão de Português — Colocação Pronominal — VUNESP 2023
Português›Colocação Pronominal
Código
vu183697
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sertãozinho SP
Ano
2023
Cargo
CB (Sertãozinho)
Para ler ao som de Vinicius de Moraes
Conheci o Rio de Janeiro em 1968. Tarde demais, pensei na época. Já não havia o Cassino da Urca, estrelas de cinema deixando o decote cair nos bailes do Copa ou reuniões de bossa nova na rua Nascimento e Silva cento e sete cantadas por Vinicius de Moraes.
O que eu não sabia nem poderia saber – em parte porque aos 20 anos a gente pouco sabe além da própria fome, em parte porque não podia, nem posso ou podemos, prever o futuro – é que embora parecesse tarde, era ainda cedo. Que paraíso aquela cidade maravilhosa, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! E quem chegou de jipe com Betty Faria não será o Arduíno Colassanti? Possível sentar à noite no murinho da Alberto de Campos fumando com Isabel Câmara, varar madrugada nas galerias de Copacabana com meu primo e guru Francisco Bittencourt, largar roupas e dinheiro na areia para mergulhar nas ondas verdes – e limpas – do Leblon. Era possível sim, tudo de bom lá naquele tempo e naquela cidade.
Foi nessa mesma época que Gilberto Gil enviou aquele abraço pra todo mundo, garantindo que o Rio de Janeiro continuava lindo. Era cedo, portanto, e eu não sabia. Ninguém sabia. Afinal, estávamos ainda mergulhados na poetização da miséria pelo cinema novo deflagrada por Orfeu negro, no charme da lata d’água na cabeça que dera lugar ao cantinho, ao violão, garotas de Ipanema ondulantes e Brigitte Bardot tomando água de coco em Búzios. Ó Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a deteriorar-se irremediavelmente.
Irremediável – eu sei que é uma palavra terrível, mas é a que me vem quando comparo aquele Rio a este de agora, e isso me dói tanto quanto uma doença fatal – irremediável irremediável repito sem vírgula sentindo saudade prévia do Rio como de um amigo em fase terminal.
(Caio Fernando de Abreu, Pequenas epifanias. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão. Assinale a alternativa em que a colocação pronominal está em conformidade com a norma-padrão.
AFicamos tristes quando percebemos que se deteriora irremediavelmente o bonito de algo ou alguém.
BMe equivoquei talvez, ao pensar que conheci tarde o Rio de Janeiro, no longínquo ano de 1968.
CO Rio de agora é diferente do Rio de 1968, quando comparam-se as possibilidades que a cidade oferece.
DTendo divertido-me muito nas madrugadas de Copacabana, vejo como o Rio era rico em entretenimento.
ENada compara-se a passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin e encontrar ali personalidades.
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GabaritoA — Ficamos tristes quando percebemos que se deteriora irremediavelmente o bonito de algo ou alguém.
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Colocação pronominal: próclise, ênclise e mesóclise
Gabarito: letra A. A única alternativa em conformidade com a norma-padrão é a que emprega a próclise corretamente: "Ficamos tristes quando percebemos que se deteriora irremediavelmente o bonito de algo ou alguém." A próclise é obrigatória porque o pronome "se" vem após a conjunção subordinativa "que", que é uma palavra atrativa. As demais alternativas violam a norma: B e E usam próclise em início de oração (proibida), C usa ênclise após palavra atrativa ("quando") e D usa ênclise em locução verbal com verbo principal no particípio (proibida).
O comando da questão
O enunciado pede que se assinale a alternativa em que a colocação pronominal está em conformidade com a norma-padrão. Isso significa que a questão não cobra interpretação de texto, mas sim o conhecimento das regras de próclise, ênclise e mesóclise aplicadas a frases isoladas. O texto-base serve apenas como contexto temático — as alternativas são frases novas que devem ser avaliadas pela gramática normativa.
A regra que decide a questão
A colocação pronominal trata da posição dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, lhes) em relação ao verbo. Há três posições possíveis:
Próclise: pronome antes do verbo. É obrigatória quando há palavra atrativa antes do verbo: palavras negativas (não, nunca, nada), advérbios (sempre, já, talvez), pronomes relativos (que, quem, onde), pronomes indefinidos (alguém, tudo), conjunções subordinativas (que, se, quando, embora) e em orações optativas (que exprimem desejo).
Ênclise: pronome depois do verbo. É usada quando não há palavra atrativa, principalmente no início de orações, e com verbos no infinitivo impessoal (facultativamente).
Mesóclise: pronome no meio do verbo. É usada com verbos no futuro do presente e no futuro do pretérito, desde que não haja palavra atrativa.
A pegadinha central desta questão é misturar a regra de colocação com a regra de forma do pronome. Por exemplo, em D, o erro não é a forma "divertido-me" (que seria "divertido" + "me" = "divertido-me"? Não, na verdade o particípio exige a forma "-lo/-la" apenas com verbos terminados em -r, -s, -z; com particípio, o pronome fica antes do verbo auxiliar). A banca quer que o candidato identifique onde a próclise é obrigatória e onde a ênclise é proibida.
Análise das alternativas
Colocação pronominal
1Próclise (antes do verbo)
Palavras atrativas
Negativas (não, nada)
Advérbios (sempre, talvez)
Pronomes relativos (que, quem)
Pronomes indefinidos (alguém, tudo)
Conjunções subordinativas (que, quando, se)
Obrigatória após atrativa
2Ênclise (depois do verbo)
Início de oração
Sem palavra atrativa
Proibida após atrativa
Proibida com particípio
3Mesóclise (meio do verbo)
Futuro do presente
Futuro do pretérito
Com palavra atrativa
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A frase "Ficamos tristes quando percebemos que se deteriora irremediavelmente o bonito de algo ou alguém" está correta. O pronome "se" está em próclise porque é atraído pela conjunção subordinativa "que" ("percebemos que se deteriora"). A conjunção "que" é uma palavra atrativa que obriga o pronome a vir antes do verbo. Não há nenhum erro de colocação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Me equivoquei talvez, ao pensar que conheci tarde o Rio de Janeiro, no longínquo ano de 1968." O erro está em "Me equivoquei": o pronome "me" está em próclise no início da oração, o que é proibido pela norma-padrão. Em início de oração, sem palavra atrativa, deve-se usar ênclise: "Equivoquei-me". O advérbio "talvez" aparece depois, mas não atrai o pronome para antes do verbo, pois está posposto. A banca quer que o candidato perceba que a próclise não pode iniciar oração.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"O Rio de agora é diferente do Rio de 1968, quando comparam-se as possibilidades que a cidade oferece." O erro está em "quando comparam-se": a palavra "quando" é um advérbio e também uma conjunção subordinativa temporal, que é palavra atrativa. Portanto, o pronome "se" deve vir antes do verbo: "quando se comparam". A ênclise após palavra atrativa é proibida. A banca testa o conhecimento de que advérbios e conjunções atraem a próclise.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Tendo divertido-me muito nas madrugadas de Copacabana, vejo como o Rio era rico em entretenimento." O erro está em "divertido-me": em locuções verbais com o verbo principal no particípio, o pronome oblíquo átono não pode ficar enclítico ao particípio. A forma correta é "Tendo-me divertido" (próclise ao verbo auxiliar "tendo") ou "Tendo me divertido" (com o pronome entre o auxiliar e o particípio, o que é aceito). A norma-padrão rejeita "divertido-me" porque o particípio não admite ênclise. A banca testa a regra de que, em locuções verbais, o pronome deve vir antes do verbo auxiliar ou entre o auxiliar e o principal, nunca depois do particípio.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Nada compara-se a passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin e encontrar ali personalidades." O erro está em "compara-se": a palavra "nada" é um pronome indefinido e também uma palavra de sentido negativo, que é palavra atrativa. Portanto, o pronome "se" deve vir antes do verbo: "Nada se compara". A ênclise após palavra atrativa é proibida. A banca testa o conhecimento de que pronomes indefinidos e palavras negativas atraem a próclise.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura a regra de colocação (próclise/ênclise) com a regra de forma do pronome (vira -lo/-la/-no/-na). Em D, o erro não é a forma "divertido-me" (que seria "divertido" + "me" = "divertido-me"? Não, na verdade o particípio exige a forma "-lo/-la" apenas com verbos terminados em -r, -s, -z; com particípio, o pronome fica antes do verbo auxiliar). A banca quer que o candidato identifique onde a próclise é obrigatória e onde a ênclise é proibida.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de colocação pronominal, identifique primeiro se há palavra atrativa antes do verbo (negativa, advérbio, pronome relativo, pronome indefinido, conjunção subordinativa). Se houver, use próclise. Se não houver e a oração começar com verbo, use ênclise. Cuidado com locuções verbais: o pronome nunca fica depois do particípio.
Gabarito: letra A — a única que respeita a próclise obrigatória após a conjunção "que".