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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — VUNESP 2023

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
vu183718
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2023
Cargo
Arqueo (Sorocaba)

Quando eu tinha a tua idade

 

Ai, Senhor, não nos deixe cair na tentação de dizer ao nosso filho ou à nossa filha qualquer coisa que comece com “Quando eu tinha a tua idade...”

 

Dificilmente haverá, nas sempre difíceis relações entre pais e filhos, frase mais perigosa. Para começar, ela alarga o gap entre as gerações, este fosso que separa adultos de crianças ou adolescentes, e cuja largura, nesta era de rápidas transformações, se mede em anos-luz. No entanto, os pais a usam, é uma coisa automática. Olhamos o quarto desarrumado e observamos: “Quando eu tinha a tua idade, fazia a cama sozinho”. Examinamos a redação feita para a escola e sacudimos a cabeça: “Quando eu tinha a tua idade, não cometia esses erros de ortografia. E a minha letra era muito melhor”.

 

Sim, a nossa letra era melhor. Sim, íamos sozinhos até o centro da cidade. Sim, aos dez anos já trabalhávamos e sustentávamos toda a família. Sim, éramos mais cultos, mais politizados, mais atentos. Conhecíamos toda a obra de Balzac, entoávamos todas as sinfonias de Beethoven. Éramos o máximo.

 

Mas éramos mesmo? Se entrássemos na máquina do tempo e recuássemos algumas décadas, será que teríamos a mesma impressão? Sim, íamos até o centro da cidade, mas a cidade era menor, mais fácil de ser percorrida. Sim, trabalhávamos – mas havia outra alternativa?

 

Cada geração recorre às habilidades de que necessita. Sabíamos usar um martelo ou consertar um abajur, mas eles dedilham um computador com a destreza de um virtuose. Nós jogávamos futebol na várzea, mas agora que a febre imobiliária acabou com os terrenos baldios, os garotos fazem prodígios com o skate nuns poucos metros quadrados.

 

Bem, mas então não podemos falar aos nossos filhos sobre a nossa infância? Longe disso. Há uma coisa que podemos compartilhar com eles; os sonhos que tivemos, e que, na maioria irrealizados (ai, as limitações da condição humana), jazem intactos, num cantinho da nossa alma. São estes sonhos que devemos mobilizar como testemunhas de nosso diálogo com os jovens.

 

Fale a uma criança sobre aquilo que você esperava ser; fale de suas fantasias:

 

– Quando eu tinha a tua idade, meu filho, eu era criança como tu. E era bom.

 

(Coleção melhores crônicas: Moacyr Scliar. Org. Luís Augusto Fischer. Global Editora. Adaptado)

Leia a crônica de Moacyr Scliar para responder a questão.     No quarto e no sexto parágrafos, respectivamente, o ponto de interrogação em – mas havia outra alternativa? – e os parênteses em – (ai, as limitações da condição humana) – contribuem para:
  1. Alevar o leitor a se questionar sobre o assunto; inserir observação relativa aos sonhos desfeitos.
  2. Benfatizar uma declaração categórica do autor; acrescentar uma afirmação que gera surpresa no leitor.
  3. Cestabelecer interação entre cronista e leitores; descrever as dúvidas advindas dos sonhos irrealizados.
  4. Dapresentar retificações para as ideias expostas; introduzir um comentário aleatório que não compromete a narrativa.
  5. Elançar uma pergunta retórica que evidencia a hesitação do cronista; indicar a incompletude de um pensamento.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — levar o leitor a se questionar sobre o assunto; inserir observação relativa aos sonhos desfeitos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Pontuação e efeito de sentido: interrogação e parênteses na crônica

Gabarito: letra A. No quarto parágrafo, a pergunta “mas havia outra alternativa?” não busca informação: é uma pergunta retórica que leva o leitor a refletir sobre a falta de opções dos jovens de antigamente. No sexto parágrafo, os parênteses em “(ai, as limitações da condição humana)” inserem uma observação do autor sobre os sonhos que ficaram irrealizados. A alternativa A capta exatamente esses dois efeitos: levar o leitor a se questionar e inserir observação relativa aos sonhos desfeitos.

“Sim, trabalhávamos – mas havia outra alternativa?”

A pergunta vem logo após a confissão de que os pais trabalhavam quando jovens. O “mas” introduz uma ressalva que questiona se havia escolha. Não é uma pergunta comum, com resposta esperada do interlocutor; é um convite à reflexão: será que trabalhar era mérito ou necessidade? O leitor é levado a pensar sobre isso.

“Há uma coisa que podemos compartilhar com eles; os sonhos que tivemos, e que, na maioria irrealizados (ai, as limitações da condição humana), jazem intactos, num cantinho da nossa alma.”

Os parênteses intercalam uma exclamação do autor — “ai, as limitações da condição humana” — que comenta, com um misto de lamento e ironia, o fato de os sonhos não terem se realizado. É uma observação pessoal, não uma informação nova sobre o mundo. Ela se refere diretamente aos “sonhos irrealizados” mencionados na frase.

Pontuação e efeito de sentido
  • 1Ponto de interrogação
    • Pergunta retórica
    • Leva o leitor a refletir
  • 2Parênteses
    • Intercalação de observação do autor
    • Comentário sobre sonhos irrealizados
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A descreve com precisão os dois efeitos. A interrogação retórica “mas havia outra alternativa?” provoca o leitor a questionar a suposta superioridade da geração passada. Os parênteses “(ai, as limitações da condição humana)” inserem uma observação do autor sobre os sonhos que não se realizaram, como se lê no trecho: “os sonhos que tivemos, e que, na maioria irrealizados (...) jazem intactos”. A palavra “desfeitos” é sinônimo de “irrealizados”, confirmando a leitura.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B erra ao dizer que a interrogação “enfatiza uma declaração categórica”. A pergunta não é categórica; ela é retórica e reflexiva, abrindo espaço para dúvida. Além disso, os parênteses não acrescentam “afirmação que gera surpresa”, mas uma observação lamentosa sobre as limitações humanas. O tom é de lamento, não de surpresa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C troca o efeito da interrogação: ela não “estabelece interação entre cronista e leitores” no sentido de diálogo direto; ela provoca reflexão. E os parênteses não “descrevem dúvidas advindas dos sonhos irrealizados”; eles comentam a não realização dos sonhos, com uma exclamação de lamento. A palavra “dúvidas” não encontra apoio no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D fala em “retificações para as ideias expostas”, mas a pergunta não retifica nada; ela questiona uma afirmação anterior. E os parênteses não são um “comentário aleatório que não compromete a narrativa”; eles são relevantes para a tese do autor sobre os sonhos compartilháveis. A observação reforça o argumento central da crônica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E diz que a pergunta “evidencia a hesitação do cronista”, mas não há hesitação; há provocação retórica. E os parênteses não indicam “incompletude de um pensamento”; eles completam o pensamento com uma observação. A intercalação é um recurso de acréscimo, não de interrupção do raciocínio.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a função gramatical do sinal (pergunta direta / intercalação) e o efeito discursivo que ele produz no contexto. O candidato que decora a função básica do ponto de interrogação (“pergunta”) e dos parênteses (“intercalação”) sem avaliar o contexto erra.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar pontuação em questões de interpretação, pergunte: “que efeito esse sinal produz aqui?”. Pergunta retórica provoca reflexão; parênteses podem inserir comentário do autor. Não basta saber a função gramatical.

Gabarito: letra A.

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