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Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — VUNESP 2023

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
vu183784
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2023
Cargo
Esc ( )

Leia o texto para responder à questão.

 

José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que consegui, logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha prosódia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar autoridade à lição, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada, ele assistia às lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no fim, perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava- me “um prodígio”; dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.

 

(Machado de Assis,  Dom Casmurro)

 

De acordo com o narrador, os seus plurais “careciam, alguma vez, da desinência exata” e eram, então, corrigidos por José Dias, que também corrigiria o plural em:

  1. AHavia no olhar das pessoas muitas interrogações sobre a organização das feiras e eventos.
  2. BNa sala, havia umas pessoas desconhecidas e, sobre a mesa, livros e revistas amareladas.
  3. CEles haviam permanecido calados durante a aula, depois de bastantes broncas recebidas.
  4. DOs maiores problemas com as leis que já havia ocorrido eram corrigidos rápido por ele.
  5. EAli na sala estavam muitos livros de literatura brasileira, e muitos deles eu já havia lido.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Os maiores problemas com as leis que já havia ocorrido eram corrigidos rápido por ele.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância verbal: o verbo "haver" impessoal e a correção de José Dias

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que apresenta o mesmo fenômeno que José Dias corrigiria: o verbo haver empregado como impessoal (com sentido de existir/ocorrer), o que torna a locução verbal "havia ocorrido" invariável, no singular, mesmo havendo um sujeito plural ("os maiores problemas"). No texto, lê-se que José Dias corrigia os plurais do menino: "Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia". A questão pede a frase em que ele também corrigiria o plural, ou seja, onde há um erro de concordância verbal — e a letra D contém exatamente isso: "as leis que já havia ocorrido" deveria ser "já haviam ocorrido", pois o sujeito é "as leis" (plural). As demais alternativas estão gramaticalmente corretas, portanto não haveria o que corrigir.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique, entre as opções, aquela em que José Dias também corrigiria o plural — ou seja, a frase que contém um erro de concordância verbal semelhante ao que ele corrigia nos plurais do menino. Não se trata de interpretação de sentido, mas de aplicação da norma culta a partir do texto. A pista está no trecho: "Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia". José Dias corrigia erros de concordância (no caso, nominal — o plural dos substantivos), e a questão transfere essa correção para o plano da concordância verbal.

O texto: o que importa para a questão

O texto de Machado de Assis descreve José Dias como um preceptor zeloso, que corrigia os plurais do menino: "Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia". A expressão "desinência exata" refere-se à terminação de plural (ex.: "casa" → "casas"). A questão explora essa característica de José Dias: ele é o tipo de pessoa que corrige erros de concordância. Portanto, a alternativa correta deve conter um erro de concordância verbal que ele, como preceptor, corrigiria.

A regra que decide: verbo "haver" impessoal

O verbo haver, quando tem sentido de existir, ocorrer ou acontecer, é impessoal — não possui sujeito e fica sempre no singular. Essa impessoalidade se mantém mesmo em locuções verbais: o verbo auxiliar também fica no singular.

"Há vários livros ali" → correto (singular) "Haverá novos conflitos" → correto (singular) "Poderá haver conflitos" → correto (singular, pois o auxiliar "poder" concorda com o impessoal "haver")

O erro clássico é flexionar o auxiliar no plural quando o objeto direto (que parece sujeito) está no plural:

❌ "Devem haver normas" → errado (o correto é "Deve haver normas") ❌ "Podem haver problemas" → errado (o correto é "Pode haver problemas")

Na alternativa D, temos exatamente esse erro: "as leis que já havia ocorrido". O verbo "haver" tem sentido de ocorrer (impessoal), então o correto seria "já haviam ocorrido"? Não! O correto é "já havia ocorrido" — o verbo "haver" é impessoal e fica no singular. A frase está errada porque o autor a escreveu com o verbo no plural ("haviam"), mas o correto é o singular ("havia"). Portanto, José Dias corrigiria o plural indevido.

Análise das alternativas

Alternativa

Verbo "haver"

Sentido

Concordância

José Dias corrigiria?

A

Havia

Impessoal (existir)

Correta (singular)

Não

B

Havia

Impessoal (existir)

Correta (singular)

Não

C

Haviam permanecido

Auxiliar (tempo composto)

Correta (plural, sujeito "Eles")

Não

D

Haviam ocorrido

Impessoal (ocorrer)

Incorreta (deveria ser "havia")

Sim

E

Havia lido

Auxiliar (tempo composto)

Correta (singular, sujeito "eu")

Não

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Havia no olhar das pessoas muitas interrogações sobre a organização das feiras e eventos."

Aqui o verbo "haver" também é impessoal (sentido de existir), e está corretamente no singular ("Havia"). Não há erro de concordância. José Dias não teria o que corrigir. Erro da alternativa: não apresenta erro de concordância.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Na sala, havia umas pessoas desconhecidas e, sobre a mesa, livros e revistas amareladas."

Novamente o verbo "haver" é impessoal e está corretamente no singular ("havia"). A concordância nominal também está correta ("pessoas desconhecidas", "livros e revistas amareladas"). Não há erro. Erro da alternativa: não apresenta erro de concordância.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Eles haviam permanecido calados durante a aula, depois de bastantes broncas recebidas."

Aqui o verbo "haver" é auxiliar (faz parte da locução "haviam permanecido" = tempo composto), e concorda com o sujeito "Eles" (plural). Está correto: "Eles haviam permanecido". Não há erro de concordância. Erro da alternativa: não apresenta erro de concordância.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Os maiores problemas com as leis que já havia ocorrido eram corrigidos rápido por ele."

Aqui o verbo "haver" tem sentido de ocorrer (impessoal), e deveria ficar no singular ("havia"). Porém, a frase está errada porque o autor a escreveu com o verbo no plural ("haviam"). O correto seria "já havia ocorrido". José Dias, como preceptor zeloso, corrigiria esse plural indevido. Esta é a alternativa que apresenta erro de concordância verbal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Ali na sala estavam muitos livros de literatura brasileira, e muitos deles eu já havia lido."

O verbo "estar" concorda com o sujeito "muitos livros" (plural): "estavam" — correto. O verbo "haver" na segunda oração é auxiliar ("havia lido" = tempo composto) e concorda com o sujeito "eu" (singular): "eu havia lido" — correto. Não há erro de concordância. Erro da alternativa: não apresenta erro de concordância.

Conclusão

A questão testa o conhecimento da impessoalidade do verbo "haver" em locuções verbais. A única alternativa com erro de concordância é a D, onde "haviam ocorrido" deveria ser "havia ocorrido". As demais estão gramaticalmente corretas, portanto José Dias não teria o que corrigir.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o verbo "haver" impessoal (singular obrigatório) e o verbo "haver" auxiliar (concorda com o sujeito). Na alternativa C e E, o "haver" é auxiliar e concorda corretamente; na D, é impessoal e deveria ficar no singular.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver o verbo "haver", pergunte: ele tem sentido de existir/ocorrer? Se sim, é impessoal e fica no singular, mesmo em locuções verbais. Se for auxiliar (tempo composto), concorda com o sujeito.

Gabarito: letra D

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