Questão de Português — Colocação Pronominal — VUNESP 2023
Português›Colocação Pronominal
Código
vu183798
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBC
Ano
2023
Cargo
Aux Ed ( )
Jamain mora em uma casa de paredes de madeira e telhado de palha com sua mulher, Pakao, e seu filho bebê. Tem 26 anos, rosto largo, com maxilares protuberantes, que lhe dão uma aparência peculiar.(a)
Jamain não nasceu naquela aldeia, mas em outra, a três dias de caminhada. Foi viver ali depois que se casou com Pakao, filha de Moroxin, que lhe fora prometida no dia de seu nascimento. Jamain era então um menino de 12 anos e estava na aldeia de visita. Assim que Pakao nasceu, vieram lhe chamar na casa dos homens, onde ele dormia. Deram-lhe uma lâmina afiada de bambu e pediram que cortasse o cordão umbilical. Em seguida, colocaram o bebê em seu colo. Ele ainda se lembra da horrível sensação daquela coisa melada(b) e vermelha em seus braços, se mexendo e fazendo caretas. Ficou de cabeça baixa, olhando para o chão, esperando que lhe pedissem o bebê de volta. Rindo, disseram: “ela é tua esposa!”.
Doze anos depois, quatro homens chegaram a sua aldeia com ar solene. Eram o seu futuro sogro com dois de seus irmãos e Tokorom, irmão de Pakao. O futuro sogro, depois de um tempo em silêncio, disse aos pais de Jamain que o rapaz devia ir até lá buscar a esposa e trazê-la para viver com ele.
Foi um rebuliço na casa! Jamain dizia que não se casaria, que era novo ainda.(c) Saiu pela porta e foi se esconder na casa de um primo, mas seu pai o encontrou e o trouxe de volta, para falar com o sogro.
Muito amuado, Jamain pegou um pequeno cesto e pendurou sua alça no peito, deixando-o descer pelas costas. Já na outra aldeia, foi a vez de Pakao dizer que não partiria com aquele rapaz de jeito nenhum. Sua mãe a pegou pelas orelhas e a levou até ele. Assim que tomaram o caminho, ela diminuiu o passo até sair da vista do marido e correu de volta.
Dando-lhe uma bronca, a mãe arrastou-a novamente pelas orelhas até o marido.(d) Depois de várias tentativas, Jamain acabou voltando para sua aldeia sem a noiva, aliviado por não tê-la trazido.(e) Uma semana depois, no entanto, viu chegarem a sua casa os futuros sogro e sogra, trazendo a menina com seu cesto de roupas e assim começou sua vida de casal.
(Aparecida Vilaça e Francisco Vilaça Gaspar. Ficções amazônicas. Todavia, 2022. Adaptado)
Assinale a alternativa em que o vocábulo destacado teve sua posição alterada em relação ao trecho original, mantendo-se a correção da norma-padrão de colocação pronominal da língua portuguesa:
A… maxilares protuberantes, que dão-lhe uma aparência peculiar.
BEle ainda lembra-se da horrível sensação daquela coisa melada…
CJamain dizia que não casaria-se, que era novo ainda.
D… a mãe a arrastou novamente pelas orelhas até o marido.
E… para sua aldeia sem a noiva, aliviado por não ter trazido-a.
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GabaritoD — … a mãe a arrastou novamente pelas orelhas até o marido.
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Colocação Pronominal: próclise, ênclise e a regra do infinitivo
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única em que o pronome oblíquo átono "a" foi deslocado de sua posição original no texto sem violar a norma-padrão. No trecho-base, lê-se "a mãe a arrastou novamente pelas orelhas" — o pronome está em próclise, atraído pelo sujeito explícito "a mãe". A reescrita proposta mantém exatamente essa estrutura, apenas reordenando o adjunto adverbial "novamente", o que não afeta a colocação pronominal. As demais alternativas ou mantêm a posição original (A, B, C) ou cometem erro de colocação (E).
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique a alternativa em que o vocábulo destacado teve sua posição alterada em relação ao trecho original, mantendo-se a correção da norma-padrão. Isso significa que a tarefa é dupla: (1) comparar a posição do pronome na alternativa com a posição no texto-base; (2) verificar se a nova posição é gramaticalmente aceitável. Não basta que a posição seja diferente — é preciso que a mudança seja lícita. A alternativa que apenas repete a posição original, mesmo que correta, não atende ao comando.
O texto e a regra que decide
O texto-base apresenta vários pronomes oblíquos átonos em posições distintas. A regra central da colocação pronominal é: palavra atrativa antes do verbo exige próclise (pronome antes do verbo). São atrativas as conjunções subordinativas (que, se, quando), as palavras negativas (não, nunca), os advérbios, os pronomes relativos, indefinidos e interrogativos. Na ausência de atrativo, usa-se a ênclise (pronome depois do verbo), salvo proibições (início de frase, futuro do presente/pretérito, particípio).
No trecho original, o pronome "a" em "a mãe a arrastou" está em próclise porque há um sujeito explícito antes do verbo — e, embora o sujeito não seja tecnicamente uma "palavra atrativa" no sentido clássico, a norma culta prefere a próclise quando há um termo antes do verbo que não seja uma pausa. A reescrita da alternativa D preserva essa estrutura, apenas movendo o advérbio "novamente" para depois do verbo, o que não altera a relação entre o sujeito e o pronome.
A técnica de resolução
Para cada alternativa, pergunte: o pronome está na mesma posição do texto original? Se sim, a alternativa não atende ao comando (que pede alteração). Se não, verifique se a nova posição é aceitável pela norma. A alternativa D é a única que altera a posição do pronome de forma lícita — na verdade, ela mantém a próclise, mas reordena o adjunto adverbial, o que configura uma "alteração de posição" do vocábulo destacado (o pronome) em relação ao trecho original, sem violar a regra.
PEGA ESSA DICA!
Grife o comando: "teve sua posição alterada" pede comparação com o texto-base, não apenas correção gramatical. Uma alternativa pode ser gramaticalmente correta e ainda assim errada, se não houver mudança de posição.
✅ Correta — próclise facultativa com sujeito explícito
E
Próclise (não tê-la trazido)
Ênclise (trazido-a)
❌ Incorreta — particípio não admite ênclise
Alternativa A — ❌ Incorreta
"… maxilares protuberantes, que dão-lhe uma aparência peculiar."
No texto original: "que lhe dão uma aparência peculiar". O pronome "lhe" está em próclise porque é atraído pelo pronome relativo "que" (palavra atrativa). A alternativa mantém a próclise, apenas deslocando o pronome para depois do verbo — o que é proibido pela norma, pois o relativo "que" exige próclise obrigatória. Além disso, a posição do pronome não foi alterada em relação ao original (continua antes do verbo). Erro: contradiz a regra da próclise com pronome relativo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Ele ainda lembra-se da horrível sensação…"
No texto original: "Ele ainda se lembra da horrível sensação". O pronome "se" está em próclise porque é atraído pelo advérbio "ainda" (palavra atrativa). A alternativa mantém a próclise, apenas deslocando o pronome para depois do verbo — o que é proibido, pois o advérbio "ainda" exige próclise. Além disso, a posição do pronome não foi alterada em relação ao original (continua antes do verbo). Erro: contradiz a regra da próclise com advérbio.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Jamain dizia que não casaria-se, que era novo ainda."
No texto original: "Jamain dizia que não se casaria". O pronome "se" está em próclise porque é atraído pela palavra negativa "não" (palavra atrativa). A alternativa mantém a próclise, apenas deslocando o pronome para depois do verbo — o que é proibido, pois a palavra negativa "não" exige próclise. Além disso, a posição do pronome não foi alterada em relação ao original (continua antes do verbo). Erro: contradiz a regra da próclise com palavra negativa.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"… a mãe a arrastou novamente pelas orelhas até o marido."
No texto original: "a mãe a arrastou novamente pelas orelhas até o marido" — exatamente a mesma construção. O pronome "a" está em próclise, posição mantida na alternativa. A diferença é que a alternativa reordena o adjunto adverbial "novamente", mas isso não altera a colocação pronominal. A alternativa atende ao comando porque altera a posição do vocábulo destacado (o pronome "a" é deslocado de sua posição original? Não — na verdade, a alternativa mantém a posição, mas o comando pede que se identifique a alternativa em que o vocábulo teve sua posição alterada — e aqui há uma sutileza: a alternativa D é a única que não altera a posição do pronome, mas o comando pede a que alterou. Vamos reavaliar.
Na verdade, o comando pede a alternativa em que o vocábulo destacado teve sua posição alterada em relação ao trecho original, mantendo a correção. Isso significa que a alternativa deve apresentar o pronome em posição diferente da original, mas ainda correta. Vamos verificar cada uma:
A: original "que lhe dão" → alternativa "que dão-lhe" — posição alterada, mas incorreta (relativo exige próclise).
B: original "ainda se lembra" → alternativa "ainda lembra-se" — posição alterada, mas incorreta (advérbio exige próclise).
C: original "não se casaria" → alternativa "não casaria-se" — posição alterada, mas incorreta (negativa exige próclise).
D: original "a mãe a arrastou" → alternativa "a mãe a arrastou" — posição inalterada — mas a alternativa é a única correta? Não, o comando pede alteração.
E: original "por não ter trazido a" → alternativa "por não ter trazido-a" — posição alterada, mas incorreta (particípio não admite ênclise).
Aparentemente, nenhuma alternativa altera a posição de forma correta. Mas o gabarito é D. Vamos reler o texto original: "Dando-lhe uma bronca, a mãe arrastou-a novamente pelas orelhas até o marido." — o pronome "a" está em ênclise (arrastou-a). A alternativa D reescreve como "a mãe a arrastou" — próclise, que é correta porque há sujeito explícito antes do verbo. Portanto, a alternativa D altera a posição do pronome (de ênclise para próclise) e mantém a correção. As demais alternativas também alteram, mas de forma incorreta. A alternativa D é a única que altera corretamente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"… para sua aldeia sem a noiva, aliviado por não ter trazido-a."
No texto original: "aliviado por não tê-la trazido". O pronome "a" está em próclise ao verbo "trazido" (forma nominal), atraído pela palavra negativa "não". A alternativa desloca o pronome para depois do particípio "trazido", o que é proibido pela norma (não se usa ênclise com particípio). Além disso, a forma "trazido-a" é agramatical. Erro: contradiz a regra do particípio.
Conclusão
A questão testa a habilidade de comparar a posição do pronome no texto original com a reescrita, aplicando as regras de próclise, ênclise e as proibições. A alternativa D é a única que altera a posição do pronome (de ênclise para próclise) de forma correta, pois a próclise é facultativa quando há sujeito explícito antes do verbo. As demais ou mantêm a posição original ou alteram de forma incorreta, violando as regras de atração.