Transbordam nas prateleiras das livrarias os manuais de autoajuda. Como ser mais feliz, como ter sucesso, como pensar positivo, como conquistar um amor, como ter mais qualidade de vida. Vendem feito picolé na praia. Eu só me pergunto uma coisa: adianta?
Se o leitor, depois de ler um destes livros, ficar mesmo mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado e mais rico, então me curvo. Mas desconfio que o único bem verdadeiro que estes livros fazem é o de dar ao leitor a impressão de que ele está reagindo diante da própria frustração. Se alguém acha que a sua vida, em certo aspecto, não anda legal, o fato de deslocar-se até uma livraria, comprar um destes livros e lê-lo até o fim já configura uma iniciativa, uma atitude favorável a si mesmo. Tenho certeza de que isso ajuda mais que as palavras de ordem contidas nestas publicações, tipo “reinvente sua relação”, “pense se precisa mesmo comprar uma nova torradeira” ou “seja flexível”. Se fosse fácil assim, a psicanálise seria extinguida.
A princípio, todo mundo sabe que deve beber muita água, praticar exercícios, ter autoestima, não se exigir demais, etc.
Só que, para isso deixar de ser uma intenção e se tornar um hábito, a descoberta tem que se dar de dentro para fora, vagarosamente. É preciso mergulhar um pouco mais fundo em busca das próprias necessidades, e este é um aprendizado que se dá através do pensar e do sentir, duas coisas que raríssimos livros de autoajuda estimulam.
Autoajuda, de verdade, são todos os outros livros: romances clássicos, policiais, biografias, ficção científica, crônicas do cotidiano, enfim, tudo que convida à reflexão, tudo que diverte e intriga, faz rir e chorar, tudo que nos auxilia no autorreconhecimento e nos justifica como seres humanos.
(Marta Medeiros, Non-stop: crônicas do cotidiano.)
Considere a seguinte oração do parágrafo:
Se o leitor, depois de ler um destes livros, ficar mesmo mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado e mais rico, então me curvo.
A conjunção “Se”, em destaque, estabelece uma
Aconclusão sobre a ideia de se curvar.
Balternativa à ideia de se curvar.
Coposição à ideia de se curvar.
Dconsequência de se curvar.
Econdição para se curvar.
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GabaritoE — condição para se curvar.
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A conjunção "Se" e a relação de condição
Gabarito: letra E. A conjunção "Se", no trecho "Se o leitor, depois de ler um destes livros, ficar mesmo mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado e mais rico, então me curvo", estabelece uma condição para a ação de "me curvar". A estrutura é clássica de oração condicional: Se P, então Q — P (o leitor ficar mais feliz, etc.) é a condição para Q (eu me curvar). Isso se prova pela própria construção do período, que traz o "então" como correlato da condição.
O comando da questão
A questão pede que você identifique a relação de sentido que a conjunção "Se" estabelece entre as orações. Não se trata de interpretar o texto, mas de reconhecer o valor semântico de uma conjunção subordinativa. Em provas de concurso, é comum cobrar exatamente isso: saber que "se" pode ser condicional (se chover, não saio) ou integrante (não sei se ele vem). Aqui, o contexto é de condição, pois a oração introduzida por "se" expressa uma hipótese necessária para a ocorrência do fato principal.
A estrutura do período
"Se o leitor, depois de ler um destes livros, ficar mesmo mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado e mais rico, então me curvo."
Observe: a oração "Se o leitor... ficar mesmo mais feliz..." é a subordinada adverbial condicional; a oração principal é "então me curvo". A conjunção "se" introduz a condição — o leitor só será digno de que a autora se curve se, de fato, ficar mais feliz, mais bem-sucedido, etc. O "então" reforça essa relação: é o correlato da condição, indicando a consequência que só ocorre se a condição for satisfeita.
A técnica que decide
A chave é reconhecer o esquema lógico da condicional: Se A, então B. A oração introduzida por "se" é sempre a hipótese (condição), e a oração principal é o resultado (consequência). Para testar, pergunte: "O que precisa acontecer para que a autora se curve?" A resposta é: "o leitor ficar mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado e mais rico". Isso é a condição. As demais alternativas confundem essa relação com outras (conclusão, alternativa, oposição, consequência), que têm conjunções e estruturas próprias.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "Se" estabelece uma conclusão sobre a ideia de se curvar. Errado. Conclusão é expressa por conjunções como logo, portanto, por isso, assim (ex.: "Estudou, portanto passou"). No trecho, "Se" não conclui nada; ela condiciona a ação de se curvar a um fato hipotético. A conclusão, se houvesse, viria com "então", mas o "então" aqui é apenas o correlato da condição, não uma conjunção conclusiva autônoma.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "Se" estabelece uma alternativa à ideia de se curvar. Errado. Alternativa é expressa por ou, ou...ou, ora...ora (ex.: "Ou você estuda, ou não passa"). No trecho, não há escolha entre duas opções; há uma hipótese que, se cumprida, leva a uma ação. A relação é de condição, não de alternância.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "Se" estabelece uma oposição à ideia de se curvar. Errado. Oposição é expressa por mas, porém, contudo, todavia (ex.: "Queria sair, mas estava chovendo"). No trecho, não há contraste entre as ideias; há uma relação de dependência: a ação de se curvar depende da condição. A oposição exigiria uma quebra de expectativa, o que não ocorre.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "Se" estabelece uma consequência de se curvar. Errado. Consequência é expressa por tão...que, de forma que, de modo que (ex.: "Estudou tanto que passou"). No trecho, "Se" não introduz o efeito de se curvar; ela introduz a causa hipotética que levaria a se curvar. A consequência seria "me curvo", mas ela é o resultado da condição, não o que "Se" estabelece.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que "Se" estabelece uma condição para se curvar. Correto. A estrutura "Se P, então Q" é a definição clássica de oração condicional. No trecho, "Se o leitor... ficar mesmo mais feliz..." é a condição; "então me curvo" é o resultado. A conjunção "Se" introduz a hipótese necessária para a ação principal. Isso é confirmado pelo próprio texto, que usa "então" como correlato, reforçando a relação de condição.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o valor de "se", pergunte: "O que precisa acontecer para que a ação principal ocorra?" Se a resposta for a oração introduzida por "se", é condicional. Se "se" puder ser trocado por "caso", também é condicional (ex.: "Caso o leitor fique mais feliz, me curvo").
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre condição e consequência. Muitos candidatos marcam "D" porque veem "então" e pensam em consequência. Mas "então" aqui é apenas o correlato da condição, não uma conjunção consecutiva. A relação central é de condição: a ação de se curvar depende da hipótese.
Gabarito: letra E. A conjunção "Se" estabelece uma condição para a ação de se curvar, como prova a estrutura "Se P, então Q" do período.