Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — VUNESP 2023

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
vu183804
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBC
Ano
2023
Cargo
Prof ( )

Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade. Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso com o verídico.

 

Anos atrás, uma amiga decidiu carregar um pouco na tradição familiar. Ela me disse que acabava de retornar “da fazenda” do pai. A filha que nos escutava (tinha algo como 10 anos) quase gritou: “Fazenda, mãe? Aquilo não é nem sítio!”. Menina inconveniente, desagradável, pouco educada e, como descobri depois, mais exata na descrição da propriedade rural. Era mais uma casinha cercada de árvores singelas do que um latifúndio.

 

A pessoa que abre a boca de forma inconveniente, revelando contradições e trazendo à luz inconsistências, pode ser um … boquirroto. Também empregamos o termo para designar quem não guarda segredo. Quando o objeto da indiscrição não somos nós, nada mais divertido do que esse ser. Funciona como a criança do conto A Roupa Nova do Rei (de Hans Andersen): diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público. O indiscreto libera demônios coletivos reprimidos pelo medo e pela inconveniência.

 

Aprendi muito cedo que a liberdade de expressão, quando anunciada, é um risco. Aprendi que o cuidado deve ser redobrado diante do convite à sinceridade. Existem barreiras intransponíveis, pontos cegos, muralhas impenetráveis no mundo humano. Uma delas é a situação em que uma pergunta envolve uma crença fundamental da pessoa.

 

Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo: invejo-os.

 

Se vocês dizem o que querem, na hora que desejam, vocês têm uma ou todas as seguintes características: riqueza extrema, poder político enorme, tamanho físico intimidador, equipe de segurança numerosa, total estabilidade afetiva, autonomia diante do mundo, saúde plena e coragem épica. Sem nenhuma das oito características anteriores, eu, humilde mortal, prometo, lacanianamente*, dizer-lhes a verdade que vocês estão preparados para ouvir. Da mesma forma, direi a minha verdade: limitada, cheia de impurezas e concepções equivocadas, ou seja, a que eu estou preparado para enunciar. O demônio é o pai da mentira, porque ele não é onipotente. A verdade total pertence a Deus. Nós? Adeus e alguma esperança...

 

(Leandro Karnal, O boquirroto. Diário da Região, 19.06.2022. Adaptado)

 

* Referência ao psicanalista Jacques Lacan.

A alternativa entre parênteses que reescreve o trecho destacado de acordo com a norma-padrão de concordância verbal é:
  1. AAnos atrás, uma amiga decidiu carregar um pouco na tradição familiar. (Fazem alguns anos…).
  2. BTambém se aplica o termo a quem não guarda segredo. (Também se aplicam os termos a quem não guarda segredo).
  3. CEra mais uma casinha cercada de árvores singelas… (Tratavam-se de casinhas cercadas…).
  4. DExistem barreiras intransponíveis… (Devem haver barreiras intransponíveis…).
  5. ESe vocês dizem o que querem, na hora que desejam… (Se vocês dizem as coisas que se pode dizer, na hora que se deseja…).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Também se aplica o termo a quem não guarda segredo. (Também se aplicam os termos a quem não guarda segredo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância verbal na reescritura de trechos

Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que reescreve o trecho destacado de acordo com a norma-padrão de concordância verbal, pois mantém a concordância correta entre o verbo "aplicar" e o sujeito "os termos". No texto original, lê-se: "Também empregamos o termo para designar quem não guarda segredo" — a reescritura proposta em B, "Também se aplicam os termos a quem não guarda segredo", está gramaticalmente correta, pois o sujeito é "os termos" (plural) e o verbo concorda no plural. As demais alternativas apresentam desvios de concordância, como veremos a seguir.

O comando da questão

A questão pede que você identifique a alternativa em que a reescritura do trecho destacado respeita a norma-padrão de concordância verbal. Isso significa que você deve analisar cada reescritura e verificar se o verbo está flexionado corretamente em relação ao seu sujeito, considerando também os casos especiais de concordância (verbos impessoais, locuções verbais, sujeito indeterminado, etc.).

O texto-base e a concordância

O texto de Leandro Karnal, O boquirroto, discute a inconveniência de dizer a verdade e a liberdade de expressão. Para a questão, o que importa são os trechos destacados, que serão reescritos. A concordância verbal é a relação de flexão entre o verbo e seu sujeito: o verbo concorda em número e pessoa com o núcleo do sujeito. Em casos especiais, como verbos impessoais (haver, fazer indicando tempo decorrido), a concordância é fixa no singular. Em locuções verbais, o verbo auxiliar concorda com o sujeito, e o principal fica numa forma nominal.

A técnica de resolução

Para cada alternativa, identifique o sujeito da reescritura e verifique se o verbo concorda com ele. Cuidado com:

  • Verbos impessoais: "haver" no sentido de existir, "fazer" indicando tempo — ficam sempre no singular.

  • Locuções verbais: o auxiliar concorda com o sujeito; o principal fica invariável.

  • Sujeito indeterminado: com "se", o verbo fica no singular se o verbo for transitivo indireto ou intransitivo.

Análise das alternativas

Concordância verbal
  • 1Verbo impessoal (singular fixo)
    • Haver (existir)
    • Fazer (tempo decorrido)
  • 2Locução verbal com impessoal
    • Auxiliar fica no singular
  • 3Partícula "se"
    • Apassivadora → verbo concorda com o sujeito
    • Indeterminadora → verbo no singular
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

A reescritura "Fazem alguns anos…" está incorreta. O verbo "fazer" indicando tempo decorrido é impessoal e deve ficar sempre no singular: "Faz alguns anos…". A forma "fazem" é um erro clássico de concordância. O texto original, "Anos atrás, uma amiga decidiu carregar um pouco na tradição familiar", não apresenta esse verbo, mas a reescritura proposta viola a norma-padrão.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A reescritura "Também se aplicam os termos a quem não guarda segredo" está correta. O sujeito é "os termos" (plural), e o verbo "aplicar" concorda no plural: "aplicam". O "se" é partícula apassivadora, e a voz passiva sintética exige que o verbo concorde com o sujeito paciente. No texto original, "Também empregamos o termo para designar quem não guarda segredo", o sujeito é "nós" (desinencial), mas a reescritura muda a estrutura para voz passiva, mantendo a concordância adequada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A reescritura "Tratavam-se de casinhas cercadas…" está incorreta. O verbo "tratar" com a partícula "se" é transitivo indireto, formando sujeito indeterminado. Nesse caso, o verbo deve ficar no singular: "Trata-se de casinhas cercadas…". A forma "tratavam-se" é um erro de concordância, pois o "se" indetermina o sujeito, e o verbo não concorda com o objeto indireto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A reescritura "Devem haver barreiras intransponíveis…" está incorreta. O verbo "haver" no sentido de existir é impessoal e, em locuções verbais, faz com que todo o conjunto fique no singular: "Deve haver barreiras intransponíveis…". A forma "devem haver" é um erro clássico, pois o auxiliar "devem" concorda com o sujeito, mas o sujeito não existe (oração sem sujeito).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A reescritura "Se vocês dizem as coisas que se pode dizer, na hora que se deseja…" está incorreta. O trecho "que se pode dizer" apresenta um erro de concordância: o sujeito é "as coisas" (plural), e o verbo "poder" deveria concordar no plural: "que se podem dizer". O "se" é partícula apassivadora, e o verbo concorda com o sujeito paciente. No texto original, "Se vocês dizem o que querem, na hora que desejam…", a estrutura é diferente, mas a reescritura introduz um desvio.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura desvios de concordância com verbos impessoais (haver, fazer) e com a partícula "se" (apassivadora ou indeterminadora). A alternativa B é a única que acerta a concordância na voz passiva sintética.

PEGA ESSA DICA!

Ao reescrever trechos, identifique primeiro o sujeito. Se o verbo for impessoal (haver, fazer com tempo), ele fica no singular. Se houver "se" apassivador, o verbo concorda com o sujeito paciente.

Gabarito: letra B.

Link permanente: /questoes/vu183804