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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — VUNESP 2023

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
vu183805
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBC
Ano
2023
Cargo
Prof ( )

Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade. Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso com o verídico.

 

Anos atrás, uma amiga decidiu carregar um pouco na tradição familiar. Ela me disse que acabava de retornar “da fazenda” do pai. A filha que nos escutava (tinha algo como 10 anos) quase gritou: “Fazenda, mãe? Aquilo não é nem sítio!”. Menina inconveniente, desagradável, pouco educada e, como descobri depois, mais exata na descrição da propriedade rural. Era mais uma casinha cercada de árvores singelas do que um latifúndio.

 

A pessoa que abre a boca de forma inconveniente, revelando contradições e trazendo à luz inconsistências, pode ser um … boquirroto. Também empregamos o termo para designar quem não guarda segredo. Quando o objeto da indiscrição não somos nós, nada mais divertido do que esse ser. Funciona como a criança do conto A Roupa Nova do Rei (de Hans Andersen): diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público. O indiscreto libera demônios coletivos reprimidos pelo medo e pela inconveniência.

 

Aprendi muito cedo que a liberdade de expressão, quando anunciada, é um risco. Aprendi que o cuidado deve ser redobrado diante do convite à sinceridade. Existem barreiras intransponíveis, pontos cegos, muralhas impenetráveis no mundo humano. Uma delas é a situação em que uma pergunta envolve uma crença fundamental da pessoa.

 

Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo: invejo-os.

 

Se vocês dizem o que querem, na hora que desejam, vocês têm uma ou todas as seguintes características: riqueza extrema, poder político enorme, tamanho físico intimidador, equipe de segurança numerosa, total estabilidade afetiva, autonomia diante do mundo, saúde plena e coragem épica. Sem nenhuma das oito características anteriores, eu, humilde mortal, prometo, lacanianamente*, dizer-lhes a verdade que vocês estão preparados para ouvir. Da mesma forma, direi a minha verdade: limitada, cheia de impurezas e concepções equivocadas, ou seja, a que eu estou preparado para enunciar. O demônio é o pai da mentira, porque ele não é onipotente. A verdade total pertence a Deus. Nós? Adeus e alguma esperança...

 

(Leandro Karnal, O boquirroto. Diário da Região, 19.06.2022. Adaptado)

 

* Referência ao psicanalista Jacques Lacan.

Observe as ocorrências de dois-pontos nas passagens a seguir.

 

\bullet Funciona como a criança do conto A Roupa Nova do Rei (de Hans Andersen): diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público.

 

\bullet Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo: invejo-os.

 

Assinale a alternativa em que se justifica, correta e respectivamente, o emprego de dois-pontos.

  1. AIntroduzir um esclarecimento; marcar o vocativo.
  2. BIntroduzir uma citação; expressar um questionamento.
  3. CIntroduzir um esclarecimento; marcar uma justificativa.
  4. DInserir uma referência literária; destacar uma definição.
  5. EInserir o ponto de vista do autor; marcar o vocativo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Introduzir um esclarecimento; marcar o vocativo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Uso dos dois-pontos: esclarecimento e vocativo

Gabarito: letra A. Na primeira passagem, os dois-pontos introduzem um esclarecimento — explicam o que a criança do conto faz ("diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público"). Na segunda, marcam o vocativo — "Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo" é o chamamento ao interlocutor, e "invejo-os" é a declaração que se segue. A alternativa A é a única que nomeia corretamente as duas funções, na ordem pedida.

O comando

A questão pede que você justifique o emprego dos dois-pontos em duas passagens específicas, "correta e respectivamente". Isso significa: você deve identificar a função do sinal em cada ocorrência, na ordem em que aparecem. Não é uma questão de interpretação global do texto — é uma questão de gramática aplicada: reconhecer o valor sintático-semântico do sinal de pontuação no contexto.

O texto

O texto de Leandro Karnal discute o "boquirroto" — a pessoa que fala o que não deve, revelando verdades inconvenientes. As duas passagens citadas estão em momentos diferentes:

  • A primeira compara o boquirroto à criança do conto A Roupa Nova do Rei: "Funciona como a criança do conto A Roupa Nova do Rei (de Hans Andersen): diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público." Aqui, os dois-pontos explicam a comparação — dizem o que a criança faz.

  • A segunda é uma exclamação irônica: "Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo: invejo-os." Aqui, os dois-pontos separam o vocativo (o chamamento) da declaração principal.

A técnica que decide

Os dois-pontos têm várias funções: introduzir uma citação, uma enumeração, um esclarecimento ou uma fala de personagem. Mas há um caso específico que a banca adora cobrar: separar o vocativo. O vocativo é o termo que chama o interlocutor — e, quando vem antes da oração principal, pode ser separado por vírgula ou por dois-pontos.

Na segunda passagem, "Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo" é claramente um vocativo: é o destinatário da mensagem, a quem o autor se dirige. A prova disso é que poderíamos reescrever a frase como "Invejo-os, minha iluminada amiga e meu onisciente amigo" — o sentido permaneceria o mesmo. O vocativo é um termo acessório, que não faz parte da estrutura sintática da oração; ele apenas nomeia o interlocutor.

Na primeira passagem, os dois-pontos introduzem uma explicação do que foi dito antes. A oração "diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público" esclarece o que a criança do conto faz — é um aposto explicativo, que poderia ser isolado por vírgulas: "Funciona como a criança do conto, que diz o que todos viam...".

11ª passagem
Introduz esclarecimento
Explica o que a criança faz
22ª passagem
Marca o vocativo
Chamamento ao interlocutor
3Outras funções
Citação
Enumeração
Fala de personagem
Dois-pontos
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Dois-pontos: 1ª passagem (Introduz esclarecimento, Explica o que a criança faz); 2ª passagem (Marca o vocativo, Chamamento ao interlocutor); Outras funções (Citação, Enumeração, Fala de personagem)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Funciona como a criança do conto A Roupa Nova do Rei (de Hans Andersen): diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público."

A parte após os dois-pontos esclarece o que a criança faz — é uma explicação do comportamento dela. E na segunda:

"Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo: invejo-os."

O trecho destacado é o vocativo — o chamamento ao interlocutor. A alternativa A nomeia exatamente essas duas funções, na ordem correta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A primeira passagem não introduz uma citação — não há discurso direto, aspas ou verbo de elocução. A segunda não expressa um questionamento — não há ponto de interrogação nem pergunta. A banca troca "esclarecimento" por "citação" e "vocativo" por "questionamento".

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A primeira passagem realmente introduz um esclarecimento, mas a segunda não marca uma justificativa. "Invejo-os" não é a razão de algo; é a declaração principal. A justificativa seria algo como "invejo-os porque vocês dizem o que querem" — mas isso não está no trecho. A banca troca "vocativo" por "justificativa".

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: fora do escopo. A primeira passagem menciona uma referência literária (o conto de Andersen), mas os dois-pontos não a inserem — eles introduzem a explicação do que a criança faz. A segunda não destaca uma definição; destaca um vocativo. A alternativa confunde o conteúdo do texto com a função do sinal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A primeira passagem não insere o ponto de vista do autor — insere um esclarecimento sobre o comportamento da criança. A segunda realmente marca o vocativo, mas como a primeira está errada, a alternativa inteira cai. A banca acerta a segunda função, mas erra a primeira.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o que os dois-pontos fazem no texto e o que o texto diz. Na alternativa D, por exemplo, há uma referência literária no trecho, mas os dois-pontos não a "inserem" — eles introduzem a explicação. Sempre pergunte: qual é a função do sinal, não o que o trecho fala?

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o vocativo, tente deslocá-lo para o final da frase. Se o sentido permanecer, é vocativo: "Invejo-os, minha iluminada amiga e meu onisciente amigo". Para identificar um esclarecimento, veja se a parte após os dois-pontos explica o que veio antes — se sim, é aposto explicativo.

Gabarito: letra A. A primeira passagem introduz um esclarecimento; a segunda marca o vocativo. Essa é a única combinação que nomeia corretamente as duas funções, na ordem pedida.

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