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Questão de Português — Questões Variadas de Classe de Palavras — VUNESP 2023

PortuguêsQuestões Variadas de Classe de Palavras
Código
vu183941
Banca
VUNESP
Órgão
CM SBO
Ano
2023
Cargo
Ana Sis ( )

Uma analogia frequentemente usada para falar de divulgação científica descreve o cientista como um ser enclausurado em uma torre de marfim isolada do resto da sociedade. A metáfora costuma ser a deixa para defender que ele tem o dever de descer da torre ou construir pontes para compartilhar o conhecimento produzido na academia com o cidadão comum. Essa história sempre me pareceu estranha por retratar a pesquisa acadêmica como uma torre de marfim: uma estrutura sólida, robusta e imaculada.

 

É óbvio que cientistas sabem algumas coisas com um grau muito alto de certeza. Computadores, celulares e bombas atômicas estão aí para provar o sucesso acachapante das leis da física em fazer previsões sobre a realidade. Da mesma forma, ninguém discutiria no meio médico que antibióticos são capazes de matar bactérias, ou que a insulina salvou a vida de milhões de diabéticos.

 

Ao mesmo tempo, porém, quase um século de estudos sobre nutrição não conseguiu responder a questões básicas, como saber se é melhor basear uma dieta em carboidratos ou lipídeos. Décadas de investimento na neurobiologia dos transtornos mentais tiveram um impacto raso na saúde mental das populações. E os bilhões de dólares investidos em pesquisa básica sobre Alzheimer que se converteram em praticamente nada de útil na clínica? Em algumas áreas da ciência, ao menos, a tal torre de marfim está mais para um castelo de cartas.

 

Os defensores da ciência serão rápidos em argumentar que o fracasso desses campos não se traduz necessariamente em uma mácula no currículo da pesquisa acadêmica. Alguns problemas são simplesmente difíceis, e é perfeitamente possível que, a qualquer momento, essas décadas de investimento em pesquisa comecem a trazer seu retorno para a sociedade.

 

Minha impressão é de que a pesquisa acadêmica tem muitos pontos a serem melhorados – e minha intenção, mais do que a propagandear, é me debruçar sobre suas mazelas. Que ninguém pense, porém, que estou descendo da torre de marfim para fazê-lo. Pelo contrário, sempre estive falando ao rés do chão: se há alguma torre nessa história, meu intuito é ajudar a construí-la.

 

(Olavo Amaral. Torres de marfim, castelos de cartas e telhados de vidro. www.nexojornal.com.br, 23.08.2022. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.

   

No trecho “A metáfora costuma ser a deixa para defender que ele tem o dever de descer da torre…” (1o parágrafo), o vocábulo deixa pertence à mesma classe de palavras, no contexto em que se encontra, que o vocábulo destacado em:

  1. A… retratar a pesquisa acadêmica com uma torre de marfim: uma estrutura sólida, robusta e imaculada. (1o parágrafo)
  2. BÉ óbvio que cientistas sabem algumas coisas com um grau muito alto de certeza. (2o parágrafo)
  3. C… pesquisa básica sobre Alzheimer que se converteram em praticamente nada de útil… (3o parágrafo)
  4. D… o fracasso desses campos não se traduz necessariamente em uma mácula… (4o parágrafo)
  5. E… essas décadas de investimento em pesquisa comecem a trazer seu retorno para a sociedade. (4o parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — … essas décadas de investimento em pesquisa comecem a trazer seu retorno para a sociedade. (4o parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Classe de palavras no contexto: a substantivação de 'deixa' e 'retorno'

Gabarito: letra E. No trecho, o vocábulo "deixa" é um substantivo (sinônimo de "ocasião", "oportunidade"), e não o verbo "deixar". A alternativa E apresenta "retorno" também como substantivo (derivado do verbo "retornar" por derivação regressiva), o que mantém a mesma classe. Como se lê no 4º parágrafo: "essas décadas de investimento em pesquisa comecem a trazer seu retorno para a sociedade" — aqui "retorno" é o núcleo do objeto direto, um nome, exatamente como "deixa" é núcleo do objeto indireto em "a deixa para defender".

O comando

A questão pede que você identifique a classe de palavras de um vocábulo no contexto em que se encontra. Isso significa que não basta saber o que a palavra é isoladamente (dicionário); é preciso analisar como ela funciona na frase. A palavra "deixa" pode ser verbo ("ele deixa o livro") ou substantivo ("a deixa para agir"). No texto, está precedida de artigo definido "a" e seguida de preposição "para", funcionando como núcleo de um sintagma nominal — portanto, substantivo.

O texto

O texto discute a metáfora da "torre de marfim" para a ciência. No 1º parágrafo, o autor menciona que a metáfora costuma ser "a deixa" (a ocasião, o pretexto) para defender que o cientista deve descer da torre. A palavra "deixa" aqui é um substantivo, pois é o termo que recebe a determinação do artigo "a" e é modificado pela locução "para defender...".

A técnica que decide

A chave é reconhecer a substantivação — processo pelo qual uma palavra de outra classe (verbo, adjetivo, etc.) passa a funcionar como substantivo. Isso ocorre por derivação imprópria (mudança de classe sem alteração da forma) ou por derivação regressiva (redução da forma verbal, como "retornar" → "retorno"). No caso de "deixa", temos derivação imprópria: a forma verbal "deixa" (3ª pessoa do presente do indicativo de "deixar") é usada como nome. Já "retorno" é derivação regressiva: o substantivo é formado pela redução do verbo "retornar".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a forma verbal "deixa" (do verbo deixar) e o substantivo "deixa" (ocasião, pretexto). O candidato que não analisa o contexto tende a marcar a alternativa A, que traz "torre" (substantivo comum), mas a chave é identificar a palavra que, como "deixa", é um substantivo derivado de verbo.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a classe de uma palavra, pergunte: "ela pode receber artigo? pode ser modificada por adjetivo? é núcleo de um sintagma nominal?" Se sim, é substantivo — mesmo que a forma também exista como verbo.

1Verbo → Substantivo
"deixa" (de deixar)
"retorno" (de retornar)
2Substantivo primitivo
"torre"
"mácula"
3Substantivo de adjetivo
"certeza" (certo + -eza)
4Pronome indefinido
"nada"
Substantivação (derivação imprópria)
LEVELsoulevel.com.br
Substantivação (derivação imprópria): Verbo → Substantivo ("deixa" (de deixar), "retorno" (de retornar)); Substantivo primitivo ("torre", "mácula"); Substantivo de adjetivo ("certeza" (certo + -eza)); Pronome indefinido ("nada")

Alternativa A — ❌ Incorreta

A palavra "torre" é um substantivo comum, mas não é derivada de verbo — é um substantivo primitivo, que nomeia um objeto concreto. A alternativa tenta confundir ao apresentar um substantivo, mas a questão pede a mesma classe no contexto de "deixa", que é um substantivo abstrato e derivado de verbo. Aqui, o erro é de troca de conceito: considera-se qualquer substantivo como equivalente, ignorando a especificidade da derivação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Certeza" é um substantivo abstrato, mas não é derivado de verbo — deriva do adjetivo "certo" (derivação sufixal: certo + -eza). A alternativa apresenta um substantivo, mas não mantém a mesma relação de formação que "deixa" (que vem de verbo). O erro é de troca de conceito: confunde-se substantivo abstrato com substantivo deverbal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Nada" é um pronome indefinido (ou palavra denotativa), não é substantivo. No trecho "praticamente nada de útil", "nada" funciona como pronome, indicando ausência. A alternativa foge completamente da classe pedida — erro de fora do escopo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Mácula" é um substantivo comum, mas não é derivado de verbo — é um substantivo primitivo, que significa "mancha". Assim como a alternativa A, apresenta um substantivo, mas não mantém a relação de derivação verbal. O erro é de troca de conceito.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Retorno" é um substantivo derivado do verbo "retornar" por derivação regressiva (redução do verbo). No trecho "essas décadas de investimento em pesquisa comecem a trazer seu retorno para a sociedade", "retorno" é o núcleo do objeto direto de "trazer", funcionando como nome — exatamente como "deixa" funciona no trecho original. A correspondência é perfeita: ambos são substantivos deverbais, formados a partir de verbos.

Conclusão: a questão exige reconhecer a classe de palavras no contexto, não isoladamente. "Deixa" e "retorno" são substantivos derivados de verbos, enquanto as demais alternativas ou não são substantivos (C) ou são substantivos primitivos (A, D) ou derivados de adjetivo (B). A única que mantém a mesma classe e o mesmo processo de formação é a letra E.

Gabarito: letra E

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