Questão de Português — Denotação e Conotação — VUNESP 2023
Português›Denotação e Conotação
Código
vu183958
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SP
Ano
2023
Cargo
APPGG ( )
O Cortiço
Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que, no entanto, gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos das comidas dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.
Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas de noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas, e os trabalhadores passavam de manhã e às Ave-Marias, e a maior parte deles iam comer à casa de pasto que João Romão arranjara aos fundos da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão frequentada como a dele. Nunca o seu negócio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso. E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a burra, aos cinquenta e aos cem mil réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos.
(Aluísio Azevedo, O Cortiço. Adaptado)
Vocabulário:
casa de pasto: restaurante popular, taverna
finório: indivíduo astucioso
burra: arca ou caixa de madeira
Leia o texto para responder à questão. Assinale a alternativa que indica corretamente o sentido em que o termo destacado foi empregado no texto e apresenta-lhe adequadamente um sinônimo.
ANunca o seu negócio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores. (figurado; sovina) – 2o parágrafo
BDesde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. (figurado; desejo exacerbado) – 1o parágrafo
CDas suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria… (próprio; baratos) – 1o parágrafo
DE seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal… ( próprio; ranzinza) – 1o parágrafo
EConstruía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas de noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. (figurado; aumentavam) – 2o parágrafo
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GabaritoB — Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. (figurado; desejo exacerbado) – 1o parágrafo
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Denotação e conotação em "O Cortiço"
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que acerta tanto a classificação do sentido quanto o sinônimo: "febre de possuir" está em sentido figurado (conotativo) — febre não é doença aqui, mas desejo exacerbado de acumular riqueza — e o sinônimo apresentado é adequado. A passagem que ancora a resposta está no 1º parágrafo: "Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário." O contexto imediatamente seguinte confirma a leitura figurada: "Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda."
O comando pede duas coisas simultâneas: (1) identificar se o termo destacado foi empregado em sentido próprio (denotativo) ou figurado (conotativo) e (2) apresentar um sinônimo adequado para ele no contexto. É uma questão de semântica aplicada ao texto — não basta saber a definição de denotação/conotação; é preciso testar cada termo dentro da frase em que aparece. A técnica central: pergunte se o sentido é literal (a palavra significa exatamente o que o dicionário diz, independentemente do contexto) ou se depende do contexto frásico para ganhar um significado novo. Conotação = sentido que só existe naquele contexto; denotação = sentido que vale em qualquer contexto.
No texto, o narrador descreve João Romão, um homem tomado pela avareza. O 1º parágrafo é o retrato psicológico dessa obsessão: ele guarda os piores legumes para si, vende todos os ovos, "contentava-se com os restos das comidas dos trabalhadores". A expressão "febre de possuir" não pode ser lida literalmente — febre é elevação da temperatura corporal, e ninguém tem febre por possuir bens. O autor usa a palavra "febre" metaforicamente, para transmitir a ideia de um desejo intenso, descontrolado, quase doentio de acumular riqueza. O próprio texto reforça essa leitura ao chamar aquilo de "moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular". Portanto, sentido figurado e sinônimo "desejo exacerbado" — exatamente o que a letra B afirma.
A armadilha central da questão está em confundir o sentido do termo destacado com o sentido de outras palavras da mesma frase. Cada distratora pega um trecho do texto e ou classifica errado o sentido, ou oferece um sinônimo que não corresponde ao termo destacado, ou ambos. A banca também explora a tendência de achar que "figurado" só aparece em metáforas óbvias — mas aqui o jogo é mais sutil: algumas alternativas classificam como "próprio" termos que são figurados, e vice-versa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura a classificação do sentido com a adequação do sinônimo. Em várias alternativas, um dos dois elementos está certo e o outro errado — o candidato que marca pela metade cai. Teste SEMPRE os dois critérios: (1) o termo destacado é literal ou figurado naquele contexto? (2) o sinônimo dado cabe no lugar do termo sem mudar o sentido?
Alternativa
Termo destacado
Classificação (correta?)
Sinônimo (adequado?)
Veredito
A
finório
Próprio/denotativo (a alternativa diz figurado)
Sovina (inadequado; seria astucioso)
❌ Incorreta
B
febre de possuir
Figurado/conotativo (correto)
Desejo exacerbado (adequado)
✅ Correta
C
piores
Próprio/denotativo (correto)
Baratos (inadequado; seria estragados)
❌ Incorreta
D
socado
Próprio/denotativo (correto)
Ranzinza (inadequado; seria atarracado)
❌ Incorreta
E
dobravam
Próprio/denotativo (a alternativa diz figurado)
Aumentavam (adequado, mas classificação errada)
❌ Incorreta
Sentido das palavras
1Denotação (próprio)
Sentido literal do dicionário
Vale em qualquer contexto
2Conotação (figurado)
Sentido criado pelo contexto
Metáfora, comparação implícita
3Teste prático
Leitura literal faz sentido?
Sim → denotação
Não → conotação
Sinônimo cabe na frase?
Sim → alternativa correta
Não → alternativa errada
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O trecho "Nunca o seu negócio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto" está no 2º parágrafo. O termo destacado é "finório", que o próprio vocabulário do texto define: "indivíduo astucioso". O sentido é próprio (denotativo) — a palavra designa diretamente a característica de João Romão, sem metáfora. A alternativa classifica como figurado e oferece o sinônimo "sovina" (avarento, pão-duro). O erro é duplo: (1) o sentido é denotativo, não figurado; (2) "sovina" não é sinônimo de "finório" — astucioso é quem age com esperteza, não necessariamente quem é avarento. A alternativa contradiz o texto (classificação errada) e troca o conceito (sinônimo inadequado).
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Como provado na abertura: "febre de possuir" está em sentido figurado — febre é usada metaforicamente para designar o desejo intenso e doentio de acumular bens. O texto confirma: "Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda." O sinônimo "desejo exacerbado" (desejo intensificado, fora do normal) é perfeitamente adequado ao contexto. A alternativa acerta os dois critérios do comando.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O trecho "Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria" está no 1º parágrafo. O termo destacado é "piores" (ou "maus", conforme a leitura). O sentido é próprio (denotativo) — legumes ruins, estragados, que ninguém compraria. A classificação está correta. Porém, o sinônimo "baratos" é inadequado: legumes baratos não são necessariamente ruins; o texto diz que eram os piores, "por maus, ninguém compraria". O sinônimo adequado seria "piores" mesmo, ou "estragados", "imprestáveis". A alternativa troca o conceito: confunde qualidade (ruim) com preço (barato).
Alternativa D — ❌ Incorreta
O trecho "E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda" está no 1º parágrafo. O termo destacado é "socado" — que aqui significa "atarracado, de corpo compacto, baixo e grosso". O sentido é próprio (denotativo): descreve fisicamente João Romão. A classificação está correta. Porém, o sinônimo "ranzinza" (mal-humorado, irritadiço) não tem relação alguma com aparência física — é um traço de personalidade. A alternativa troca o conceito: confunde característica física com temperamento. O sinônimo adequado seria "atarracado", "rechonchudo", "compacto".
Alternativa E — ❌ Incorreta
O trecho "Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas de noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor" está no 2º parágrafo. O termo destacado é "dobravam" — que aqui significa "multiplicavam por dois", "duplicavam". O sentido é próprio (denotativo): o valor das propriedades realmente duplicou. A alternativa classifica como figurado, o que está errado — não há metáfora; o verbo "dobrar" está em seu sentido literal de "tornar-se o dobro". O sinônimo "aumentavam" é adequado (dobrar implica aumentar), mas a classificação errada já invalida a alternativa. A alternativa contradiz o texto na classificação do sentido.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de denotação × conotação, teste o sentido literal primeiro. Se a leitura literal fizer sentido na frase ("as propriedades dobraram de valor" = duplicaram), é denotação. Se a leitura literal for absurda ou impossível ("febre de possuir" = doença? não, é desejo), é conotação. Depois, confira se o sinônimo proposto cabe no lugar do termo sem alterar o sentido — se não couber, a alternativa está errada, mesmo que a classificação esteja certa.
Gabarito: letra B. A questão ensina que denotação e conotação não são rótulos soltos: dependem do contexto frásico. "Febre" é denotativa em "febre alta" e conotativa em "febre de possuir". O que decide é sempre o texto — e o sinônimo tem de ser testado na frase, não no dicionário isolado.