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Questão de Português — Conjunção — VUNESP 2023

PortuguêsConjunção
Código
vu183969
Banca
VUNESP
Órgão
TJ RS
Ano
2023
Cargo
ATI ( )

A bolsa – I / O achado

 

Jamais em minha vida achei na rua ou em qualquer parte do globo um objeto qualquer. Existem pessoas que acham carteiras, joias, promissórias, animais de luxo, e sei de um polonês que achou um piano na praia do Leblon, inspirando o conto célebre de Aníbal Machado. Mas este escriba, nada: nem um botão.

 

Por isso, grande foi a minha emoção ao deparar, no assento do coletivo, com uma bolsa preta de senhora. O destino me prestava esse pequeno favor: completava minha identificação com o resto da humanidade, que tem sempre para contar uma história de objeto achado; e permitia-me ser útil a alguém, devolvendo o que lhe faria falta.

 

A bolsa pertencia certamente à moça morena que viajara a meu lado, e de que eu vira apenas o perfil. Sentara-se, abrira o livro e mergulhara na leitura. Eu senti vontade de dizer-lhe: “Moça, não faça isso, olhe seus olhos”, mas receei que ela visse em minhas palavras mais do que um cuidado oftalmológico, e abstive-me. Absorta na leitura, ao sair esquecera o objeto, que só me atraiu a atenção quando o lotação já ia longe.

 

Assim, vi-me sozinho com a bolsa na mão. E para evitar que na saída o motorista me interpelasse: “Ei, ó distinto, deixa esse troço aí”, achei prudente envolvê-la no jornal que eu portava. Já percebe o leitor que, a essa altura, minha situação moral era pouco sólida, pois eu procurava esconder do motorista um objeto que não me pertencia, sob o fundamento de que pretendia restituí-lo à dona; como se eu conhecesse essa proprietária mais do que ele, motorista.

 

Assim, embuçada convenientemente a coisa, como algo tenebroso que convinha esquivar à curiosidade pública, paguei com dignidade a passagem e saltei sem impugnação.

 

(Carlos Drummond de Andrade. A bolsa e a vida. Adaptado)

Considere as passagens:

 

\bullet Existem pessoas que acham carteiras, joias, promissórias, animais de luxo, e sei de um polonês que achou um piano na praia do Leblon, inspirando o conto célebre de Aníbal Machado. Mas este escriba, nada: nem um botão.

 

\bullet Já percebe o leitor que, a essa altura, minha situação moral era pouco sólida, pois eu procurava esconder do motorista um objeto que não me pertencia, sob o fundamento de que pretendia restituí-lo à dona...

 

Os termos destacados estabelecem relações de sentido, respectivamente, de

  1. Arestrição e conclusão.
  2. Bcontrariedade e contraste.
  3. Cconclusão e acréscimo.
  4. Dexplicação e conclusão.
  5. Econtraste e explicação.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — contraste e explicação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conjunções: valores semânticos de "Mas" e "pois"

Gabarito: letra E. Os termos destacados estabelecem, respectivamente, relações de contraste e explicação. No primeiro trecho, "Mas" opõe a ideia de que outras pessoas acham objetos à de que o narrador nunca achou nada; no segundo, "pois" introduz a justificativa para a afirmação de que a situação moral era pouco sólida. A passagem que ancora a resposta é: "Mas este escriba, nada: nem um botão" e "minha situação moral era pouco sólida, pois eu procurava esconder do motorista um objeto que não me pertencia".

A questão pede que você identifique a relação de sentido que as conjunções destacadas estabelecem no contexto. Isso é diferente de pedir a classificação gramatical isolada: aqui, o que importa é o valor semântico que o conectivo assume naquele trecho específico. A banca VUNESP adora cobrar isso — não basta saber que "mas" é adversativa e "pois" é explicativa/conclusiva; é preciso ver o que elas fazem com as ideias no texto.

No texto de Drummond, o narrador começa dizendo que nunca achou nada na vida, enquanto outras pessoas acham coisas. A conjunção "Mas" introduz uma quebra de expectativa: depois de listar os achados alheios, o narrador contrapõe a própria experiência. Isso é contraste/oposição — a ideia de que, apesar de outros acharem, ele não acha nada. Já o "pois" aparece no segundo trecho explicando por que a situação moral era pouco sólida: porque ele escondia do motorista um objeto que não era dele. O "pois" aqui tem valor explicativo (equivale a "porque"), não conclusivo — ele introduz a causa/justificativa da afirmação anterior.

A pegadinha central está em confundir o valor do "pois". Muita gente decora que "pois" pode ser conclusivo (quando vem depois do verbo) e marca a alternativa A ou D. Mas repare: no trecho, "pois" vem antes do verbo "procurava" e introduz a razão da pouca solidez moral — é explicação, não conclusão. A conclusão seria algo como "minha situação era pouco sólida; portanto, escondi a bolsa". Aqui, a ordem é inversa: primeiro a afirmação, depois a justificativa.

Conjunções
  • 1Mas
    • Contraste/oposição
    • Quebra de expectativa
  • 2Pois
    • Antes do verbo
      • Explicação (equivale a "porque")
    • Depois do verbo
      • Conclusão (equivale a "portanto")
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Restrição e conclusão. O "Mas" não restringe — ele opõe ideias. Restrição seria algo como "apenas", "somente". E o "pois" não conclui: ele explica. A alternativa troca o valor do "pois" (conclusivo em vez de explicativo) e rebaixa o "Mas" a uma mera restrição, quando ele estabelece contraste.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Contrariedade e contraste. O primeiro termo até poderia ser "contrariedade" (sinônimo de oposição), mas o segundo está errado: "pois" não marca contraste, e sim explicação. A alternativa acerta no primeiro e erra no segundo — típica armadilha de quem analisa os conectivos um a um sem conferir o contexto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Conclusão e acréscimo. O "Mas" não conclui nada — ele contrapõe. E o "pois" não acrescenta informação nova; ele justifica a afirmação anterior. A alternativa inverte completamente os valores: troca contraste por conclusão e explicação por acréscimo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Explicação e conclusão. O primeiro termo até poderia ser "explicação" se o "Mas" explicasse algo, mas ele opõe. E o "pois" não conclui — ele explica. A alternativa acerta o segundo e erra o primeiro, mas como a questão pede a relação dos dois, está incorreta.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Contraste e explicação. O "Mas" estabelece oposição entre o que os outros acham e o que o narrador acha ("Mas este escriba, nada"). O "pois" introduz a justificativa para a pouca solidez moral ("pois eu procurava esconder do motorista um objeto que não me pertencia"). Exatamente o que o texto mostra.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a dupla função do "pois" (explicativo × conclusivo). A regra de ouro: pois antes do verbo = explicação; pois depois do verbo = conclusão. No trecho, "pois eu procurava" — antes do verbo — é explicação.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o valor de uma conjunção, pergunte: "essa conjunção está justificando (explicação), concluindo (conclusão) ou opondo (contraste)?" Teste substituindo: se "porque" funciona, é explicação; se "portanto" funciona, é conclusão.

Gabarito: letra E — contraste e explicação, na ordem exata em que aparecem no texto.

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