Leia o poema Ilusões da Vida para responder à questão.
Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
(Roteiro da poesia brasileira – Romantismo. Org. Antonio Carlos Secchin. Global Editora, 2007)
Entre os versos elaborados a partir das ideias do poema, aquele que traz o sinal indicativo de crase corretamente empregado é:
AQuem passou pela vida à ver navios
BÀ quem nada afligia ou atormentava
CQuem permaneceu alheio à desgraças e sofrimentos
DIguala-se à uma sombra, não foi um ser humano
EPassou à margem da vida, não viveu
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GabaritoE — Passou à margem da vida, não viveu
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Crase: locução adverbial feminina
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única em que o acento grave é obrigatório por se tratar de locução adverbial feminina — "à margem" —, formada pela preposição "a" + o artigo feminino "a" antes do substantivo "margem". Como se lê no poema, quem "passou pela vida" sem sofrer "só passou pela vida, não viveu", ou seja, ficou à margem da vida, não a viveu de fato. A crase aqui é obrigatória porque "margem" é palavra feminina que admite artigo definido, e a locução adverbial exige a preposição "a".
O comando
A questão pede que se identifique, entre versos inspirados no poema, aquele em que o sinal indicativo de crase está corretamente empregado. Isso significa que não basta a frase "soar bem" — é preciso verificar se há, de fato, a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a" (ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos/relativos). A tarefa é de gramática aplicada ao texto: analisar cada ocorrência do "a" e decidir se o acento grave é exigido, facultativo ou proibido.
O texto e a técnica
O poema Ilusões da Vida (Álvares de Azevedo) desenvolve a ideia de que quem não sofreu, quem não sentiu a desgraça, foi um "espectro de homem" — não viveu de verdade. A alternativa E captura exatamente essa ideia: "Passou à margem da vida, não viveu". A expressão "à margem" é uma locução adverbial feminina (como "à toa", "à deriva", "à noite"), e a crase é obrigatória nesses casos, pois há preposição "a" + artigo "a" antes de substantivo feminino.
A regra central da crase: ocorre quando há fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a" (ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos/relativos). Para testar, substitua o termo feminino por um masculino: se aparecer "ao", há crase; se aparecer apenas "o", não há. Exemplo: "Passou à margem" → "Passou ao lado" (aparece "ao", logo há crase). Já em "Passou a ver navios", o "a" é preposição antes de verbo — crase proibida.
A banca adora cobrar crase em locuções adverbiais femininas ("à margem", "à toa", "à deriva") e em casos proibidos (antes de verbo, de palavra masculina, de pronome de tratamento, de "uma"). A pegadinha clássica é o candidato confundir a preposição "a" (sem acento) com a crase (com acento), ou aplicar a crase onde o termo não admite artigo.
Alternativa
Ocorrência do "a"
Crase?
Motivo
A
"à ver"
❌ Proibida
Antes de verbo, não há artigo
B
"À quem"
❌ Proibida
Pronome relativo "quem" não admite artigo
C
"à desgraças"
❌ Proibida
Palavra plural sem artigo definido (sentido genérico)
D
"à uma"
❌ Proibida
Antes de artigo indefinido "uma"
E
"à margem"
✅ Obrigatória
Locução adverbial feminina (preposição "a" + artigo "a")
Crase
1Obrigatória
Locução adverbial feminina (à margem)
Preposição + artigo definido
2Proibida
Antes de verbo (a ver)
Antes de "quem"
Antes de "uma"
Antes de palavra no plural sem artigo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Quem passou pela vida à ver navios"
Erro: crase antes de verbo. O "a" aqui é apenas preposição exigida pela locução "passar a" (passar a fazer algo), e não há artigo — antes de verbo, a crase é proibida. O correto seria "a ver navios", sem acento. A banca explora a confusão entre a preposição "a" e a crase.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"À quem nada afligia ou atormentava"
Erro: crase antes de pronome relativo "quem". O pronome relativo "quem" não admite artigo, portanto não há crase. O correto seria "A quem nada afligia". A banca testa o conhecimento de que "quem" nunca aceita crase, mesmo quando a regência pede preposição "a".
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Quem permaneceu alheio à desgraças e sofrimentos"
Erro: crase antes de palavra no plural sem artigo. O substantivo "desgraças" está no plural, mas não está precedido de artigo definido "as" — o sentido é genérico/indefinido. Sem artigo, não há crase. O correto seria "alheio a desgraças e sofrimentos" (sem acento) ou "alheio às desgraças" (se houvesse artigo). A banca testa a distinção entre sentido específico (com artigo) e genérico (sem artigo).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Iguala-se à uma sombra, não foi um ser humano"
Erro: crase antes de artigo indefinido "uma". O artigo indefinido "uma" não admite crase — a crase só ocorre com artigo definido "a". O correto seria "Iguala-se a uma sombra". A banca testa a regra de que crase é proibida antes de "uma".
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Passou à margem da vida, não viveu"
Correta: locução adverbial feminina. "À margem" é uma locução adverbial formada por preposição "a" + artigo "a" + substantivo feminino "margem". A crase é obrigatória — como em "à toa", "à deriva", "à noite". O teste do masculino confirma: "Passou ao lado" (aparece "ao", logo há crase). Além disso, a expressão captura a ideia central do poema: quem não sofreu "só passou pela vida, não viveu", ou seja, ficou à margem da vida.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura casos proibidos (verbo, "quem", "uma", sentido genérico) com um caso obrigatório (locução adverbial feminina). A armadilha é o candidato aplicar crase por "soar bem" sem verificar a regra.
PEGA ESSA DICA!
Antes de marcar, faça o teste do masculino: se aparecer "ao", há crase; se aparecer só "o", não há. E lembre: crase antes de verbo, "quem", "uma" e palavra masculina é sempre proibida.
Gabarito: letra E — a única em que o acento grave é obrigatório por locução adverbial feminina.