Os fantasmas não fumam. Mas não por causa da campanha antitabagista que está na moda. Os fantasmas deixaram de fumar desde o doloroso acidente ocorrido no seu nevoento mundo.
Era um fantasma que tinha a mania de assistir ao deitar e ao despertar das moças quando se despiam ou vestiam. Nuas em pelo, elas não lhe interessavam. Como se vê, tratava- se de um fantasma antiquado.
Ora, uma noite, invisibilizando-se como fazia em tais ocasiões, ele entrou pela primeira vez no quarto de Lurdinha.
E, como vocês felizmente ainda ignoram, não é só para mim que Lurdinha é irresistível. O destino dela é inspirar amor à primeira vista, mas amor no duro – não a simples contemplação olhativa com que o fantasma até então se divertira.
Um amor para casar.
Ante essa impossibilidade, a vida do fantasma era um suspiro só.
Até que um dia recordou ter lido, em um poeta chinês, que fumar era uma maneira disfarçada de suspirar...
E o nosso fantasma apaixonado fumou tanto, tanto, que acabou fumando-se a si mesmo.
(Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho, 2013. Adaptado)
A pontuação está de acordo com a norma-padrão em:
AMuitos felizmente ignoram, que Lurdinha é uma moça irresistível, e essa constatação não é só para mim.
BLurdinha, era uma moça para casar; o fantasma, no entanto, via-se impossibilitado para realizar aquilo.
CLurdinha, que inspira amor à primeira vista, superou com o fantasma, a simples contemplação olhativa.
DO fantasma, certa noite, entrou no quarto de Lurdinha, descobriu-a irresistível e passou a suspirar por ela.
EO fantasma que era antiquado, começou a fumar para disfarçar os suspiros; os outros fantasmas, não.
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GabaritoD — O fantasma, certa noite, entrou no quarto de Lurdinha, descobriu-a irresistível e passou a suspirar por ela.
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Pontuação: a vírgula que separa o que pode e o que não pode
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única em que todas as vírgulas estão empregadas conforme a norma-padrão: isola-se o adjunto adverbial deslocado ("certa noite") e separam-se orações coordenadas assindéticas ("entrou...", "descobriu-a...", "passou a suspirar..."). As demais alternativas cometem, cada uma, um erro clássico de vírgula — separar sujeito de verbo, verbo de complemento, ou isolar indevidamente um termo que não pode ser isolado.
O comando
A questão pede que você identifique a frase em que a pontuação está de acordo com a norma-padrão. Isso significa que você deve analisar cada alternativa como se fosse um texto autônomo, verificando se as vírgulas (e ponto e vírgula) estão empregadas corretamente. Não se trata de interpretar o texto de Mario Quintana, mas de aplicar as regras de pontuação. O comando é de conceito — você precisa dominar os usos obrigatórios, facultativos e proibidos da vírgula.
O texto
O texto-base é uma crônica de Mario Quintana sobre um fantasma que se apaixona por Lurdinha e, para disfarçar os suspiros, começa a fumar até "fumar-se a si mesmo". O conteúdo é irrelevante para a resolução; o que importa é a estrutura sintática das frases reescritas nas alternativas. Cada alternativa reescreve uma passagem do texto, e você deve julgar a pontuação dessa reescrita.
A técnica: os três usos da vírgula que decidem a questão
Para resolver, você precisa ter claro:
Vírgula obrigatória para isolar adjunto adverbial deslocado (quando a circunstância não está no fim da oração). Ex.: "O fantasma, certa noite, entrou..." — "certa noite" é adjunto adverbial de tempo deslocado, por isso deve vir entre vírgulas.
Vírgula obrigatória para separar orações coordenadas assindéticas (sem conectivo). Ex.: "entrou no quarto de Lurdinha, descobriu-a irresistível e passou a suspirar por ela" — as duas primeiras orações são assindéticas e devem ser separadas por vírgula; a última, introduzida por "e", não leva vírgula antes (a menos que haja sujeito diferente, o que não ocorre).
Vírgula proibida entre sujeito e verbo, entre verbo e complemento, e entre nome e seu adjunto adnominal — a não ser que haja um termo intercalado que exija isolamento.
A pegadinha da banca está em colocar vírgulas que parecem corretas, mas que separam termos que não podem ser separados. Vejamos cada alternativa.
Usos da vírgula
1Obrigatória
Isolar adjunto adverbial deslocado
Separar orações coordenadas assindéticas
2Proibida
Entre sujeito e verbo
Entre verbo e complemento
Entre nome e adjunto adnominal
3Prova do corte
Retirar o trecho entre vírgulas
Frase mantém sentido e estrutura
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Muitos felizmente ignoram, que Lurdinha é uma moça irresistível, e essa constatação não é só para mim."
Erro: separar verbo de complemento. A vírgula após "ignoram" separa o verbo transitivo direto de seu objeto direto (a oração subordinada substantiva objetiva direta "que Lurdinha é uma moça irresistível"). Isso é proibido. Além disso, "felizmente" é um adjunto adverbial curto e, em posição normal, não exige vírgula; se deslocado, deveria vir isolado, mas aqui está entre o sujeito e o verbo sem isolamento, o que também é inadequado. A frase correta seria: "Muitos felizmente ignoram que Lurdinha é uma moça irresistível, e essa constatação não é só para mim."
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Lurdinha, era uma moça para casar; o fantasma, no entanto, via-se impossibilitado para realizar aquilo."
Erro: separar sujeito de verbo. A vírgula após "Lurdinha" separa o sujeito do verbo "era". Isso é proibido. O ponto e vírgula está bem empregado para separar as duas orações coordenadas, e a vírgula após "fantasma" isola corretamente a conjunção "no entanto" (intercalada). Mas o erro inicial já invalida a alternativa. A forma correta seria: "Lurdinha era uma moça para casar; o fantasma, no entanto, via-se impossibilitado para realizar aquilo."
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Lurdinha, que inspira amor à primeira vista, superou com o fantasma, a simples contemplação olhativa."
Erro: separar verbo de complemento. A vírgula após "fantasma" separa o verbo "superou" de seu objeto direto "a simples contemplação olhativa". O adjunto adverbial "com o fantasma" está intercalado e deveria vir entre vírgulas, mas a vírgula que o fecha acaba separando verbo de complemento. A frase correta seria: "Lurdinha, que inspira amor à primeira vista, superou com o fantasma a simples contemplação olhativa." (sem a vírgula antes do objeto direto).
Alternativa D — ✅ Correta
"O fantasma, certa noite, entrou no quarto de Lurdinha, descobriu-a irresistível e passou a suspirar por ela."
Correta. A vírgula após "fantasma" isola o adjunto adverbial deslocado "certa noite" (circunstância de tempo). A vírgula após "Lurdinha" separa a primeira oração coordenada assindética ("entrou no quarto de Lurdinha") da segunda ("descobriu-a irresistível"). A terceira oração ("passou a suspirar por ela") é introduzida pela conjunção aditiva "e", e não há vírgula antes dela — o que está correto, pois o sujeito é o mesmo (o fantasma). Tudo conforme a norma-padrão.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"O fantasma que era antiquado, começou a fumar para disfarçar os suspiros; os outros fantasmas, não."
Erro: separar sujeito de verbo. A vírgula após "antiquado" separa o sujeito composto ("O fantasma que era antiquado") do verbo "começou". Além disso, a oração adjetiva "que era antiquado" é restritiva e não deve ser isolada por vírgulas (a ausência de vírgula antes do "que" está correta, mas a vírgula depois de "antiquado" quebra a estrutura). O ponto e vírgula está bem empregado, e a vírgula após "fantasmas" indica a elipse do verbo (zeugma), o que é correto. Mas o erro principal invalida a alternativa. A forma correta seria: "O fantasma que era antiquado começou a fumar para disfarçar os suspiros; os outros fantasmas, não."
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca vírgulas que parecem isolar um adjunto ou uma oração, mas na verdade separam sujeito de verbo ou verbo de complemento. Fique atento à função sintática dos termos ao redor da vírgula.
PEGA ESSA DICA!
Antes de marcar, faça a "prova do corte": retire o trecho entre vírgulas. Se a frase continuar fazendo sentido e mantiver a estrutura sintática correta, a vírgula está bem empregada; se quebrar a relação sujeito-verbo ou verbo-complemento, está errada.
Conclusão: a única alternativa em que todas as vírgulas respeitam a norma-padrão é a letra D. As demais cometem erros de separação indevida — A e C separam verbo de complemento; B e E separam sujeito de verbo. Lembre-se: a vírgula não pode separar termos que são sintaticamente ligados, a menos que haja um elemento intercalado que exija isolamento.