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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2023

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
vu184022
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2023
Cargo
OJ ( )

Leia o texto para responder à questão seguinte.

 

Kazukuta

Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.

Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol para lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.

Acho que o Kazukuta era um cão triste. Nós não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo de vacina, não sei, devia perguntar ao tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais.

(Ondjaki, Os da minha rua, 2007. Fragmento)

 

A relação de causa e consequência entre as informações está corretamente evidenciada na passagem:

  1. A... e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar...
  2. BNormalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava.
  3. C... e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem.
  4. DMexia-se sempre devagarinho, bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol para lhe acudir as feridas...
  5. EAcho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo de vacina, não sei...
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GabaritoA — ... e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar...

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relação de causa e consequência: o valor do conectivo "por"

Gabarito: letra A. A passagem que evidencia corretamente a relação de causa e consequência é a que traz a estrutura "por + infinitivo" — "era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava". Nessa construção, o "por" introduz a causa (o grito e a corrida das crianças) e o restante da oração expressa a consequência (o cão acordar e vir espreitar). As demais alternativas ou apresentam outra relação semântica (finalidade, hipótese) ou não estabelecem causa e consequência entre as informações.

O comando: o que a banca pede

O enunciado pede para identificar a passagem em que a relação de causa e consequência está "corretamente evidenciada". Isso significa que a alternativa correta deve conter um conectivo ou construção que marque explicitamente que um fato é a causa de outro. Não basta que a relação exista implicitamente no contexto — é preciso que ela esteja marcada linguisticamente. A banca testa, portanto, o reconhecimento do valor semântico dos conectivos (causa, finalidade, hipótese, etc.).

O texto: onde mora a resposta

O texto narra a rotina do cão Kazukuta, sempre atento à queda de frutas. No primeiro parágrafo, o narrador explica por que o cão acordava: as crianças gritavam e corriam, e isso o despertava. A relação é explicitada pela expressão "por gritarmos ou por corrermos", em que o "por" (preposição) + infinitivo indica a causa do despertar. Veja o trecho:

"... e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar..."

Aqui, a estrutura "por + infinitivo" é clássica para expressar causa: "por gritarmos" = "porque gritávamos". A consequência é o acordar do cão. Nenhuma outra alternativa apresenta essa marcação causal explícita.

A técnica: como reconhecer causa e consequência

A relação de causa e consequência é estabelecida por conectivos como porque, pois, visto que, já que, por + infinitivo (causa) e portanto, logo, por isso (consequência). Na alternativa A, o "por" é um conectivo causal — equivale a "porque". Já na alternativa D, o "para" indica finalidade (objetivo), não causa. Na alternativa E, "se calhar" expressa hipótese/dúvida, não causa. As alternativas B e C não apresentam conectivo que estabeleça relação causal entre duas informações — apenas descrevem características do cão.

Análise das alternativas

1Causa (por quê?)
porque, pois, visto que
por + infinitivo
2Finalidade (para quê?)
para, a fim de
3Hipótese (talvez)
se calhar, talvez, quiçá
Conectivos e relações semânticas
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Conectivos e relações semânticas: Causa (por quê?) (porque, pois, visto que, por + infinitivo); Finalidade (para quê?) (para, a fim de); Hipótese (talvez) (se calhar, talvez, quiçá)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A passagem "era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava" evidencia a relação de causa e consequência: a causa é o grito e a corrida das crianças; a consequência é o cão acordar e vir espreitar. O "por" + infinitivo é um conectivo causal clássico, equivalente a "porque". A banca pede exatamente isso: a relação marcada linguisticamente.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava." Aqui há apenas uma descrição do que o cão comia, sem relação de causa e consequência entre as informações. O "que" é pronome relativo (retoma "nêsperas"), não conectivo causal. Erro: ausência de relação causal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"... e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem." A passagem descreve o cão (baba grossa, feridas) e o desejo das crianças de que ele não as lambesse. Não há causa e consequência entre os fatos; há uma enumeração de características. Erro: ausência de relação causal.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Mexia-se sempre devagarinho, bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol para lhe acudir as feridas..." O "para" introduz uma finalidade (objetivo de acudir as feridas), não uma causa. A relação é de meio/fim, não de causa e consequência. Erro: confunde finalidade com causa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo de vacina, não sei..." O "se calhar" expressa hipótese/dúvida (o narrador não tem certeza), não uma relação causal comprovada. A causa (alergia/medo) é apenas uma suposição, não uma relação estabelecida. Erro: confunde hipótese com causa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre causa e finalidade (D) e entre causa e hipótese (E). O "para" e o "se calhar" são iscas clássicas. Fique atento: causa responde a "por quê?", finalidade a "para quê?", hipótese a "talvez".

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar relação de causa e consequência, sublinhe os conectivos. Causa: porque, por, visto que, já que. Finalidade: para, a fim de. Hipótese: se calhar, talvez, quiçá. A alternativa correta é a que usa um conectivo causal explícito.

Gabarito: letra A.

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