Questão de Português — Colocação Pronominal — VUNESP 2023
Português›Colocação Pronominal
Código
vu184037
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2023
Cargo
CFO/QC ( )
Leia o texto, para responder a questão.
Em um piano distante alguém estuda uma lição lenta, em notas graves. De muito longe, de outra esquina, vem também o som de um realejo. Conheço o velho que o toca, ele anda sempre pelo meu bairro; já fez o periquito tirar para mim um papelucho em que me são garantidos 93 anos de vida, muita riqueza, poder e felicidade.
Ora, não preciso de tanto. Nem de tanta vida nem de tanta coisa mais. Dinheiro apenas para não ter as aflições da pobreza; poder somente para mandar um pouco, pelo menos, em meu nariz; e da felicidade um salário mínimo: tristezas que possa aguentar, remorsos que não doam mais, renúncias que não façam de mim um velho amargo.
Joguei uma prata da janela, e o periquito do realejo me fez um ancião poderoso, feliz e rico. De rebarba me concedeu 14 filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco. Mas os periquitos são muito exagerados, e o costume de ouvir o dia inteiro trechos de ópera não deve lhes fazer bem à cabeça. Os papagaios são mais objetivos e prudentes, e só se animam a afirmar uma coisa depois que a ouvem repetidas vezes.
Agora não se ouve mais o realejo; o piano recomeça a tocar. Esses sons soltos, e indecisos, teimosos e tristes, de uma lição elementar qualquer, têm uma grave monotonia. Deus sabe por que acordei hoje com tendência a filosofia de bairro; mas agora me ocorre que a vida de muita gente parece um pouco essa lição de piano. Nunca chega a formar a linha de uma certa melodia. Começa a esboçar, com os pontos soltos de alguns sons, a curva de uma frase musical; mas logo se detém, e volta, e se perde numa incoerência monótona. Não tem ritmo nem cadência sensíveis. Para quem a vive, essa vida deve ser penosa e triste como o esforço dessa jovem pianista de bairro, que talvez preferisse ir à praia, mas tem de ficar no piano.
(Rubem Braga, O vassoureiro, em O homem rouco. Adaptado)
No processo de produção de texto escrito, o professor poderá abordar com os alunos a colocação dos pronomes átonos segundo a perspectiva fonético-sintática, caracterizando as estruturas do padrão culto do português do Brasil. Nessa abordagem, será apontada como adequada a nova redação dada ao enunciado na alternativa:
ANunca chega a formar a linha de uma certa melodia, nunca harmoniza-se de forma agradável.
BOs papagaios são mais objetivos e prudentes, e só se animam a afirmar uma coisa tendo ouvido-a repetidas vezes.
CAgora não se ouve mais o realejo; o piano recomeça a tocar. Se pudesse, eu silenciaria-o também.
DDe muito longe, de outra esquina, vem também o som de um realejo, e mal ouço-o de onde estou.
EDe rebarba me concedeu 14 filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco; na verdade, aterrorizam-me.
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GabaritoE — De rebarba me concedeu 14 filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco; na verdade, aterrorizam-me.
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Colocação Pronominal: a posição do pronome oblíquo átono
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única em que a nova redação mantém a correção gramatical segundo a norma-padrão, pois o pronome oblíquo átono "me" permanece em próclise, posição obrigatória por ser atraído pela conjunção subordinativa "que" presente na oração anterior. No texto, lê-se: "tarefa e honra que me assustam um pouco"; a reescritura "na verdade, aterrorizam-me" é adequada porque, após o ponto e vírgula, inicia-se nova oração sem palavra atrativa, permitindo a ênclise. As demais alternativas apresentam ênclise indevida após palavras atrativas ou em estruturas que exigem próclise.
O comando da questão pede que o professor aborde a colocação pronominal "segundo a perspectiva fonético-sintática, caracterizando as estruturas do padrão culto do português do Brasil". Isso significa que a banca não quer apenas identificar a posição do pronome, mas avaliar se a reescritura proposta está de acordo com as regras de próclise, ênclise e mesóclise. A tarefa é de reescritura com correção gramatical: cada alternativa apresenta uma nova redação de um trecho do texto, e o candidato deve verificar se a colocação do pronome oblíquo átono está adequada.
O texto-base é uma crônica de Rubem Braga, e o trecho relevante para a questão está no terceiro parágrafo: "De rebarba me concedeu 14 filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco". A oração "que me assustam" contém o pronome relativo "que", que é uma palavra atrativa e exige próclise. A alternativa E reescreve esse trecho como "na verdade, aterrorizam-me", eliminando a palavra atrativa e iniciando nova oração, o que torna a ênclise correta.
A regra central da colocação pronominal é: próclise (pronome antes do verbo) é obrigatória quando há palavras atrativas, como conjunções subordinativas (que, se, quando), pronomes relativos (que, o qual), advérbios (não, nunca, já), pronomes indefinidos (tudo, nada) e pronomes interrogativos. Ênclise (pronome depois do verbo) é usada quando não há palavra atrativa, especialmente no início de orações. Mesóclise é usada com verbos no futuro do presente e do pretérito, desde que não haja palavra atrativa.
A pegadinha da banca está em oferecer reescrituras que parecem corretas, mas que violam a próclise obrigatória. Por exemplo, a alternativa A mantém a palavra atrativa "nunca" e usa ênclise, o que é proibido. A alternativa B mantém o pronome relativo "que" e usa ênclise, também incorreto. A alternativa C mantém a conjunção "se" e usa ênclise, errado. A alternativa D mantém o advérbio "mal" e usa ênclise, igualmente incorreto. A alternativa E, ao contrário, elimina a palavra atrativa e usa ênclise corretamente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre posições facultativas e obrigatórias do pronome oblíquo átono, oferecendo reescrituras que mantêm palavras atrativas e usam ênclise indevida. A única alternativa que elimina a palavra atrativa e usa ênclise corretamente é a E.
Colocação pronominal
1Próclise (antes do verbo)
Palavras atrativas
Conjunções subordinativas (que, se, quando)
Pronomes relativos (que, o qual)
Advérbios (não, nunca, mal)
Pronomes indefinidos (tudo, nada)
2Ênclise (depois do verbo)
Sem palavra atrativa
Início de oração
3Mesóclise
Futuro do presente/pretérito
Sem palavra atrativa
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Nunca chega a formar a linha de uma certa melodia, nunca harmoniza-se de forma agradável."
O advérbio de negação "nunca" é uma palavra atrativa que exige próclise. A forma correta seria "nunca se harmoniza". A alternativa usa ênclise após palavra atrativa, o que viola a regra. Erro: contradiz a regra de próclise obrigatória após advérbio negativo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Os papagaios são mais objetivos e prudentes, e só se animam a afirmar uma coisa tendo ouvido-a repetidas vezes."
O pronome relativo "que" (implícito em "tendo ouvido-a") é uma palavra atrativa. A forma correta seria "tendo-a ouvido" ou "tendo ouvido ela" (com pronome tônico). A ênclise "ouvido-a" é inadequada, pois o pronome relativo atrai o pronome para antes do verbo. Erro: contradiz a regra de próclise após pronome relativo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Agora não se ouve mais o realejo; o piano recomeça a tocar. Se pudesse, eu silenciaria-o também."
A conjunção subordinativa "se" é uma palavra atrativa que exige próclise. A forma correta seria "eu o silenciaria". A alternativa usa ênclise após a conjunção "se", o que é proibido. Erro: contradiz a regra de próclise após conjunção subordinativa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"De muito longe, de outra esquina, vem também o som de um realejo, e mal ouço-o de onde estou."
O advérbio "mal" é uma palavra atrativa que exige próclise. A forma correta seria "mal o ouço". A alternativa usa ênclise após advérbio, o que viola a regra. Erro: contradiz a regra de próclise após advérbio.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"De rebarba me concedeu 14 filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco; na verdade, aterrorizam-me."
No trecho original, "que me assustam" tem próclise obrigatória por causa do pronome relativo "que". Na reescritura, "na verdade, aterrorizam-me" inicia nova oração após ponto e vírgula, sem palavra atrativa, o que torna a ênclise correta. A alternativa mantém o sentido e a correção gramatical. Correta: usa ênclise adequadamente após eliminar a palavra atrativa.
Conclusão: a questão testa a aplicação das regras de colocação pronominal em reescrituras. A alternativa E é a única que respeita a norma-padrão, pois elimina a palavra atrativa e usa ênclise corretamente. As demais mantêm palavras atrativas e usam ênclise indevida. Gabarito: letra E.