Há de existir em cada aresta deste planeta um buraco negro
de meias desquitadas, elásticos de cabelo exilados e chaves de
casa fugitivas. Uma espécie de país das maravilhas, um mundo
invertido acessível apenas ao santo dos três pulinhos — não
importa o quanto você revire o sofá, olhe embaixo da cama ou
verifique a geladeira (afinal, por que não?). O mistério universal
dos objetos perdidos é tema central de dois livros infantojuvenis recém-chegados às livrarias brasileiras. Em Doutor Sumiço
(Companhia das Letrinhas), o cartunista paulista Caco Galhardo dá vida a Lico, um garoto que tem o superpoder de fazer
as coisas desaparecerem, mas acaba fazendo mau uso desse
dom. Já em Acostura (Pequena Zahar), a escritora e ilustradora
argentina Isol nos conduz pela busca da menina Lila por itens
perdidos, que ela crê terem caído em buracos pelo mundo, fissuras que decide procurar e costurar.
Em comum às duas histórias há o destaque à figura da
avó, não só como porto seguro para os netos, mas também
como detentora e guardiã de saberes ancestrais. “No livro,
a avó traz o afeto, o amor e a compreensão, sem contar os
bolinhos de queijo. E é na casa dela que estão todas as lendas dos nossos antepassados que vão ficando pelo caminho”,
conta Galhardo.
Embora pouco afeitos a moralidades, os autores deixam
esfumaçadas algumas lições valiosas. Por trás da sucessão de
perdas que vivenciamos, há uma bonita lição a ser aprendida
sobre acolher a impermanência, a efemeridade, o fluxo incessante de chegadas e partidas que dão cadência à vida. As coisas que são deixadas para trás sem que se saiba onde também
nos convidam a aceitar o inexplicável como parte intrínseca da
jornada. Afinal, mistério sempre há de pintar por aí.
(Marília Kodic. Revista Quatro Cinco Um. 30 de maio de 2023. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
Considere os trechos.
• ... um garoto que tem o superpoder de fazer as coisas desaparecerem, mas acaba fazendo mau uso desse dom.
• Embora pouco afeitos a moralidades, os autores deixam esfumaçadas algumas lições valiosas.
Os vocábulos em destaque introduzem, respectivamente, as ideias de
Aconcessão e conclusão.
Bexplicação e oposição.
Cconclusão e adição.
Dadição e explicação.
Eoposição e concessão.
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GabaritoE — oposição e concessão.
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Conectivos: oposição e concessão nos trechos
Gabarito: letra E. Os vocábulos destacados "mas" e "Embora" introduzem, respectivamente, as ideias de oposição e concessão. No primeiro trecho, o "mas" contrapõe o superpoder de Lico ao mau uso que ele faz dele; no segundo, o "Embora" admite uma ressalva (os autores não são afeitos a moralidades) antes de afirmar que deixam lições valiosas. Como se lê no texto: "um garoto que tem o superpoder de fazer as coisas desaparecerem, mas acaba fazendo mau uso desse dom" e "Embora pouco afeitos a moralidades, os autores deixam esfumaçadas algumas lições valiosas".
O comando
A questão pede que você identifique o valor semântico de dois conectivos em destaque. Isso é uma tarefa de compreensão — a resposta está no próprio texto, na relação lógica que cada conectivo estabelece entre as orações. Não é preciso inferir nada além do que está escrito; basta reconhecer o sentido que "mas" e "embora" carregam no contexto.
O texto
O texto fala sobre dois livros infantojuvenis que tratam do mistério dos objetos perdidos. No primeiro trecho, descreve-se o personagem Lico: ele tem um superpoder, mas o usa mal. A conjunção "mas" liga duas ideias contrastantes: ter o poder e fazer mau uso dele. No segundo trecho, o autor afirma que, apesar de não serem afeitos a moralidades, os autores deixam lições valiosas. A conjunção "Embora" introduz uma concessão — admite-se um fato contrário, mas que não impede a conclusão principal.
A técnica
Para resolver, você precisa dominar a diferença entre oposição e concessão:
Oposição (adversativa): contrapõe duas ideias, mas ambas são apresentadas como válidas. Conectivos típicos: mas, porém, contudo, todavia, entretanto.
Concessão (concessiva): admite um fato contrário à ideia principal, mas que não a invalida. Conectivos típicos: embora, ainda que, apesar de, conquanto.
No primeiro trecho, "mas" é uma conjunção coordenativa adversativa — liga orações independentes, opondo-as. No segundo, "Embora" é uma conjunção subordinativa adverbial concessiva — introduz uma oração que expressa uma ressalva, uma concessão.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre oposição e concessão, que são relações próximas. A diferença crucial: na oposição, as duas ideias se confrontam em pé de igualdade; na concessão, uma ideia é admitida como obstáculo, mas a outra prevalece. No trecho com "Embora", a ideia principal é que os autores deixam lições valiosas — a falta de afeição a moralidades é apenas uma ressalva.
Conectivos
1"mas"
Oposição (adversativa)
Contrapõe ideias em pé de igualdade
2"Embora"
Concessão (concessiva)
Admite obstáculo que não impede a conclusão
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Concessão e conclusão. O primeiro conectivo "mas" não é concessivo, e o segundo "Embora" não é conclusivo. A alternativa troca os valores — "mas" é adversativo (oposição), não concessivo; "Embora" é concessivo, não conclusivo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Explicação e oposição. O "mas" não explica nada; ele opõe. O "Embora" não opõe no sentido adversativo; ele concede. A alternativa confunde os conceitos de explicação e oposição com os de oposição e concessão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Conclusão e adição. O "mas" não conclui, e o "Embora" não adiciona. A alternativa inverte completamente os valores semânticos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Adição e explicação. O "mas" não adiciona, e o "Embora" não explica. A alternativa erra nos dois conectivos.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Oposição e concessão. O "mas" é uma conjunção adversativa clássica, expressando oposição entre ter o superpoder e fazer mau uso dele. O "Embora" é uma conjunção concessiva, expressando concessão — admite-se que os autores não são afeitos a moralidades, mas isso não impede que deixem lições valiosas. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar oposição de concessão, pergunte: a segunda oração anula a primeira? Se não anula, apenas contrapõe, é oposição. Se admite um obstáculo que não impede a conclusão, é concessão. No trecho com "Embora", a falta de afeição a moralidades não impede as lições — logo, concessão.