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Questão de Português — Conjunção — VUNESP 2023

PortuguêsConjunção
Código
vu184076
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2023
Cargo
Ass Soc ( )

Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar, pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de que o bom não é achar, é procurar. Prazer que exige dele ver imperfeição onde não tem.

 

Respeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando a casa. São, uns e outros, meus antípodas1. A simples ideia de empreender uma reforma me levaria a buscar um novo pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse pânico. Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais se lançou numa peregrinação em busca de poleiro.

 

No entanto, ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora de providenciar cafofo próprio.

 

Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega. É bem verdade que o edifício ainda não estava concluído e talvez fôssemos ali, o Sérgio e eu, os únicos moradores, pois não me lembro de vizinhos. Se mais gente veio, foi para o mesmo apartamento, de apenas um quarto e sala microscópica, mas onde, em dado momento, se espremeram quatro rapazes, todos do ramo jornalístico. E nem a nossa juventude explicaria a indiferença coletiva ante o fato de não haver ali uma geladeira, por miúda que fosse, para tantos bebedores de cerveja. Fogão havia, mas ocioso, pois nenhum de nós fritava um ovo.

 

Teria ficado indefinidamente em tal moquiço2, se um dos comparsas, exasperado, não me houvesse proposto alugar coisa menos deprimente.   Houve         mais dois apartamentos, ambos excelentes, que também não foi preciso garimpar. O mesmo se diga de um terceiro, o atual, no qual estou    faz      quase 28 anos e do qual não pretendo arredar pé – a não ser que o referido pé já não     dê     conta dos 24 degraus que me trazem a este primeiro andar.

 

(Humberto Werneck. Fobia imobiliária. www.estadao.com.br, 02.10.2020. Adaptado)

1 antípoda: aquele tem característica oposta.

2 moquiço: habitação rústica, desprovida de conforto.

Leia o texto para responder à questão.

 

No trecho “Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária…”, o vocábulo E, em destaque, pode ser substituído, sem prejuízo do sentido e da correção gramatical, por:

  1. AComo
  2. BEmbora
  3. CMas
  4. DPois
  5. EPorque
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GabaritoC — Mas

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conjunção "E" com valor adversativo

Gabarito: letra C. O vocábulo "E", no trecho, pode ser substituído por "Mas" sem prejuízo do sentido, pois estabelece uma relação de oposição entre a ideia de que o problema é "da minha exclusiva terapia" e a constatação de que "já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária". A passagem que ancora essa leitura é: "Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária…". O "E" aqui não soma ideias; ele introduz uma quebra de expectativa — se é problema só meu, eu deveria resolvê-lo, mas não há mais solução.

O comando

A questão pede uma substituição sem prejuízo de sentido e de correção gramatical. Isso significa que a alternativa correta deve preservar a relação lógica que o conectivo original estabelece entre as orações. Não basta que a palavra seja sinônima em algum contexto; ela precisa funcionar no contexto específico do trecho. O verbo "pode ser substituído" indica que devemos testar cada opção no lugar do "E" e verificar se o sentido global permanece.

O texto e o movimento argumentativo

O autor narra sua "fobia imobiliária" e, no trecho em questão, faz uma concessão irônica: reconhece que o problema é "da minha exclusiva terapia" (ou seja, algo pessoal, que só ele pode resolver). Em seguida, com o "E", ele introduz uma ressalva: apesar de ser problema dele, "já não há divã que dê jeito" — ou seja, não há mais solução possível. A relação entre as duas orações é de contraste: de um lado, a responsabilidade individual; de outro, a impossibilidade de tratamento. O "E" assume, portanto, valor adversativo, equivalente a "mas", "porém", "contudo".

A técnica que decide

A chave é identificar o valor semântico do conectivo no contexto. O "E" é prototipicamente aditivo (soma), mas pode assumir outros valores, como o adversativo, quando liga orações de sentido oposto. Para testar, basta substituir mentalmente por "mas": "Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. Mas, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária…" — a frase continua coerente e expressa a mesma oposição. Já as demais conjunções (como, embora, pois, porque) instauram relações diferentes (causa, concessão, explicação) que não se encaixam no contexto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a polissemia do "E" — o candidato, acostumado ao valor aditivo, pode estranhar a substituição por "mas". A dica é sempre testar a troca no contexto e verificar se a relação lógica se mantém.

1Valor aditivo (prototípico)
Soma ideias
2Valor adversativo (contextual)
Oposição entre orações
Quebra de expectativa
Substituível por "mas"
3Outros valores possíveis
Concessivo
Conclusivo
Conjunção "E"
LEVELsoulevel.com.br
Conjunção "E": Valor aditivo (prototípico) (Soma ideias); Valor adversativo (contextual) (Oposição entre orações, Quebra de expectativa, Substituível por "mas"); Outros valores possíveis (Concessivo, Conclusivo)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Como" é uma conjunção que pode expressar causa, comparação ou conformidade. No trecho, não há relação de causa (o fato de não haver divã não é causa de o problema ser da terapia) nem de comparação. Substituir "E" por "Como" quebraria a lógica: "Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. Como já não há divã…" — soaria como se a segunda oração explicasse a primeira, o que não ocorre. Erro: troca de relação lógica (causa em vez de oposição).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Embora" é uma conjunção concessiva, que introduz uma ideia de contrariedade que não impede a realização do fato. No trecho, a relação é de oposição direta entre duas constatações, não de concessão (que exigiria algo como "embora seja problema meu, não há divã"). Além disso, "embora" exigiria uma reestruturação maior da frase, pois normalmente inicia a oração subordinada. Erro: troca de relação lógica (concessão em vez de adversidade).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Mas" é a conjunção adversativa por excelência, expressando oposição, contraste ou quebra de expectativa. No trecho, o "E" liga duas ideias contrastantes: o reconhecimento de que o problema é pessoal e a constatação de que não há mais solução. A substituição preserva integralmente o sentido: "Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. Mas, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária…". A correção gramatical também se mantém, pois "mas" é uma conjunção coordenativa que liga orações independentes, exatamente como o "E" original.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Pois" pode ser explicativo (quando inicia a oração que justifica) ou conclusivo (quando vem após o verbo). No trecho, não há relação de explicação (a segunda oração não explica a primeira) nem de conclusão (a segunda não é consequência da primeira). Substituir por "Pois" daria: "Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. Pois já não há divã…" — soaria como justificativa, o que não faz sentido. Erro: troca de relação lógica (explicação/conclusão em vez de oposição).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Porque" é uma conjunção causal ou explicativa, indicando motivo ou justificativa. No trecho, a segunda oração não é causa nem explicação da primeira. Substituir por "Porque" daria: "Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. Porque já não há divã…" — a leitura seria de que a inexistência de divã é a causa de o problema ser da terapia, o que é ilógico. Erro: troca de relação lógica (causa em vez de oposição).

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar o "E" em um texto, desconfie do valor aditivo automático. Teste a substituição por "mas" — se a frase mantiver o sentido, o valor é adversativo. Esse é um padrão recorrente em provas de concursos.

Gabarito: letra C.

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