Saía para a balada todas as noites. Pai e mãe descabelados. Dormia até tarde. Apareceu com uma tatuagem no braço.
– O que é, meu filho? – gemeu a mãe.
– Tribal.
O pai quase teve um infarto. Piorou quando soube que a turminha do prédio estava se reunindo em um apartamento vazio para ouvir música. O porteiro dedurou. Foram expulsos. A tia comentou:
– Se ao menos ele tivesse uma boa namorada!
Apareceu uma candidata. Tinha piercing nas sobrancelhas e na língua. A mãe tentou se conformar com a escolha.
De noite, na solidão do quarto, o pai se contorcia.
– O que vai ser desse rapaz?
Prestou vestibular. Para surpresa de todos, passou. Dali a alguns meses, anunciou:
– Arrumei trabalho! É voluntário, em uma ONG para proteger meninos de rua.
– Pode ser voluntário porque tem quem o sustente! No meu tempo, eu só pensava em comprar um carro novo! – esbravejou o pai.
Era o caso de chamar um terapeuta. Marcaram consulta. O psicólogo o recebeu em uma sala aconchegante.
– Por que veio aqui?
– Meu pai me mandou. Eu mesmo não tinha a menor vontade. Eles não me entendem.
– Quem sabe você possa me dizer por quê?
– Eu quero qualidade de vida, sabe? Não passar o tempo todo me matando para ter coisas. Quem sabe mais tarde vou morar numa praia... e trabalhar com alguma coisa de que eu goste.
O terapeuta observou as tatuagens, o brinco ousado, a camiseta torta, os cabelos espetados. Atrás da aparência selvagem, reconheceu seu passado. Em sua época, a juventude também fora assim. Com projetos de vida. Teve uma sensação de alegria, porque afinal... a juventude continuava sendo... a juventude.
– O que eu mais quero é dividir a vida com alguém. O mundo anda complicado. Eu queria ter uma relação fixa. Eu só dela, ela só minha! Quem sabe até ter um filho, mais tarde.
Despediu-se do terapeuta com um abraço.
– Qual o problema do meu filho?
– quis saber o pai.
– O problema é nosso, que esquecemos como fomos.
Quem disse que os jovens não têm mais sonhos?
(Walcyr Carrasco. Veja SP, 08.06.2005. Adaptado)
O sinal indicativo de crase está corretamente empregado na frase da alternativa:
AO rapaz costumava ir à baladas todas as noites, para desespero dos pais.
BO porteiro contou à eles que o jovem encontrava amigos em um apartamento vago.
CO filho aceitou a contragosto comparecer à uma sessão de terapia.
DO psicólogo notou que o estilo selvagem do jovem estava associado apenas à aparência.
EO rapaz iniciou atividades em uma ONG à qual dava apoio a meninos de rua.
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GabaritoD — O psicólogo notou que o estilo selvagem do jovem estava associado apenas à aparência.
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Crase: o acento grave que só ocorre com palavra feminina determinada
Gabarito: letra D. A única frase em que o acento grave é correto é a D, porque ali há a fusão da preposição a (exigida por "associado") com o artigo feminino a que determina "aparência". Nas demais, ou falta o artigo (A), ou há pronome pessoal que repele artigo (B), ou há artigo indefinido "uma" que não admite crase (C), ou o "a" é apenas preposição diante de palavra masculina (E). A regra que decide: crase = preposição a + artigo a(s) ou pronome demonstrativo a(s)/aquele(s) — e o termo seguinte precisa ser feminino e admitir o artigo definido.
O comando
A questão pede que você identifique a frase em que o sinal indicativo de crase está corretamente empregado. Isso é uma tarefa de gramática aplicada: não se trata de interpretar o texto, mas de aplicar a regra de crase a cada construção. O texto-base serve apenas como pano de fundo; a resposta está na estrutura sintática de cada alternativa.
A técnica que decide
A crase é a fusão de duas vogais idênticas: a preposição a (exigida por um verbo ou nome) + o artigo definido feminino a/as (ou o pronome demonstrativo a/as, aquele, aquela, aquilo). Para saber se há crase, faça o teste: troque a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se aparecer ao, há crase; se aparecer ao lado de ou para o, não há. Exemplo: "Vou à escola" → "Vou ao colégio" (apareceu "ao", logo crase). "Vou a escola" (sem artigo) → "Vou ao colégio"? Não, "Vou ao colégio" tem artigo, então a forma correta seria "Vou à escola". O teste do "ao" é infalível: se a troca por masculino exige "ao", a feminina exige "à".
Outro teste: substitua a palavra feminina por uma masculina. Se aparecer ao, há crase; se aparecer para o ou o, não há. Exemplo: "Refiro-me à aluna" → "Refiro-me ao aluno" (apareceu "ao", logo crase). "Entreguei o livro a aluna" (sem artigo) → "Entreguei o livro ao aluno"? Não, "ao aluno" tem artigo, então a forma correta seria "Entreguei o livro à aluna". O teste do "ao" é infalível: se a troca por masculino exige "ao", a feminina exige "à".
A pegadinha da banca
A banca mistura casos de crase proibida (B, C, E) com um caso de crase obrigatória (D) e um de ausência de artigo (A). A pegadinha clássica é a letra E, que parece correta por ter "à qual", mas o verbo "dar" é VTD e não exige preposição. Vamos analisar cada uma.
Crase (preposição a + artigo a): Requisitos (Termo feminino, Admite artigo definido, Verbo/nome exige preposição a); Casos proibidos (Antes de pronome pessoal (a eles), Antes de artigo indefinido (a uma), Sem artigo (a baladas), Sem preposição (a qual)); Teste do "ao" (Troca por masculino, Aparece "ao" → [+] crase, Não aparece → [-] sem crase)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"O rapaz costumava ir à baladas todas as noites, para desespero dos pais."
O erro está em "à baladas": o substantivo "baladas" está no plural e, embora seja feminino, o verbo "ir" exige a preposição a, mas o artigo as não foi usado — a forma correta seria "às baladas" (preposição a + artigo as). Como está, "à" é apenas preposição, sem artigo, o que é incorreto. A alternativa restringe o uso da crase: ela usa o acento grave sem o artigo, o que é proibido. O teste: "ir às baladas" → "ir aos bailes" (apareceu "aos", logo crase). Aqui, sem o artigo, não há crase.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"O porteiro contou à eles que o jovem encontrava amigos em um apartamento vago."
O erro está em "à eles": "eles" é pronome pessoal do caso reto e não admite artigo, portanto não pode haver crase. A forma correta é "a eles" (apenas preposição). A alternativa contradiz a regra de crase proibida diante de pronome pessoal. O teste: "contou a eles" → "contou a nós" (não aparece "ao", logo sem crase).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"O filho aceitou a contragosto comparecer à uma sessão de terapia."
O erro está em "à uma": "uma" é artigo indefinido e não admite crase, pois a crase exige artigo definido. A forma correta é "a uma" (apenas preposição). A alternativa generaliza indevidamente: ela aplica a crase diante de artigo indefinido, o que é proibido. O teste: "comparecer a uma sessão" → "comparecer a um evento" (não aparece "ao", logo sem crase).
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"O psicólogo notou que o estilo selvagem do jovem estava associado apenas à aparência."
Aqui, o verbo "associar" exige a preposição a (quem associa, associa a algo), e o substantivo "aparência" é feminino e admite o artigo a. Há, portanto, a fusão: a + a = à. O teste: "associado à aparência" → "associado ao visual" (apareceu "ao", logo crase). A alternativa está correta porque preenche todos os requisitos: preposição + artigo feminino definido.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"O rapaz iniciou atividades em uma ONG à qual dava apoio a meninos de rua."
O erro está em "à qual": o verbo "dar" é transitivo direto (quem dá, dá algo), e o pronome relativo "qual" retoma "ONG" como objeto direto, sem preposição. A forma correta é "a qual" (sem crase). A alternativa troca o termo: ela usa a crase como se houvesse preposição, mas não há. O teste: "a ONG a qual dava apoio" → "a ONG a qual dava apoio" (não aparece "ao", logo sem crase). Cuidado: "à qual" só teria crase se o verbo ou nome exigisse preposição a, como em "a ONG à qual me referi" (referir-se a).
Conclusão
A única frase em que o acento grave é correto é a D, pois há a fusão da preposição a (exigida por "associado") com o artigo feminino a que determina "aparência". As demais cometem erros clássicos: falta de artigo (A), pronome pessoal (B), artigo indefinido (C) e ausência de preposição (E).
PEGA ESSA DICA!
Antes de marcar, faça o teste do "ao": troque a palavra feminina por uma masculina. Se aparecer "ao", há crase; se aparecer "para o" ou "o", não há. Isso resolve 90% das questões de crase.