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Questão de Português — Preposição — VUNESP 2023

PortuguêsPreposição
Código
vu184086
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2023
Cargo
Sup Ens ( )

Os estranhos do bem

 

Pouco me lembro do apartamento onde passei minha infância, mas não esqueci nada da rua onde morava, das casas vizinhas, do quarteirão inteiro onde eu brincava desde o início da tarde até o início da noite e, por vezes, inclusive à noite. Naquela época não havia medo de assaltos, de atropelamentos, de sequestros-relâmpago: a gente pegava a bicicleta e saía com a maior liberdade, sem pânico nem neuras, oposto do que acontece hoje, quando as crianças só podem brincar dentro do prédio, em prisão domiciliar. Porém, mesmo com liberdade, havia um perigo rondando. Você deve lembrar o que nossos pais buzinavam em nossos ouvidos a cada vez que abríamos a porta de casa para sair: “Não dê conversa a estranhos.” Mais uma vez, é o oposto do que acontece hoje. Trancafiados em casa, com as bicicletas enferrujando na garagem, não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos.

 

Quando menina, eu me perguntava: o que será que eles (os adultos) querem dizer com “estranho”? Estranho, para mim, era um cara que usasse óculos escuros à noite, tivesse uma bruta cicatriz ao lado da orelha e uma faca ensanguentada entre os dentes. Mas estranho, para eles, ia além: era qualquer um que a gente não conhecesse. Podia ser o pároco do bairro: um estranho, corra!

 

Aí a gente cresce e inventam um troço chamado computador. E os pais somos nós! Conscientes das nossas responsabilidades, batemos à porta do quarto das crianças e damos sequência à tradição, alertando-os: “Não dê conversa a estranhos.” Quá, quá, quá.

 

Afora as orientações inevitáveis contra pedófilos e mal-intencionados em geral, é preciso relaxar: ninguém com mais de 10 anos evita estranhos, ao contrário, eles são buscados nas redes sociais, onde todos se expõem, transformando o mundo num gigantesco albergue coletivo.

 

Estranho é mau? Estranho é pior que a gente? Se devemos ter vigilância com nossos filhos – e devemos mesmo –, é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes, e provavelmente jamais verão. E só para lembrar: estranhos, somos todos.

 

(Martha Medeiros, Feliz por nada. Adaptado)

Leia o texto, para responder à questão.

 

Na passagem – ... é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes ... –, a preposição em destaque introduz trecho caracterizado pela ideia de

  1. Amodo.
  2. Bmeio.
  3. Ctempo.
  4. Dcausa.
  5. Econdição.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — causa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Valor semântico da preposição "por" no texto

Gabarito: letra D. A preposição "por" em destaque introduz a causa do ato de "não surtar": é porque os filhos trocam ideias com desconhecidos que os pais não devem surtar. A relação é de causa e consequência, como se lê no trecho: "é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes". A preposição "por" equivale a "por causa de" ou "devido a", estabelecendo o motivo que justifica a recomendação.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique a ideia introduzida pela preposição "por" no trecho citado. Isso é uma questão de semântica da preposição: não se trata de decorar regras de regência, mas de perceber qual circunstância (modo, meio, tempo, causa, condição) a preposição expressa naquele contexto específico. A banca quer que você leia o trecho e pergunte: "qual é a relação lógica entre a ação de não surtar e o fato de eles trocarem ideias?" A resposta é: o segundo fato é o motivo do primeiro.

O texto e o movimento argumentativo

No parágrafo final, a autora defende que os pais devem ter vigilância, mas também controlar a paranoia. A frase-chave é:

"é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes"

Aqui, "não surtar" é a atitude recomendada; "eles trocarem ideias com quem nunca viram antes" é o fato que poderia levar ao surto. A preposição "por" liga esses dois elementos, indicando que o segundo é a razão pela qual o primeiro é recomendado. Se substituirmos "por" por "por causa de" ou "devido a", o sentido permanece: "não surtar por causa de eles trocarem ideias". Isso confirma o valor causal.

A técnica: como identificar o valor semântico da preposição

Preposições são palavras vazias de sentido fora de contexto; é o contexto que lhes dá valor. Para identificar o valor, pergunte: qual circunstância a preposição expressa na relação entre os termos? No trecho, a relação é de causa: o fato de trocarem ideias é o motivo que poderia gerar o surto, e a recomendação é não surtar por causa disso. A preposição "por" é clássica para expressar causa, como em "morreu por amor" (= por causa do amor).

Dica: teste a substituição por locuções causais: se "por" puder ser trocado por "por causa de", "devido a", "em razão de", o valor é de causa. No trecho, "não surtar por causa de eles trocarem ideias" funciona perfeitamente.

Preposição "por"
  • 1Valor semântico no contexto
    • Causa (gabarito)
      • "por causa de"
      • "devido a"
      • "em razão de"
    • Modo (como?)
    • Meio (instrumento)
    • Tempo (quando?)
    • Condição (se... então)
  • 2Técnica de identificação
    • Substituir por locução causal
    • Perguntar "por quê?"
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Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Modo indica a maneira como algo é feito. No trecho, "por eles trocarem ideias" não responde à pergunta "de que maneira?", mas sim "por quê?". Não há ideia de modo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Meio indica o instrumento ou canal pelo qual algo ocorre. Aqui, "trocarem ideias" não é o meio pelo qual se surta, mas a causa que levaria ao surto. A confusão é comum porque "por" também pode indicar meio (ex.: "viajei por trem"), mas no contexto não é isso.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Tempo indica quando algo ocorre. O trecho não expressa relação temporal; "por eles trocarem ideias" não responde a "quando?".

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Causa é a razão, o motivo. A preposição "por" introduz a causa da recomendação de não surtar: é porque eles trocam ideias com desconhecidos. A substituição por "por causa de" confirma: "não surtar por causa de eles trocarem ideias".

Alternativa E — ❌ Incorreta

Condição indica uma hipótese necessária para que algo ocorra (ex.: "se... então"). No trecho, não há relação condicional; o fato de trocarem ideias não é condição para não surtar, mas a causa que poderia levar ao surto.

Conclusão

A preposição "por" no trecho tem valor causal, pois introduz o motivo da recomendação. A alternativa D é a única que expressa corretamente essa relação.

Gabarito: letra D

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