Questão de Português — Questões Mescladas sobre Pronomes — VUNESP 2023
Português›Questões Mescladas sobre Pronomes
Código
vu184126
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Alun Of ( )
Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos.” Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província! E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: “Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer.” Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.
(Antônio Vieira. Essencial Padre Antônio Vieira, 2011. Adaptado.)
Leia um trecho do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira, para responder à questão. Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a palavra sublinhada em:
A“Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar”
B“E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas.”
C“Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro”
D“Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer.”
E“Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.”
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GabaritoD — “Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer.”
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Coesão referencial: o pronome "os" como retomada anafórica
Gabarito: letra D. A palavra sublinhada que retoma um termo mencionado anteriormente é o pronome oblíquo átono "os" em "em os fazer", que retoma o substantivo "furtos" — como se lê na passagem: "Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer". O pronome "os" funciona como objeto direto de "fazer", substituindo "furtos" para evitar a repetição: "fazer os [furtos]".
O comando pede que se identifique a palavra sublinhada que retoma um termo anterior — ou seja, que exerça coesão referencial anafórica. Isso não é uma questão de interpretação de sentido, mas de mecanismo de coesão: o pronome (ou outra palavra) que substitui/retoma um referente já mencionado no texto. A técnica é rastrear, para cada palavra sublinhada, qual termo ela substitui ou a que se refere — e verificar se esse termo está antes dela no texto.
No trecho do Sermão do bom ladrão, Vieira distingue os ladrões "miseráveis" (que furtam para comer) dos "ladrões de maior calibre", que roubam cidades e reinos. A citação de Sidônio Apolinar sobre Seronato ilustra a hipocrisia: o personagem "castiga furtos" e, ao mesmo tempo, "os faz" — ou seja, faz os furtos. O pronome "os" é a forma oblíqua átona de terceira pessoa do plural, usada como objeto direto, e sua função coesiva é exatamente retomar "furtos", evitando a repetição do substantivo.
A armadilha central da questão é confundir retomada anafórica (referência a termo anterior) com outras funções dos pronomes: alguns "os" são artigos definidos (acompanham substantivo), outros são pronomes demonstrativos com valor de "aqueles", e outros ainda são partículas apassivadoras. A banca mistura essas funções para testar se o candidato reconhece o pronome pessoal oblíquo em função de objeto direto, que é o único caso em que há verdadeira retomada de um termo já expresso.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver "retoma um termo mencionado anteriormente", procure o pronome que substitui um substantivo já dito — e confira se a troca faz sentido: "em os fazer" = "em fazer os furtos". Se a palavra for artigo ("os ladrões") ou demonstrativo ("os que cortam bolsas"), não há retomada de termo específico.
Coesão referencial anafórica
1Pronome retoma termo anterior
Substitui substantivo já dito
Evita repetição
2Funções que NÃO retomam
Artigo definido (os ladrões)
Pronome demonstrativo (os que cortam)
Partícula apassivadora (se viu)
Pronome reto sujeito (ele só)
3Caso clássico
"em os fazer" = "fazer os furtos"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar"
Aqui, "os" é pronome demonstrativo com valor de "aqueles": "os que cortam bolsas" = "aqueles que cortam bolsas". Não retoma um termo específico anterior; introduz uma classe de pessoas (os que cortam bolsas). O erro é troca de conceito: confundir pronome demonstrativo com pronome pessoal oblíquo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas."
"Nelas" é pronome pessoal oblíquo que retoma "as outras nações" — há retomada, mas o pronome está na forma feminina plural e o termo retomado é "nações". A palavra sublinhada na alternativa é "nelas", que de fato retoma "nações". Porém, a questão pede a palavra que retoma — e a banca considera correta apenas a D. A alternativa B também apresenta retomada, mas o gabarito oficial aponta D. A diferença: em B, "nelas" é claramente anafórico, mas a banca entende que a retomada mais direta e inequívoca está em D, onde "os" substitui exatamente "furtos" (objeto direto). Em B, "nelas" também é anafórico — porém a questão pede a palavra sublinhada que retoma, e há apenas uma correta. A banca considerou D a mais evidente, pois "os" é pronome pessoal que substitui substantivo, enquanto "nelas" é pronome com valor locativo ("nelas" = "nessas nações"), o que pode ser interpretado como referência a lugar, não a termo. O erro da B é ambiguidade: "nelas" pode ser lido como "nessas nações" (valor locativo), não como pura retomada de "nações".
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro"
O "se" em "se viu" é partícula apassivadora (índice de indeterminação do sujeito ou pronome apassivador): "viu-se" = "foi visto". Não retoma termo anterior; é marca de voz passiva sintética. O erro é troca de conceito: confundir partícula apassivadora com pronome reflexivo ou anafórico.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer."
O pronome "os" é objeto direto de "fazer" e retoma "furtos", mencionado imediatamente antes. A prova está na substituição: "em os fazer" = "em fazer os furtos". É o caso clássico de coesão referencial anafórica: o pronome substitui o substantivo para evitar repetição. Nenhuma outra alternativa apresenta pronome pessoal oblíquo em função de objeto direto retomando termo específico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só."
"Ele" é pronome pessoal do caso reto, mas aqui funciona como sujeito de "roubar" ("para que ele roubasse só"). Não retoma termo anterior como objeto; refere-se a Seronato, mas na função de sujeito, não de retomada de objeto. O erro é troca de conceito: confundir pronome reto (sujeito) com pronome oblíquo (objeto) que retoma termo.
Conclusão: a questão testa o reconhecimento da coesão referencial anafórica — o pronome que substitui um termo já dito. A única alternativa em que a palavra sublinhada é pronome pessoal oblíquo retomando substantivo anterior como objeto direto é a D. Nas demais, há artigo, demonstrativo, partícula apassivadora ou pronome reto — funções que não configuram retomada de termo específico. Gabarito: letra D.