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Questão de Português — Sinônimos e Antônimos — VUNESP 2023

PortuguêsSinônimos e Antônimos
Código
vu184129
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Alun Of ( )

Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

 

A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2. Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

 

Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

 

Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.

 

(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)

 

1 gramofone: antigo toca-discos.

2 Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.

Para responder à questão, leia a crônica “Bandidos”, de Luis Fernando Verissimo.

   

Em “E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática.” (3º parágrafo), o termo sublinhado pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido do texto, por:

  1. Aperversa.
  2. Binstrutiva.
  3. Cempenhada.
  4. Drigorosa.
  5. Edesvairada.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — instrutiva.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sinonímia contextual: o sentido de "missão didática" no texto

Gabarito: letra B. O termo "didática" em "missão didática" pode ser substituído por "instrutiva" sem prejuízo de sentido, pois ambos expressam a ideia de ensinar, transmitir uma lição. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo: o bandido "Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais", e "Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras" — ou seja, a "missão" do vilão é instruir o herói, dar-lhe uma lição, e não apenas matá-lo.

O comando pede uma substituição vocabular sem prejuízo de sentido: a tarefa é encontrar, entre as opções, o sinônimo contextual de "didática". Isso não é uma questão de dicionário isolado, mas de semântica aplicada ao texto: é preciso ver como a palavra é usada no contexto e qual das alternativas preserva exatamente essa carga de sentido. A banca não quer um sinônimo perfeito (que não existe), mas a palavra que, naquele trecho, cumpre o mesmo papel semântico.

O texto constrói a tese de que o vilão "queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas". A morte, para ele, "precisava ser lenta, trabalhada, ornamentada, erguida acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizada que dava ao herói tempo de escapar". Essa "missão" de ensinar algo ao herói e à plateia é exatamente o que o adjetivo "didática" resume: algo que instrui, que transmite um ensinamento. A alternativa B é a única que captura esse núcleo semântico.

A armadilha central está em confundir o sentido contextual com o sentido dicionarizado ou com impressões vagas. "Perversa" (A) e "desvairada" (E) apelam para a maldade do vilão, mas o texto não diz que a missão é má ou louca — diz que é uma missão de ensino. "Empenhada" (C) e "rigorosa" (D) descrevem qualidades genéricas de execução, mas não capturam o conteúdo da missão: ensinar. A pergunta é "o que a missão é?" — e a resposta é "instrutiva".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de foco: as distratoras descrevem o jeito de agir do bandido (perverso, empenhado, rigoroso) ou o efeito emocional (desvairado), quando o texto define a missão pelo seu objetivo: ensinar. A palavra "didática" não qualifica o caráter do vilão, mas a natureza da missão.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Perversa" descreve a índole má do bandido, mas o texto não diz que a missão é perversa — diz que é uma missão de ensino. O vilão é "gênio do Mal", mas a "missão didática" é definida pelo que ela faz (ensinar), não pelo caráter de quem a executa. Troca o conteúdo da missão (instruir) por um atributo do agente (maldade).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Instrutiva" é o sinônimo contextual perfeito: "didática" e "instrutiva" compartilham o traço semântico de transmitir ensinamento. O texto confirma: o bandido "queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas" e "Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação". A missão é ensinar uma lição — exatamente o que "instrutiva" expressa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Empenhada" indica dedicação e esforço na execução, mas não diz o que a missão é. O texto não afirma que o bandido é empenhado em sua missão (embora seja), mas sim que a missão tem a natureza de ensinar. A palavra descreve o modo de agir, não o conteúdo da missão — foge ao núcleo semântico pedido.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Rigorosa" sugere severidade e disciplina, mas o texto não caracteriza a missão como rígida. A missão é descrita como "lenta, trabalhada, ornamentada" e, sobretudo, didática — o foco está em ensinar, não em ser severa. A alternativa introduz um traço semântico (rigor) que o texto não autoriza.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Desvairada" significa descontrolada, fora de si — um atributo emocional que o texto não atribui à missão. O bandido age com método e "compulsão", mas a missão em si é definida pelo objetivo de ensinar. A palavra apela para a loucura do vilão, não para a natureza instrutiva da missão.

Gabarito: letra B. A regra de ouro: em questões de sinonímia contextual, pergunte "o que a palavra faz no texto?" — não "o que ela significa no dicionário?". "Didática" descreve a função de ensinar; só "instrutiva" preserva essa função.

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