Ora, daquela vez, como da outra, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinhá Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão as sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de sinhá Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que ele era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como escravo e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. [...] Não podia dizer em voz alta que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventavam juro. Que juro! O que havia era safadeza.
(Graciliano Ramos, Vidas Secas, São Paulo, Martins. Adaptado)
Leia trecho da obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas, para responder à questão.
Leia as passagens do texto.
1. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
2. Não se conformou: devia haver engano.
Nas duas ocorrências, os dois-pontos foram empregados para introduzir
Auma enumeração dos acontecimentos.
Buma condição para o problema.
Cuma confirmação matemática.
Duma explicação para os fatos.
Euma condição para a solução.
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GabaritoD — uma explicação para os fatos.
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Uso dos dois-pontos: explicação e enumeração
Gabarito: letra D. Nas duas passagens, os dois-pontos introduzem uma explicação para o fato narrado: em "Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros", o trecho após os dois-pontos explica qual era a explicação; em "Não se conformou: devia haver engano", o trecho explica o motivo da não conformação. A função é, portanto, explicativa, não enumerativa, condicional ou de confirmação matemática.
O comando
A questão pede que se identifique a função discursiva dos dois-pontos nas duas ocorrências. Não se trata de decorar a regra geral ("dois-pontos introduzem enumeração, citação, fala"), mas de analisar o efeito de sentido no contexto específico. O verbo "introduzir" indica que devemos observar o que vem depois do sinal e qual relação estabelece com o que vem antes.
O texto
No trecho de Vidas Secas, Fabiano reclama da diferença entre as contas de Sinhá Vitória e as do patrão. O narrador registra:
"Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros."
Aqui, o que vem após os dois-pontos explicita o conteúdo da "explicação habitual". Em seguida:
"Não se conformou: devia haver engano."
O trecho após os dois-pontos justifica a não conformação: ele não se conformava porque devia haver engano. Em ambos os casos, a segunda parte esclarece a primeira, funcionando como uma explicação.
A técnica
Os dois-pontos têm múltiplas funções: introduzir enumeração, citação, fala de personagem ou explicação. Para distinguir, pergunte: o que vem depois do sinal faz o quê em relação ao que vem antes? Se lista itens, é enumeração; se reproduz fala, é discurso; se esclarece, justifica ou detalha o que foi dito, é explicação. Nas duas passagens, o trecho posterior explica o anterior — não lista, não cita, não condiciona.
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta na confusão entre enumeração e explicação. Enumeração seria "comprei três coisas: pão, leite e ovos" — lista de itens. Explicação é o que ocorre aqui: o segundo segmento diz o que é ou por que o primeiro acontece. A alternativa C ("confirmação matemática") tenta seduzir pelo tema "juros", mas o texto não faz conta alguma — apenas menciona a diferença.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar dois-pontos, substitua mentalmente por "isto é" ou "porque". Se a troca fizer sentido, a função é explicativa. Enumeração não aceita essa substituição.
Dois-pontos
1Funções
Enumeração (lista de itens)
Citação/fala
Explicação (esclarece o anterior)
2Como distinguir
Substituir por "isto é" ou "porque"
Se fizer sentido → explicação
Enumeração não aceita a troca
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Enumeração exigiria uma lista de itens coordenados, como "comprei três coisas: pão, leite e ovos". Nas passagens, não há lista — há um único esclarecimento. O trecho "a diferença era proveniente de juros" não é um item de uma série, mas a explicação da diferença. A alternativa tangencia o tema (dois-pontos podem enumerar, mas aqui não o fazem).
Alternativa B — ❌ Incorreta
Condição seria expressa por "se", "caso", "desde que" — estruturas que estabelecem uma hipótese. Nas passagens, não há condição alguma: o segundo segmento não é uma condição para o primeiro, mas uma explicação dele. A alternativa extrapola ao atribuir uma relação lógica que o texto não estabelece.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Confirmação matemática é uma tentativa de atrair pelo tema "juros". O texto menciona "somas e diminuições" e "diferença", mas os dois-pontos não confirmam cálculo algum — apenas explicam a origem da diferença. A alternativa extrapola ao inserir uma ideia de verificação numérica que não está no trecho.
Alternativa D — ✅ Correta
Nas duas ocorrências, o trecho após os dois-pontos explica o que foi dito antes. Em "Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros", o segundo segmento diz qual era a explicação. Em "Não se conformou: devia haver engano", o segundo segmento justifica a não conformação. A função é, portanto, explicativa — a alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Condição para a solução também não se sustenta: não há solução sendo condicionada. O texto narra a reclamação e a não conformação, mas os dois-pontos não introduzem uma condição para resolver nada — apenas explicam o que foi dito. A alternativa extrapola ao inventar uma relação de condicionalidade inexistente.
Conclusão: a resposta é a letra D, pois os dois-pontos, nas duas passagens, introduzem uma explicação — e não enumeração, condição ou confirmação. Lembre-se: a função do sinal só se define no contexto; pergunte sempre "o que o trecho posterior faz?" e você acertará.