“É muito raro isso aqui”, diz a cantora Marina Melo em frente a um público de cerca de cem pessoas em São Paulo. “Um monte de gente sentada no chão, sem saber exatamente o que vai escutar, disposta a ficar em silêncio e a ouvir”.
O espaço do palco é delimitado apenas por um tapete e um pedestal de microfone com luzinhas enroladas. A localização é um estúdio na zona oeste da capital, mas poderia ser qualquer outro canto — isso ajuda a resumir o Tranquilo, projeto musical mineiro que desembarcou em São Paulo e acontece nas noites de segunda-feira, mas nunca no mesmo lugar.
Funciona assim: aos domingos, o perfil no Instagram do Tranquilo publica uma enquete. Quem responde recebe por mensagem a localização e os detalhes dos shows marcados para o dia seguinte. A escalação de artistas – sempre representantes da música independente e autoral – só é liberada na segunda-feira e o lineup1 não se repete.
O projeto começou no quintal da casa do músico Thales Silva, que se sentia sem horizontes após lançar um álbum e não conseguir fazer o trabalho circular. “O artista independente não consegue furar algumas bolhas porque existem panelas que não se abrem. É como se você tivesse que expandir seu público sem ter oportunidades”, ele afirma. “Então eu criei o evento pensando nesses artistas que têm qualidade, mas que, se não acharem um palco, vão ficar eternamente parados.”
Durante as apresentações, em formato de pocket show2 e que elegem a diversidade como prioridade, o público recebe a letra de algumas composições. A localização escondida também gera curiosidade. Neste ano, o público chegou a 1 200 pessoas em Belo Horizonte.
Além de estimular a cena musical independente, o projeto se tornou uma espécie de celeiro de novos artistas com o momento “Olho no Olho”, que encerra as noites de shows com pessoas da plateia mostrando canções próprias.
(Laura Lewer. https://guia.folha.uol.com.br/shows/2023/03/conheca-o-tranquilo-projeto-musical-que-faz-shows-quase-secretos-em-sp.shtml. Publicado em 17.03.2023. Adaptado.)
1lineup: lista, sequência.
2pocket show: apresentação de curta duração.
Leia o texto para responder à questão.
O sinal indicativo de crase está corretamente empregado na frase da alternativa:
AAqueles que dão retorno às mensagens do grupo ficam à par da localização e dos detalhes do show.
BO projeto quer dar suporte à artistas que foram deixados à própria sorte, pois não receberam apoio de gravadoras.
CNo que compete às apresentações do projeto, às quais se atribui marca independente e autoral, elas são muito diversificadas.
DDevido à essa face inovadora do projeto Tranquilo, o público de Belo Horizonte chegou à 1 200 pessoas.
ECom vista à prestigiar a plateia, há o momento “Olho no Olho”, aberto à quem queira se arriscar no palco.
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GabaritoC — No que compete às apresentações do projeto, às quais se atribui marca independente e autoral, elas são muito diversificadas.
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Crase: a fusão da preposição "a" com o artigo/pronome "a"
Gabarito: letra C. A única frase em que o sinal indicativo de crase está corretamente empregado é a da alternativa C, pois há a fusão da preposição "a" (exigida pelo verbo "atribuir": quem atribui, atribui algo a alguém) com o artigo feminino "as" que antecede o pronome relativo "quais" ("às quais"). Nas demais, ou falta a preposição, ou há crase diante de palavra masculina, de verbo, de pronome pessoal ou de numeral — casos em que a crase é proibida.
A questão pede que se identifique a frase em que o acento grave foi usado corretamente. Isso não é uma questão de interpretação de texto, mas de aplicação da regra de crase em frases construídas a partir do tema do texto. O comando é direto: "O sinal indicativo de crase está corretamente empregado na frase da alternativa". Portanto, não se trata de inferir nada do texto, mas de analisar cada frase sob a ótica da norma-padrão.
A crase é a fusão de duas vogais idênticas: a preposição "a" + o artigo feminino "a(s)" ou + o "a" inicial de pronomes demonstrativos (aquele, aquela, aquilo) e relativos (a qual, as quais). Para saber se há crase, é preciso verificar se o termo regente exige a preposição "a" e se o termo regido (feminino) admite o artigo "a". Se um dos dois faltar, não há crase.
A alternativa C é a correta porque o verbo "atribuir" é transitivo direto e indireto: quem atribui, atribui algo a alguém. No trecho, "às quais" retoma "apresentações" (termo feminino plural), e a preposição "a" (exigida pelo verbo) funde-se com o artigo "as" (que acompanha o pronome relativo "quais"). Veja a estrutura: "atribui-se marca independente e autoral a + as apresentações" = "às quais". A crase é obrigatória.
As demais alternativas apresentam erros clássicos de crase proibida:
A) "ficam à par" — "par" é palavra masculina (o par), logo não há artigo feminino "a" para fundir com a preposição. O correto é "a par" (sem crase).
B) "dar suporte à artistas" — "artistas" é palavra feminina, mas está no plural sem artigo definido (não se diz "as artistas" de forma genérica). Sem artigo, não há crase. O correto é "a artistas".
D) "Devido à essa" — antes de pronome demonstrativo "essa", não se usa artigo. A preposição "a" (exigida por "devido") não se funde com nada, então o correto é "devido a essa". Além disso, "chegou à 1 200 pessoas" — antes de numeral, não há artigo, logo não há crase; o correto é "chegou a 1 200 pessoas".
E) "Com vista à prestigiar" — antes de verbo, a crase é proibida. O correto é "com vista a prestigiar". E "aberto à quem" — "quem" é pronome relativo que nunca aceita crase; o correto é "aberto a quem".
Crase (fusão a + a)
1Casos obrigatórios
Antes de palavra feminina com artigo
Antes de "aquele(a)", "aquilo"
Antes de "a qual", "as quais"
2Casos proibidos
Antes de palavra masculina
Antes de verbo
Antes de pronome pessoal
Antes de pronome demonstrativo ("essa")
Antes de numeral
Antes de "quem"
3Teste da troca
Trocar por palavra masculina
Aparece "ao" → há crase
Não aparece → sem crase
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Aqueles que dão retorno às mensagens do grupo ficam à par da localização e dos detalhes do show."
O erro está em "à par". A palavra "par" é um substantivo masculino (o par), portanto não admite o artigo feminino "a". Sem artigo, não há fusão com a preposição "a" (que aqui faz parte da locução "a par de"). O correto é "a par", sem acento grave. A banca tenta confundir com locuções femininas como "à toa", mas "par" não é feminino.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"O projeto quer dar suporte à artistas que foram deixados à própria sorte, pois não receberam apoio de gravadoras."
Dois problemas: (1) "à artistas" — a palavra "artistas" está no plural sem artigo definido (não se diz "as artistas" de forma genérica). Sem artigo, não há crase. O correto é "a artistas". (2) "à própria sorte" — aqui a crase é correta, pois "sorte" é feminino e admite artigo ("a própria sorte"), e a locução "à própria sorte" é uma locução adverbial feminina. Mas como a frase contém um erro, a alternativa inteira é incorreta.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"No que compete às apresentações do projeto, às quais se atribui marca independente e autoral, elas são muito diversificadas."
A crase em "às apresentações" é correta: o verbo "competir" exige preposição "a" (quem compete, compete a algo) e "apresentações" é feminino plural com artigo "as". A crase em "às quais" também é correta: o verbo "atribuir" exige preposição "a" (quem atribui, atribui algo a alguém) e o pronome relativo "quais" é antecedido pelo artigo "as". A fusão "a + as" = "às" é obrigatória.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Devido à essa face inovadora do projeto Tranquilo, o público de Belo Horizonte chegou à 1 200 pessoas."
Dois erros: (1) "à essa" — antes do pronome demonstrativo "essa", não se usa artigo. A preposição "a" (exigida por "devido") fica sozinha: "devido a essa". (2) "chegou à 1 200 pessoas" — antes de numeral, não há artigo feminino "a" para fundir com a preposição. O correto é "chegou a 1 200 pessoas".
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Com vista à prestigiar a plateia, há o momento 'Olho no Olho', aberto à quem queira se arriscar no palco."
Dois erros: (1) "à prestigiar" — antes de verbo no infinitivo, a crase é proibida. O correto é "com vista a prestigiar". (2) "aberto à quem" — o pronome relativo "quem" nunca aceita crase. O correto é "aberto a quem".
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura casos de crase obrigatória com casos de crase proibida. A alternativa C é a única que apresenta a fusão correta da preposição com o artigo/pronome. As demais erram ao colocar crase antes de palavra masculina (A), de palavra sem artigo (B), de pronome demonstrativo e numeral (D) e de verbo e pronome relativo (E).
PEGA ESSA DICA!
Para testar a crase, substitua a palavra feminina por uma masculina. Se aparecer "ao", há crase; se aparecer "ao" sem sentido, não há. Ex.: "às apresentações" → "aos shows" (aparece "ao", logo há crase). "à par" → "ao par" (não faz sentido, logo não há crase).
Gabarito: letra C. A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a(s)" ou com o "a" de pronomes. Para acertar, verifique sempre se o termo regente exige a preposição e se o termo regido admite o artigo. Se um dos dois faltar, não há crase.