Em 1901, o médico alemão Alois Alzheimer começou tratar, no asilo da cidade de Frankfurt, uma senhora de 51 anos chamada Auguste, que apresentava estranhos distúrbios do comportamento e perda da memória. O dr. Alzheimer, tendo se interessado pelo caso, acompanhou paciente por cinco anos. Quando ela faleceu o médico procedeu autópsia e encontrou nas células cerebrais da paciente lesões que nunca tinham sido descritas antes, inclusive as agora famosas placas amiloides. A partir daí, o nome de Alzheimer se associou uma doença que preocupa muito e que hoje se configura como verdadeiro problema de saúde pública.
Pergunta: por que ninguém tinha descrito essa doença antes? Em parte, porque Alzheimer utilizou técnicas relativamente novas. Mas também é possível que a enfermidade não fosse tão frequente. As pessoas raramente chegavam idades avançadas. E também o modo de vida era outro. É sobre esse modo de vida que vale a pena falar. O que evita o Alzheimer? Por causa da frequência com que a doença ocorre, e por causa das penosas limitações que representa, numerosas pesquisas têm sido feitas nesse sentido. Medicamentos e também vacinas estão em estudo. Mas, e isso é importante, a maneira como se vive influencia no surgimento e na marcha do Alzheimer. Comprovam-no as medidas que protegem contra a doença: um estilo de vida saudável protege nosso cérebro e nosso organismo em geral. As placas amiloides nada mais são do que a marca registrada de uma forma de viver inadequada. Devemos ser gratos ao dr. Alzheimer e à sua paciente de Frankfurt por terem aberto o caminho para que cheguemos a uma verdade, ao fim e ao cabo, absolutamente lógica.
(Moacyr Scliar. Alzheimer e estilo de vida. Companhia das Letras, 2013. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
Assinale a alternativa em que a lacuna do texto está corretamente completada por à e em que o acréscimo de uma vírgula ao trecho preserva a correção gramatical.
A… o médico alemão Alois Alzheimer, começou à tratar… (1o parágrafo)
B… acompanhou à paciente, por cinco anos. (1o parágrafo)
CQuando ela faleceu, o médico procedeu à autópsia… (1o parágrafo)
D… o nome de Alzheimer se associou à uma doença, que preocupa muito… (1o parágrafo)
EAs pessoas, raramente chegavam à idades avançadas. (2o parágrafo)
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GabaritoC — Quando ela faleceu, o médico procedeu à autópsia… (1o parágrafo)
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Crase e vírgula: a lacuna que exige preposição + artigo feminino
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que a lacuna pede crase obrigatória (verbo proceder exige preposição "a" + artigo "a" antes de "autópsia") e em que a vírgula inserida é gramaticalmente correta (isola oração subordinada adverbial temporal anteposta). A passagem que ancora a leitura é:
"Quando ela faleceu o médico procedeu à autópsia"
A vírgula após "faleceu" separa a oração subordinada temporal "Quando ela faleceu" da oração principal "o médico procedeu à autópsia", o que é obrigatório quando a subordinada vem anteposta. As demais alternativas ou erram na crase (A, B, D, E) ou na vírgula (B, D, E).
O comando: duas exigências simultâneas
A questão pede que a alternativa atenda a dois requisitos ao mesmo tempo: (1) a lacuna deve ser corretamente preenchida por "à" (crase); (2) o acréscimo de uma vírgula ao trecho deve preservar a correção gramatical. Isso significa que a alternativa correta precisa ser aprovada nos dois testes: o da crase e o da pontuação. Muitas alternativas acertam um, mas erram o outro — a banca testa se o candidato domina ambos os tópicos de forma integrada.
O texto: onde cada lacuna aparece
O texto de Moacyr Scliar narra a descoberta da doença de Alzheimer e discute a influência do estilo de vida. As lacunas estão distribuídas nos dois parágrafos, cada uma exigindo análise específica de regência e de uso do artigo. A resposta mora na análise sintática de cada verbo e na função de cada termo.
A técnica que decide: crase = preposição "a" + artigo "a"
A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a" (ou com o "a" de pronomes demonstrativos/relativos). Para saber se há crase, é preciso verificar duas condições simultâneas: o termo anterior exige a preposição "a" e o termo seguinte admite o artigo "a". Se uma das condições faltar, não há crase.
No caso da alternativa C, o verbo proceder rege a preposição "a" (quem procede, procede a algo). O substantivo "autópsia" é feminino e admite o artigo "a". Logo: proceder a + a autópsia = proceder à autópsia. Crase obrigatória.
A vírgula, por sua vez, é obrigatória para separar a oração subordinada adverbial temporal anteposta. Na estrutura "Quando ela faleceu, o médico procedeu à autópsia", a vírgula marca o deslocamento da oração subordinada, que veio antes da principal. Sem a vírgula, o período fica incorreto; com ela, fica perfeito.
O gancho: teste duplo em cada alternativa
Para cada alternativa, pergunte: (1) o verbo/nome exige preposição "a"? (2) o termo seguinte admite artigo "a"? (3) a vírgula inserida separa termos que devem ser separados ou quebra uma estrutura que não pode ser quebrada? A alternativa que passar nos três testes é a correta.
Critério
A
B
C (✅)
D
E
Crase correta
❌ antes de verbo
❌ verbo sem preposição
✅ proceder a + a autópsia
❌ antes de "uma"
❌ antes de plural
Vírgula correta
❌ separa sujeito/verbo
❌ adjunto curto final
✅ isola subordinada temporal anteposta
❌ isola restritiva
❌ separa sujeito/verbo
Alternativa A — ❌ Incorreta
"o médico alemão Alois Alzheimer, começou à tratar"
Erro de crase: antes de verbo, a crase é proibida. O "a" antes de "tratar" é apenas preposição exigida pelo verbo "começar" (começar a fazer algo), e não há artigo. A forma correta seria "começou a tratar". Além disso, a vírgula após "Alzheimer" separa o sujeito do verbo, o que é proibido — sujeito e predicado não podem ser separados por vírgula. Duplo erro.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"acompanhou à paciente, por cinco anos"
Erro de crase: o verbo "acompanhar" é transitivo direto (quem acompanha, acompanha alguém), não exige preposição. Portanto, não há crase: o correto é "acompanhou a paciente". A vírgula antes de "por cinco anos" separa o adjunto adverbial de tempo do verbo, o que é incorreto quando o adjunto está em posição final e é curto — não há razão para a pausa. Duplo erro.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Quando ela faleceu, o médico procedeu à autópsia"
Crase correta: "proceder" exige preposição "a" + artigo "a" antes de "autópsia" = "à". Vírgula correta: separa a oração subordinada adverbial temporal anteposta "Quando ela faleceu" da oração principal. É o único caso em que ambos os requisitos são atendidos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"o nome de Alzheimer se associou à uma doença, que preocupa muito"
Erro de crase: antes de artigo indefinido "uma", a crase é proibida. O verbo "associar-se" exige preposição "a", mas "uma" não admite artigo definido "a" — a forma correta é "se associou a uma doença". A vírgula antes de "que preocupa muito" separa uma oração subordinada adjetiva restritiva (que restringe o sentido de "doença"), o que é proibido — orações restritivas não podem ser isoladas por vírgula. Duplo erro.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"As pessoas, raramente chegavam à idades avançadas"
Erro de crase: "idades" está no plural, e o artigo correto seria "as". A forma "à" (singular) não pode preceder palavra plural — o correto seria "às idades". Além disso, a vírgula após "As pessoas" separa o sujeito do verbo, o que é proibido. Duplo erro.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura dois tópicos (crase e vírgula) e coloca em cada alternativa um erro em pelo menos um deles. A alternativa C é a única que acerta ambos. Desconfie de vírgulas que separam sujeito de verbo ou orações restritivas, e de crase antes de verbo, masculino, "uma" ou plural sem artigo.
PEGA ESSA DICA!
Para testar a crase, substitua o termo feminino por um masculino. Se aparecer "ao", há crase; se aparecer "ao" + artigo, confirme. Ex.: "procedeu ao exame" → "procedeu à autópsia". Para a vírgula, verifique se a pausa separa orações ou termos que a gramática exige separar.