A ditadura da sociedade de consumo exerce um totalitarismo simétrico ao de sua irmã gêmea, a ditadura da organização desigual do mundo.
A maquinaria da igualação compulsiva atua contra a mais
bela energia do gênero humano, que se reconhece em suas
diferenças e através delas se vincula. O melhor que o mundo
tem está nos muitos mundos que o mundo contém, as diferentes músicas da vida, suas dores e cores: as mil e uma
maneiras de viver e de falar, crer e criar, comer, trabalhar,
dançar, brincar, amar, sofrer e festejar que temos descoberto
ao longo de milhares e milhares de anos.
A igualação, que nos uniformiza e nos apalerma, não
pode ser medida. Não há computador capaz de registrar os
crimes cotidianos que a indústria da cultura de massas comete contra o arco-íris humano e o humano direito à identidade.
Mas seus demolidores progressos saltam aos olhos. O tempo
vai se esvaziando de história e o espaço já não reconhece a
assombrosa diversidade de suas partes. Através dos meios
massivos de comunicação, os donos do mundo nos comunicam a obrigação que temos todos de nos contemplar num
único espelho, que reflete os valores da cultura de consumo.
Quem não tem não é: quem não tem carro, não usa sapato de marca ou perfume importado está fingindo existir.
(Eduardo Galeano, De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso)
Leia o texto, para responder à questão. Assinale a alternativa em que o trecho destacado pode ser substituído pelo que está entre colchetes, segundo a norma-padrão de emprego do sinal indicativo de crase.
ANão há computador capaz de registrar os crimes cotidianos… [hábil à registrar os crimes cotidianos]
B… comete contra o arco-íris humano e o humano direito à identidade. [direito à alguma identidade]
CA ditadura da sociedade de consumo exerce um totalitarismo simétrico ao de sua irmã gêmea… [proporcional àquele de sua irmã gêmea]
D… num único espelho, que reflete os valores da cultura… [dá visibilidade à certos valores da cultura]
EA maquinaria da igualação compulsiva atua contra a mais bela energia do gênero humano… [contrariamente à toda bela energia]
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GabaritoC — A ditadura da sociedade de consumo exerce um totalitarismo simétrico ao de sua irmã gêmea… [proporcional àquele de sua irmã gêmea]
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Crase: quando a preposição encontra o artigo
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que a substituição respeita a norma-padrão de crase, pois "proporcional" exige a preposição a (quem é proporcional, é proporcional a algo) e "aquele" é um pronome demonstrativo masculino que aceita a contração com a preposição, formando "àquele" — sem crase, pois não há artigo feminino. A crase é a fusão da preposição a com o artigo feminino a ou com o a inicial de pronomes demonstrativos como aquele, aquela, aquilo; como "aquele" é masculino, a forma correta é "àquele" (preposição + pronome), e não "àquele" com acento grave, que seria um erro. A banca testa exatamente essa distinção: crase antes de palavra masculina é proibida, mas a contração da preposição com pronome demonstrativo masculino é permitida e não leva acento grave.
O comando da questão
O enunciado pede que você identifique em qual alternativa o trecho destacado pode ser substituído pelo que está entre colchetes, segundo a norma-padrão de emprego do sinal indicativo de crase. Isso significa que você deve verificar se a reescritura mantém o sentido e, principalmente, se o uso do acento grave está correto. A questão não é de interpretação de texto, mas de gramática normativa aplicada a trechos do texto — o foco está na regência e na crase, não no conteúdo do texto de Galeano.
A regra que decide a questão
A crase é a fusão da preposição a com o artigo feminino a ou com o a inicial de pronomes demonstrativos (aquele, aquela, aquilo) e do relativo a qual. Para saber se há crase, você precisa verificar duas coisas: (1) se o termo anterior exige a preposição a; (2) se o termo seguinte admite o artigo feminino a ou é um pronome demonstrativo que começa com a. Se ambos ocorrerem, há crase; se faltar um deles, não há.
No caso da alternativa C, temos:
"proporcional" exige a preposição a: quem é proporcional, é proporcional a algo.
"aquele" é um pronome demonstrativo masculino, que não admite artigo feminino, mas aceita a contração com a preposição a, formando "àquele".
Portanto, a forma correta é "àquele" (preposição + pronome), sem acento grave. A banca explora a confusão entre crase e contração: muitos candidatos pensam que, por ser palavra masculina, não pode haver acento grave, mas a regra é diferente — a crase é proibida antes de palavra masculina, mas a contração da preposição com pronome demonstrativo masculino é permitida e não leva acento grave.
Análise das alternativas
Crase (fusão a + a): Exige preposição a (Termo anterior pede "a"); Exige artigo feminino a (Ou pronome iniciado em "a"); Proibida antes de (Verbo, Pronome indefinido (alguma, certa, toda), Palavra masculina, Sentido genérico); Permitida com pronome demonstrativo (àquele (preposição + pronome), àquela, àquilo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: crase antes de verbo.
O trecho original é "capaz de registrar os crimes cotidianos". A substituição proposta é "hábil à registrar os crimes cotidianos". Aqui, "registrar" é um verbo, e a crase é proibida antes de verbos. A forma correta seria "hábil a registrar" (sem acento), pois não há artigo feminino antes de verbo. A banca testa a regra de que não se usa crase antes de verbo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: crase antes de pronome indefinido.
O trecho original é "o humano direito à identidade". A substituição proposta é "direito à alguma identidade". Aqui, "alguma" é um pronome indefinido, e a crase é proibida antes de pronomes indefinidos (como "alguma", "nenhuma", "certa"). A forma correta seria "direito a alguma identidade" (sem acento). A banca testa a regra de que não se usa crase antes de pronomes indefinidos.
O trecho original é "um totalitarismo simétrico ao de sua irmã gêmea". A substituição proposta é "proporcional àquele de sua irmã gêmea". Aqui, "proporcional" exige a preposição a, e "aquele" é um pronome demonstrativo masculino que aceita a contração, formando "àquele". A forma está correta, pois a contração da preposição com pronome demonstrativo é permitida e não leva acento grave. A banca testa a distinção entre crase e contração.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: crase antes de pronome indefinido.
O trecho original é "que reflete os valores da cultura". A substituição proposta é "dá visibilidade à certos valores da cultura". Aqui, "certos" é um pronome indefinido (ou adjetivo indefinido), e a crase é proibida antes de pronomes indefinidos. A forma correta seria "dá visibilidade a certos valores" (sem acento). A banca testa a regra de que não se usa crase antes de pronomes indefinidos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: crase antes de palavra em sentido genérico.
O trecho original é "atua contra a mais bela energia do gênero humano". A substituição proposta é "contrariamente à toda bela energia". Aqui, "toda" é um pronome indefinido que indica sentido genérico, e a crase é proibida antes de palavras em sentido genérico (como "toda", "qualquer", "cada"). A forma correta seria "contrariamente a toda bela energia" (sem acento). A banca testa a regra de que não se usa crase antes de palavras em sentido genérico.
Conclusão
A alternativa C é a única que respeita a norma-padrão de crase, pois a contração da preposição a com o pronome demonstrativo aquele é permitida e não leva acento grave. As demais alternativas erram ao usar crase antes de verbo, pronome indefinido ou palavra em sentido genérico. Gabarito: letra C.