Tem seus 23 anos, e eu a conheço desde os oito ou nove,
sempre assim, meio gordinha, engraçada, de cabelos ruivos.
Foi criada, a bem dizer, na areia do Arpoador; nasceu e viveu
em uma daquelas ruas que vão de Copacabana a Ipanema,
de praia a praia. A família mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício.
Certa vez me contou:
– Em meu quarteirão não há uma só casa de meu tempo
de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e voltasse agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo
acabou: as casas, os jardins, as árvores. É como se eu não
tivesse tido infância...
Falta-lhe uma base física para a saudade. Tudo o que
parecia eterno sumiu.
Outra senhora disse então que se lembrava muito de
que, quando era menina, apanhava pitangas em Copacabana; depois, já moça, colhia pitangas na Barra da Tijuca; e hoje
não há mais pitangas. Disse isso com uma certa animação, e
depois ficou um instante com o ar meio triste – a melancolia
de não ter mais pitangas, ou, quem sabe, a saudade daquela
manhã em que foi com o namorado colher pitangas.
Também em minha infância, há pitangueiras de praia.
Não baixinhas, em moitas, como aquelas de Cabo Frio, que o
vento não deixa crescer; mas altas; e suas copas se tocavam
e faziam uma sombra varada por pequenos pontos de sol.
• A família mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício. (1o parágrafo)
• Disse isso com uma certa animação...
• ... a melancolia de não ter mais pitangas...
No contexto em que estão empregadas, as preposições destacadas exprimem, correta e respectivamente, sentidos de
Ainstrumento; modo; modo.
Bcomparação; meio; consequência.
Cinstrumento; intensidade; modo.
Dfinalidade; modo; causa.
Efinalidade; assunto; causa.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — finalidade; modo; causa.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Preposições: finalidade, modo e causa no contexto
Gabarito: letra D. As preposições destacadas exprimem, respectivamente, finalidade (para construção de edifício), modo (com uma certa animação) e causa (de não ter mais pitangas). A pista decisiva é o contexto: a preposição, sozinha, é vazia de sentido — é o termo que ela introduz que revela a relação. Veja como cada trecho do texto autoriza a leitura.
O comando
A questão pede que você identifique o valor semântico das preposições no contexto em que estão empregadas. Isso significa que não basta decorar a lista de sentidos possíveis de "para", "com" e "de" — é preciso ler o trecho inteiro e perceber qual relação a preposição estabelece entre os termos. É uma questão de interpretação contextual, não de memorização isolada.
O texto
O cronista fala da perda das pitangueiras e da saudade que nasce da falta de uma "base física" para a memória. As três passagens citadas estão nesse clima de lembrança e melancolia. A primeira descreve a mudança da família; a segunda, a animação com que uma senhora contava sua história; a terceira, a tristeza pela ausência das pitangas. Cada preposição carrega um matiz diferente.
A técnica que decide
Para acertar, pergunte: que relação o termo preposicionado tem com o termo anterior?
"para construção de edifício": a casa foi comprada com o objetivo de construir um edifício. A preposição "para" indica finalidade — o fim, o propósito da compra.
"com uma certa animação": a senhora disse de que jeito? — com animação. A preposição "com" indica modo — a maneira como a ação foi realizada.
"a melancolia de não ter mais pitangas": a melancolia é provocada por não ter mais pitangas. A preposição "de" indica causa — o motivo, a origem do sentimento.
"A família mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício."
Aqui, "para" introduz o objetivo da compra: construir. Não é instrumento (não se compra a casa com um edifício), nem comparação, nem meio. É finalidade pura.
"Disse isso com uma certa animação..."
"Com" + substantivo abstrato (animação) indica modo — a circunstância de como ela disse. Compare: "com alegria", "com pressa" — sempre modo. Não é meio (não é através de animação), nem instrumento (não é usando animação).
"... a melancolia de não ter mais pitangas..."
"De" + oração substantiva indica causa: a melancolia porque não há mais pitangas. É o motivo do sentimento. Não é modo (não é de que jeito), nem assunto (não é sobre não ter pitangas).
Análise das alternativas
Preposições no contexto: "para construção de edifício" (Finalidade (a fim de)); "com uma certa animação" (Modo (de que jeito)); "de não ter mais pitangas" (Causa (por causa de))
Alternativa A — ❌ Incorreta
instrumento; modo; modo. Erra na primeira e na terceira: "para construção" não é instrumento (não se usa um edifício para comprar a casa), e "de não ter mais pitangas" não é modo (não responde a como é a melancolia). A banca tenta confundir com o valor de "de" como modo (ex.: "de repente"), mas aqui é causa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
comparação; meio; consequência. Erra em todas: "para" não compara nada; "com animação" não é meio (não é através de animação); "de não ter mais pitangas" não é consequência (a melancolia não é o resultado de não ter pitangas — é a causa do sentimento).
Alternativa C — ❌ Incorreta
instrumento; intensidade; modo. Erra na primeira (finalidade, não instrumento) e na terceira (causa, não modo). "Com uma certa animação" até poderia ser lido como modo, mas a alternativa inteira falha.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
finalidade; modo; causa. Exatamente o que o contexto autoriza, como provado acima. Cada preposição assume o valor que o termo seguinte exige.
Alternativa E — ❌ Incorreta
finalidade; assunto; causa. Acerta na primeira e na terceira, mas erra na segunda: "com uma certa animação" não é assunto (não é sobre animação). A banca troca modo por assunto para confundir.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia das preposições — a mesma palavra pode ter vários sentidos. A armadilha está em escolher um valor que existe na língua, mas não no contexto. Sempre teste: "faz sentido trocar por para que? de que jeito? por causa de?"
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar preposições, substitua mentalmente por uma locução de sentido claro: "para" → "a fim de"; "com" → "de modo"; "de" → "por causa de". Se a troca preservar o sentido, você achou o valor.
Conclusão: a questão ensina que preposição é palavra relacional: o sentido nasce do contexto. Decore os valores possíveis, mas valide sempre no trecho. A única alternativa inteiramente sustentada é a D.