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Questão de Português — Denotação e Conotação — VUNESP 2023

PortuguêsDenotação e Conotação
Código
vu184259
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Guararema
Ano
2023
Cargo
Ana ( )

Olhos D’água

 

Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nesses dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes, colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. As flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria de uma maneira triste e com um sorriso molhado... Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.

 

(Conceição Evaristo, Olhos d’água)

No trecho – As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago... –, prevalece o emprego de termos em sentido
  1. Apróprio, reforçando a ideia de desorganização familiar.
  2. Bfigurado, reforçando a ideia de vencer as dificuldades.
  3. Cpróprio, reforçando a ideia de brincadeiras na cozinha.
  4. Dfigurado, reforçando a ideia de vulnerabilidade alimentar.
  5. Epróprio, reforçando a ideia de superação da fome.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — figurado, reforçando a ideia de vulnerabilidade alimentar.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Denotação e Conotação: o sentido figurado no texto de Conceição Evaristo

Gabarito: letra D. No trecho, prevalece o emprego de termos em sentido figurado, reforçando a ideia de vulnerabilidade alimentar. A passagem "As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago" é construída com expressões conotativas: a água não é "solitária", a panela não está "cheia de fome", as labaredas não "debocham" e o estômago não tem "vazio" físico. Tudo isso é linguagem figurada que traduz a miséria e a fome da família.

O comando pede que se identifique o predomínio do sentido (próprio ou figurado) e o efeito de sentido que ele produz. Isso muda a resolução: não basta reconhecer uma palavra isolada; é preciso avaliar o conjunto do trecho e o que ele comunica. A banca não pergunta "qual palavra é conotativa", mas "qual sentido prevalece e o que ele reforça" — ou seja, exige leitura global e percepção do efeito expressivo.

No texto, a narradora descreve a pobreza extrema: "da panela subia cheiro algum", "água solitária que fervia na panela cheia de fome", "labaredas... pareciam debochar do vazio do nosso estômago". A fome é o tema central, e a linguagem figurada humaniza elementos da cozinha (água, panela, labaredas) para dramatizar a carência. A ideia de vulnerabilidade alimentar — a condição de quem não tem o que comer — é exatamente o que essas imagens conotativas reforçam.

A técnica que decide: denotação é o sentido literal, dicionarizado, independente do contexto; conotação é o sentido figurado, que depende do contexto e cria imagens simbólicas. No trecho, "água solitária", "panela cheia de fome" e "labaredas... debochar" são impossíveis no sentido literal — água não tem solidão, panela não sente fome, labareda não zomba. Logo, é conotação. E o efeito é reforçar a miséria, não a superação nem a organização familiar.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que misturam o tipo de sentido (próprio/figurado) com efeitos de sentido plausíveis, mas que o texto não sustenta. A letra E, por exemplo, usa "superação da fome" — ideia que o texto não afirma; o trecho mostra a fome sendo "distraída" por brincadeiras, não vencida. A letra B fala em "vencer as dificuldades", o que também extrapola.

Sentido das palavras
  • 1Denotação (próprio)
    • Literal, dicionarizado
    • Independe do contexto
  • 2Conotação (figurado)
    • Depende do contexto
    • Cria imagens simbólicas
    • Ex.: "água solitária", "panela cheia de fome"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que prevalece o sentido próprio, reforçando a ideia de desorganização familiar. Há dois erros: (1) o sentido não é próprio, pois "água solitária", "panela cheia de fome" e "labaredas... debochar" são figurados; (2) o texto não fala em desorganização familiar — a mãe brinca com as filhas, há uma hierarquia lúdica (Senhora/Rainha e princesas), o que sugere coesão, não desorganização. Erro: contradiz o texto e troca o sentido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa acerta ao dizer que o sentido é figurado, mas erra ao afirmar que reforça a ideia de vencer as dificuldades. O trecho não apresenta vitória ou superação; ele descreve a fome e o vazio. A brincadeira "distrai" a fome, mas não a vence. Erro: extrapola — acrescenta uma ideia de superação que o texto não contém.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que prevalece o sentido próprio, reforçando a ideia de brincadeiras na cozinha. O sentido não é próprio (é figurado), e o trecho citado não fala de brincadeiras na cozinha — as brincadeiras ocorrem em outro momento, com flores e reverências, não na panela. Erro: contradiz o texto e troca o referente.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa está correta: prevalece o sentido figurado, e ele reforça a ideia de vulnerabilidade alimentar. A passagem "As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago" usa metáforas e personificações (água solitária, panela cheia de fome, labaredas que debocham) para expressar a condição de quem passa fome. O texto diz: "Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento" — confirmando que a fome é o núcleo temático. A linguagem figurada dramatiza a carência, ou seja, a vulnerabilidade alimentar.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que prevalece o sentido próprio, reforçando a ideia de superação da fome. O sentido é figurado, e o texto não fala em superação — a fome é "distraída" pelas brincadeiras, mas não vencida. O trecho "E a nossa fome se distraía" mostra um alívio momentâneo, não uma superação. Erro: contradiz o texto e extrapola.

PEGA ESSA DICA!

Para questões de denotação/conotação, pergunte: "essa palavra pode ter esse significado no sentido literal?" Se não pode (água não é solitária, panela não tem fome), é conotação. Depois, verifique qual efeito o texto realmente comunica — não o que você acha que deveria comunicar.

Gabarito: letra D. A resposta é a única que une o tipo de sentido correto (figurado) ao efeito correto (vulnerabilidade alimentar), ambos ancorados no texto.

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