Questão de Português — Denotação e Conotação — VUNESP 2023
Português›Denotação e Conotação
Código
vu184270
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2023
Cargo
IAC ( )
Eu, mutilado capilar
Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa.
Vinte anos atrás o espelho já delatou os primeiros clarões debaixo da melena(*) frondosa. Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimentos de horror.
Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número.
A frase de um amigo piedoso me consola:
– Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora.
Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas ideias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por aí.
(Eduardo Galeano, O livro dos abraços. Adaptado)
(*) melena: cabeleira
O trecho – ... os primeiros clarões debaixo da melena frondosa – é caracterizado pelo emprego de palavras em sentido
Apróprio, fazendo referência ao ambiente campestre, com grandes árvores.
Bpróprio, fazendo referência à reação de repulsa do sujeito ao se ver no espelho.
Cpróprio, sendo referência aos sinais do amanhecer sob as árvores.
Dfigurado, fazendo referência ao surgimento dos sinais de calvície.
Efigurado, fazendo referência à alegria de poder ver a cabeleira farta.
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GabaritoD — figurado, fazendo referência ao surgimento dos sinais de calvície.
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Denotação e conotação: o sentido figurado de "clarões" e "melena frondosa"
Gabarito: letra D. O trecho "os primeiros clarões debaixo da melena frondosa" emprega palavras em sentido figurado, pois "clarões" não designa luzes reais, mas sim os primeiros fios brancos que anunciam a calvície, e "melena frondosa" não se refere a uma árvore, mas à cabeleira cheia do narrador. A passagem que ancora essa leitura é a do segundo parágrafo: "Vinte anos atrás o espelho já delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa", seguida da confissão de que "o luminoso reflexo de minha calva" provoca "estremecimentos de horror" — ou seja, o texto trata de cabelos caindo, não de paisagem campestre.
O comando da questão
O enunciado pergunta se o trecho é caracterizado pelo emprego de palavras em sentido próprio (denotativo, literal) ou figurado (conotativo). Isso muda tudo na resolução: não se trata de interpretar o texto, mas de classificar o uso da linguagem. Denotação é o sentido dicionarizado, independente do contexto; conotação é o sentido simbólico, que só se entende pelo contexto. Aqui, a banca quer que você perceba que "clarões" e "melena frondosa" não estão sendo usados no sentido literal de fenômenos da natureza, mas como metáforas para a calvície.
O texto e o movimento argumentativo
O texto de Eduardo Galeano é uma crônica bem-humorada sobre a perda de cabelo. O narrador se diz "mutilado capilar", humilhado pelos barbeiros que cobram meia tarifa. No segundo parágrafo, ele conta que o espelho "delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa" — ou seja, os primeiros fios brancos (clarões) apareceram sob a cabeleira cheia (melena frondosa). A palavra "melena" é definida na nota como "cabeleira", e "frondosa" é um adjetivo tipicamente associado a árvores com muitas folhas. Ao transferir essa imagem vegetal para o cabelo, o autor cria uma metáfora: a cabeleira é comparada a uma árvore frondosa. Da mesma forma, "clarões" — que literalmente são claridades, luzes — é usado para designar os fios brancos que "brilham" no cabelo escuro. Nenhum desses sentidos é o literal; ambos dependem do contexto para serem compreendidos.
A técnica que decide: contexto é tudo
A regra de ouro é: denotação = sentido literal, que independe do contexto; conotação = sentido figurado, que depende do contexto. No trecho, "clarões" não é uma luz de verdade, e "melena frondosa" não é uma árvore. O contexto — a confissão de que o espelho delatou os primeiros sinais de calvície e que o reflexo da calva provoca horror — obriga a ler essas palavras como metáforas. Se você lesse em sentido próprio, o texto falaria de um amanhecer sob árvores, o que não tem nenhuma relação com o tema da queda de cabelo. A banca explora exatamente essa armadilha: as alternativas A, B e C oferecem leituras literais (ambiente campestre, repulsa, amanhecer), enquanto a E oferece uma leitura figurada, mas com o sentido trocado (alegria, quando o texto fala de horror).
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta na literalidade — o candidato que lê "clarões" e "melena frondosa" sem voltar ao contexto pode achar que o texto descreve uma paisagem com árvores e amanhecer. A palavra "frondosa" é o gatilho: ela remete a árvores, mas aqui qualifica a cabeleira. O contexto (calvície, horror, espelho) desfaz a leitura literal.
Análise das alternativas
Sentido das palavras
1Denotação (próprio)
Sentido literal do dicionário
Independe do contexto
2Conotação (figurado)
Sentido simbólico
Depende do contexto
Ex.: "clarões" = fios brancos
Ex.: "melena frondosa" = cabeleira cheia
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fora do escopo). A alternativa afirma que o trecho está em sentido próprio, "fazendo referência ao ambiente campestre, com grandes árvores". Isso é uma leitura literal de "melena frondosa", mas o texto não fala de campo nem de árvores — fala de cabelo. A nota de rodapé define "melena" como "cabeleira", e o contexto é a calvície. A alternativa extrapola ao inventar um cenário campestre que não existe no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa diz que o trecho está em sentido próprio, "fazendo referência à reação de repulsa do sujeito ao se ver no espelho". De fato, o texto menciona que o reflexo da calva provoca "estremecimentos de horror", mas isso não é o sentido das palavras "clarões" e "melena frondosa". A repulsa é uma consequência, não o significado do trecho. Além disso, o trecho citado está em sentido figurado, não próprio. A alternativa confunde o efeito (horror) com o sentido das palavras.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fora do escopo). A alternativa afirma que o trecho está em sentido próprio, "sendo referência aos sinais do amanhecer sob as árvores". Assim como a A, ela lê "clarões" como luz do amanhecer e "melena frondosa" como árvores. Mas o texto não fala de amanhecer — fala de fios brancos surgindo na cabeleira. A leitura literal é extrapolada: o contexto da calvície não autoriza nenhuma paisagem natural.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única sustentada pelo texto. O trecho está em sentido figurado: "clarões" metaforiza os fios brancos que "brilham" no cabelo, e "melena frondosa" metaforiza a cabeleira cheia, comparada a uma árvore com muitas folhas. A prova está no contexto imediato:
"Vinte anos atrás o espelho já delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa. Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimentos de horror."
O texto fala de calvície — o espelho delata os clarões (fios brancos) e o reflexo da calva causa horror. Logo, "clarões" e "melena frondosa" só fazem sentido como metáforas para os sinais de calvície. A alternativa D captura exatamente isso: "figurado, fazendo referência ao surgimento dos sinais de calvície".
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o trecho está em sentido figurado, mas "fazendo referência à alegria de poder ver a cabeleira farta". O texto, porém, fala do horror diante da calva, não de alegria. O narrador se sente "mutilado capilar" e os barbeiros o humilham. A palavra "alegria" contradiz o tom do texto. Além disso, o trecho não celebra a cabeleira farta — ele anuncia a perda dela (os clarões são o começo da calvície).
Fechamento
A regra que você leva desta questão: quando a banca perguntar se uma palavra está em sentido próprio ou figurado, volte ao contexto e pergunte: "isso pode ser lido literalmente?" Se a leitura literal produz um absurdo (cabelo que é árvore, fio branco que é luz), então é conotação. E desconfie de alternativas que trocam o sentimento do texto (horror por alegria) ou que inventam cenários (campestre, amanhecer) que não estão no texto.