Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2023

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
vu184276
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2023
Cargo
DPO ( )

Os algoritmos de redes sociais serão o fim da verdade?

 

Quem define o que é verdade? É um questionamento corriqueiro que demonstra a distopia que vivemos. A verdade se impõe, ela é, simples assim. Verdade é constituída de fatos objetivos e verificáveis. A questão surge porque distorcemos, sem perceber, o conceito de verdade. Muitas vezes a palavra verdade é usada para descrever outra coisa, algo que seja mais palatável para um grupo, que geralmente se chama de narrativa.

 

Um estudo publicado na revista Nature em janeiro de 2017 mostra que, na lógica de massas, a resposta “surpreendentemente popular” tende a ser mais adotada que a verdade dos fatos. A técnica do estudo consistiu em fazer perguntas a grupos específicos e ter um detalhamento a mais, diferenciando o que as pessoas acham que é a resposta correta e o que elas pensam que seria a resposta mais popular. Chamou-se esse processo de “algoritmo do surpreendentemente popular”.

 

Diante do dilema moral, nossa tendência é condenar as pessoas que optam pela corrente majoritária. Ocorre que todos nós já fizemos isso em algum momento, seja por necessidade de aceitação ou de sobrevivência. É algo que faz parte do nosso cotidiano. É melhor ser feliz ou ter razão?

 

Isso permeia toda a convivência humana. Pense na sua família e amigos. É comum abandonarmos discussões infrutíferas fingindo concordar com algo de que discordamos. Isso não é uma falha, é uma tática de sobrevivência em grupo escolher nossas brigas. Pense agora na vida educacional e profissional. Esse mecanismo geralmente é descrito como engolir sapos.

 

O que muda nas redes sociais é o contexto. Acabamos sempre enfiados nas famosas bolhas, onde assumimos que existe uma opinião de consenso ou incrivelmente popular.

 

Isso potencializa muito o efeito natural de desprezar o que sabemos ser a verdade para optar pelo que é mais popular dentro do grupo. Ocorre que essa prática molda nossa mente, cria um hábito. As situações em que enfrentamos o dilema entre optar pela verdade ou pelo pertencimento são aumentadas num nível de normalizar a opção pela aderência ao grupo sempre.

 

Aceitar a condição humana é um desafio gigantesco. Temos vergonha de ser quem somos e temos a oportunidade de projetar nas redes a imagem do ser ideal que gostaríamos de ser. É uma tentação gigantesca para abolir a verdade. Não é possível, no entanto, ter avanços para as sociedades humanas abrindo mão da realidade objetiva. Passou da hora de refletir sobre esses temas. Quanto mais a tecnologia avança, mais precisamos entender de gente. É um processo tão doloroso quanto necessário.

 

(Madeleine Lacsko. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br. Acesso em: 06.08.2023. Adaptado.)

Observe as relações de sentido presentes nas passagens do parágrafo.   \bullet Não é possível, no entanto, ter avanços para as sociedades humanas...   \bullet Quanto mais a tecnologia avança, mais precisamos entender de gente.   \bullet É um processo tão doloroso quanto necessário.   É correto afirmar que nessas passagens estão expressas, respectivamente, as relações de sentido de
  1. Aoposição; modo; comparação.
  2. Brestrição; proporção; quantidade.
  3. Cconcessão; quantidade; modo.
  4. Dressalva; proporção; comparação.
  5. Econcessão; modo; quantidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — ressalva; proporção; comparação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relações de sentido: ressalva, proporção e comparação

Gabarito: letra D. A questão pede que se identifiquem as relações de sentido expressas por conectivos e estruturas correlatas em três passagens do texto. Na primeira, o "no entanto" estabelece uma ressalva (oposição atenuada); na segunda, a estrutura correlata "quanto mais... mais" expressa proporção; na terceira, o par "tão... quanto" estabelece uma comparação de igualdade. A alternativa D é a única que nomeia corretamente as três relações, na ordem exigida.

O comando: identificar relações de sentido

O enunciado pede que se observe "as relações de sentido presentes nas passagens" e que se afirme o que está expresso "respectivamente". Isso significa que a resposta deve seguir a ordem exata das três passagens citadas. Não se trata de interpretar o texto, mas de reconhecer o valor semântico de conectivos e estruturas correlatas — uma questão de semântica e coesão sequencial.

O texto: onde mora cada relação

As três passagens estão no último parágrafo do texto, que defende a tese de que não se pode abrir mão da realidade objetiva para o avanço das sociedades. Vejamos cada uma:

  1. "Não é possível, no entanto, ter avanços para as sociedades humanas..." — o conectivo "no entanto" é uma conjunção adversativa que introduz uma ressalva ou oposição ao que foi dito antes (a tentação de abolir a verdade). A diferença entre "oposição" e "ressalva" é sutil: a ressalva é uma oposição que atenua ou restringe a afirmação anterior, sem anulá-la completamente.

  1. "Quanto mais a tecnologia avança, mais precisamos entender de gente." — a estrutura correlata "quanto mais... mais" expressa proporção: os dois fatos variam na mesma medida. É a clássica oração subordinada adverbial proporcional.

  1. "É um processo tão doloroso quanto necessário." — o par correlato "tão... quanto" estabelece uma comparação de igualdade entre dois atributos: o processo é doloroso na mesma medida em que é necessário. É uma oração subordinada adverbial comparativa.

A técnica: distinguir os conectivos

A pegadinha central está na primeira passagem. O "no entanto" é frequentemente classificado como conjunção adversativa (oposição), mas a banca optou pelo termo "ressalva", que é mais específico e preciso para o contexto. A ressalva é uma oposição que restringe o alcance do que foi dito, sem negá-lo por completo. Veja a diferença:

Conectivo

Relação

Efeito

"mas", "porém"

Oposição

Contraste direto entre ideias

"no entanto", "contudo"

Ressalva

Oposição que atenua/restringe

"embora", "ainda que"

Concessão

Fato que não impede a realização de outro

Na segunda passagem, a relação de proporção é marcada pela correlação "quanto mais... mais". Já na terceira, a comparação é marcada por "tão... quanto", que iguala dois termos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre oposição e ressalva (alternativa A) e entre concessão e ressalva (alternativas C e E). O "no entanto" não é concessivo — a concessão exige conectivos como "embora" ou "ainda que", que indicam um fato que não impede a realização de outro.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as relações são de oposição; modo; comparação. O erro está na segunda relação: "quanto mais... mais" não expressa modo (que responde a "como?"), mas proporção. A primeira relação poderia ser aceita como oposição, mas o termo mais preciso é "ressalva". A terceira está correta (comparação).

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as relações são de restrição; proporção; quantidade. O erro está na primeira e na terceira relação. "No entanto" não expressa restrição (que seria algo como "apenas", "somente"), mas ressalva. E "tão... quanto" não expressa quantidade, mas comparação de igualdade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as relações são de concessão; quantidade; modo. O erro está na primeira relação: "no entanto" é adversativo (ressalva), não concessivo. A concessão seria marcada por "embora", "ainda que", "mesmo que". As outras duas relações também estão erradas: "quanto mais... mais" é proporção, não quantidade; "tão... quanto" é comparação, não modo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que as relações são de ressalva; proporção; comparação. É a única que nomeia corretamente as três relações, na ordem exata das passagens:

"Não é possível, no entanto, ter avanços para as sociedades humanas..."

O "no entanto" introduz uma ressalva — uma oposição que atenua a afirmação anterior.

"Quanto mais a tecnologia avança, mais precisamos entender de gente."

A correlação "quanto mais... mais" expressa proporção — os dois fatos variam na mesma medida.

"É um processo tão doloroso quanto necessário."

O par "tão... quanto" expressa comparação de igualdade entre dois atributos.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as relações são de concessão; modo; quantidade. O erro está na primeira relação: "no entanto" é adversativo (ressalva), não concessivo. As outras duas relações também estão erradas: "quanto mais... mais" é proporção, não modo; "tão... quanto" é comparação, não quantidade.

Conclusão

A chave para resolver esta questão é nomear com precisão o valor semântico de cada conectivo. O "no entanto" é ressalva (oposição atenuada), "quanto mais... mais" é proporção, e "tão... quanto" é comparação. Teste cada alternativa perguntando: qual relação o conectivo realmente estabelece no contexto? — e desconfie de termos genéricos como "modo" ou "quantidade" que não correspondem ao valor específico do conectivo.

Gabarito: letra D

Link permanente: /questoes/vu184276