Questão de Português — Denotação e Conotação — VUNESP 2023
Português›Denotação e Conotação
Código
vu184336
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Osasco
Ano
2023
Cargo
Arqt ( )
Quinta-feira de manhã fiz como Noé, abri a janela da arca e soltei um corvo. Mas o corvo não tornoua, de onde inferi que as cataratas do céu e as fontes do abismob continuavam escancaradas. Então disse comigo: As águas hão de acabar algum dia. Tempo virá em que este dilúvio termine de uma vez para sempre, e a gente possa descer e palmear a Rua do Ouvidorc e outros becos. Sim, nem sempre há de chover. Veremos ainda o céu azul como a alma da gente novae. O sol, deitando fora a carapuçad, espalhará outra vez os grandes cabelos louros. Brotarão as ervas. As flores deitarão aromas capitosos.
Enquanto pensava, ia fechando a janela da arca e tornei depois aos animais que trouxera comigo, à imitação de Noé. Todos eles aguardavam notícias do fim. Quando souberam que não havia notícia nem fim, ficaram desconsolados.
(Machado de Assis, Crônica 138. A Semana. Obra Completa)
Leia o texto, para responder à questão. É correto afirmar que o texto é caracterizado por passagens em que se empregam expressões
Aem sentido figurado, como é o caso de – Mas o corvo não tornou...
Bem sentido figurado, como é o caso de – ... as cataratas do céu e as fontes do abismo...
Cem sentido figurado, como é o caso de – ... palmear a Rua do Ouvidor.
Dem sentido próprio, como é o caso de – O sol, deitando fora a carapuça...
Eem sentido próprio, como é o caso de – ... o céu azul como a alma da gente nova.
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GabaritoB — em sentido figurado, como é o caso de – ... as cataratas do céu e as fontes do abismo...
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Denotação e Conotação: identificando o sentido figurado
Gabarito: letra B. A alternativa correta é a que aponta a expressão "as cataratas do céu e as fontes do abismo" como exemplo de sentido figurado, pois se trata de uma metáfora que remete ao dilúvio bíblico, não a cataratas e fontes reais. Como se lê no texto: "as cataratas do céu e as fontes do abismo continuavam escancaradas" — expressão que o narrador usa para dizer que a chuva continuava intensa, em alusão ao dilúvio de Noé.
O comando pede que se identifique se o texto é caracterizado por passagens em sentido figurado ou próprio, e qual alternativa exemplifica corretamente. Isso é uma questão de interpretação de texto com foco em denotação e conotação: denotação é o sentido literal, dicionarizado; conotação é o sentido figurado, que depende do contexto. A banca quer que você reconheça quando uma palavra ou expressão foge do seu significado básico e ganha um valor simbólico.
No texto, o narrador compara sua situação à de Noé: abre a janela, solta um corvo, e infere que as "cataratas do céu" continuam abertas. Obviamente, não existem cataratas no céu nem fontes no abismo — isso é uma metáfora para a chuva torrencial. A expressão é claramente conotativa, pois não pode ser interpretada literalmente.
A técnica para resolver: para cada alternativa, pergunte: "essa expressão pode ser entendida ao pé da letra?" Se não pode, é figurada. Se pode, é própria. A alternativa B é a única que apresenta uma expressão inequivocamente metafórica, sem possibilidade de leitura literal.
Sentido das expressões
1Denotação (literal)
"Mas o corvo não tornou"
"Palmear a Rua do Ouvidor"
2Conotação (figurado)
"Cataratas do céu e fontes do abismo" (metáfora)
"Sol deitando fora a carapuça" (metáfora)
"Céu azul como a alma" (comparação)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A expressão "Mas o corvo não tornou" descreve uma ação concreta: o corvo, ave real, não voltou. Não há aqui nenhum desvio de sentido; o verbo "tornar" (voltar) é usado em seu sentido literal. A alternativa extrapola ao tentar enxergar figura onde há fato. O erro é classificar como figurada uma passagem que é denotativa.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A expressão "as cataratas do céu e as fontes do abismo" é uma metáfora bíblica: não existem cataratas no céu nem fontes no abismo. O narrador a usa para significar a chuva torrencial, em alusão ao dilúvio de Noé. É o exemplo clássico de conotação: o sentido depende do contexto e não pode ser tomado ao pé da letra. A passagem do texto que comprova:
"as cataratas do céu e as fontes do abismo continuavam escancaradas"
Aqui, "cataratas" e "fontes" são imagens poéticas para a chuva e as águas que caem do céu e brotam da terra. Não há leitura literal possível.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Palmear a Rua do Ouvidor" significa andar, passear pela rua — ação física, concreta. O verbo "palmear" (bater com a palma da mão, mas aqui no sentido de percorrer) é usado em sentido próprio, denotativo. A alternativa troca o conceito: confunde uma ação literal com sentido figurado. Não há metáfora nessa passagem.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"O sol, deitando fora a carapuça" é uma metáfora: o sol não tem carapuça (chapéu). A expressão significa que o sol se livra das nuvens, como quem tira um chapéu. É claramente conotativo, e a alternativa afirma que é sentido próprio — contradiz o texto. O erro é inverter a classificação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"O céu azul como a alma da gente nova" é uma comparação explícita (com o conectivo "como"), que aproxima o azul do céu à pureza da alma. Embora seja uma imagem poética, a estrutura comparativa não é uma metáfora pura; ainda assim, não é sentido próprio, pois "alma" não tem cor. A alternativa erra ao classificar como próprio algo que é figurado (comparação).
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura expressões claramente figuradas (B, D) com outras que parecem figuradas mas são literais (A, C) ou comparativas (E). O candidato apressado marca qualquer uma que soe poética, sem verificar se há desvio de sentido.
PEGA ESSA DICA!
Para distinguir denotação de conotação, pergunte: "isso pode acontecer de verdade?" Se não pode, é figurado. E cuidado com o "como": ele marca comparação, não metáfora.
Gabarito: letra B. A única expressão inequivocamente metafórica, sem possibilidade de leitura literal, é "as cataratas do céu e as fontes do abismo".