Você tem o direito de discordar do que penso. Talvez tenha se decepcionado com algum texto do passado e nunca mais tenha restabelecido contato comigo nas redes sociais. [...] Mas você não tem o poder de me cancelar. Ninguém cancela ninguém, é só um verbo da moda.
Se não foi comigo, foi com outra pessoa. Você discordou das posições de um humorista, de uma influencer, de um jornalista. Só que eles continuam existindo à sua e à nossa revelia, pois você e eu não temos o poder de aniquilar a carreira de ninguém, a não ser que a própria pessoa tenha colaborado muito para isso – sendo negligente, mentirosa, corrupta, sei lá. Uma opinião atravessada não é suficiente, e deixar de segui-la nas redes gera apenas uma falsa ilusão de fracasso. Realidade: a maioria dos seguidores volta, porque a razão de seguir era mais forte do que o desdém temporário.
(MEDEIROS, Martha. Só quem pode me cancelar sou eu.
O Globo, Revista Ela, 03.09.2023, p. 9. Adaptado)
Leia o texto a seguir, parte introdutória de uma crônica da Martha Medeiros, para responder à questão. A locução “só que” poderia ser substituída, sem alterar o sentido do texto, por:
A“entretanto”, “mas” ou “portanto”.
B“porém”, “visto que” ou “embora”.
C“portanto”, “porém” ou “ainda que”.
D“contudo”, “no entanto” ou “entretanto”.
E“pois”, “apesar de” ou “no entanto”.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — “contudo”, “no entanto” ou “entretanto”.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Conjunções coordenativas adversativas: o valor de "só que"
Gabarito: letra D. A locução "só que" é uma conjunção coordenativa adversativa — expressa oposição, contraste, quebra de expectativa — e pode ser substituída, sem alterar o sentido, por "contudo", "no entanto" ou "entretanto", que pertencem à mesma classe. No texto, a passagem que comprova o valor adversativo é:
"Mas você não tem o poder de me cancelar. Ninguém cancela ninguém, é só um verbo da moda."
A conjunção "só que" aparece logo após a ideia de que o interlocutor pode discordar ou se decepcionar, mas isso não lhe dá o poder de cancelar. Há uma clara oposição entre a possibilidade de discordar e a impossibilidade de cancelar — exatamente o valor das adversativas.
O comando da questão
O enunciado pede uma substituição sem alteração de sentido. Isso significa que a alternativa correta deve trazer conectivos que, no contexto, mantenham a mesma relação lógica entre as orações. Não basta que a palavra seja sinônima em dicionário; é preciso que o valor semântico no texto seja preservado. Aqui, o valor é de oposição/contraste.
O texto e o movimento argumentativo
A crônica de Martha Medeiros defende que ninguém tem o poder de "cancelar" outra pessoa. O trecho inicial apresenta uma concessão: "Você tem o direito de discordar do que penso" — e, em seguida, a autora introduz uma ressalva com "só que": mesmo que você discorde, não pode me cancelar. A relação entre as duas ideias é de contraste: de um lado, o direito de discordar; de outro, a impossibilidade de cancelar. É exatamente o valor das conjunções adversativas.
A técnica que decide
Para resolver, é preciso conhecer as conjunções coordenativas adversativas: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante, ainda assim. Todas expressam oposição, quebra de expectativa ou compensação. Já as conclusivas (logo, portanto, pois deslocado) indicam conclusão; as explicativas (porque, pois no início) indicam justificativa; as causais (visto que, já que) indicam causa; as concessivas (embora, ainda que, apesar de) indicam concessão, mas são subordinativas e não coordenadas.
A pegadinha da banca está em misturar conectivos de classes diferentes. Veja:
Conectivo
Classe
Valor
"só que"
Adversativa
Oposição
"contudo", "no entanto", "entretanto"
Adversativa
Oposição
"portanto"
Conclusiva
Conclusão
"visto que"
Causal
Causa
"embora", "ainda que"
Concessiva
Concessão
"pois"
Explicativa/Conclusiva
Explicação/Conclusão
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
"entretanto", "mas" ou "portanto" — Os dois primeiros são adversativos, mas "portanto" é conclusivo. A presença de um conectivo de outra classe invalida a alternativa, pois a substituição por "portanto" alteraria o sentido, introduzindo uma conclusão onde há oposição.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"porém", "visto que" ou "embora" — "porém" é adversativo, mas "visto que" é causal e "embora" é concessivo. Ambos mudariam a relação lógica: "visto que" daria uma causa, e "embora" uma concessão, o que não equivale ao contraste de "só que".
Alternativa C — ❌ Incorreta
"portanto", "porém" ou "ainda que" — "portanto" é conclusivo, "ainda que" é concessivo. Apenas "porém" é adversativo. A mistura de classes torna a alternativa incorreta.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"contudo", "no entanto" ou "entretanto" — Os três são conjunções coordenativas adversativas, exatamente como "só que". Todos expressam oposição, contraste, quebra de expectativa. No contexto, a substituição preservaria integralmente o sentido: "Você tem o direito de discordar... contudo/no entanto/entretanto, você não tem o poder de me cancelar."
Alternativa E — ❌ Incorreta
"pois", "apesar de" ou "no entanto" — "no entanto" é adversativo, mas "pois" (no início da oração) é explicativo e "apesar de" é concessivo. A presença de conectivos de outras classes invalida a alternativa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura conectivos de valores diferentes (conclusivos, causais, concessivos) para testar se o candidato reconhece que "só que" é adversativo. A alternativa correta é a única em que todos os conectivos são adversativos.
PEGA ESSA DICA!
Ao substituir conectivos, pergunte: "qual relação lógica a conjunção estabelece entre as orações?" Se a relação for de oposição, só servem adversativas. Desconfie de alternativas que misturam classes.