Questão de Português — Termos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo — VUNESP 2023
Português›Termos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo
Código
vu184515
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
Amor, que o gesto humano n’alma escreve, vivas faíscas me mostrou um dia, donde um puro cristal se derretia por entre vivas rosas e alva neve.
A vista, que em si mesma não se atreve, por se certificar do que ali via, foi convertida em fonte, que fazia a dor ao sofrimento doce e leve.
Jura Amor que brandura de vontade causa o primeiro efeito; o pensamento endoudece, se cuida que é verdade.
Olhai como Amor gera num momento, de lágrimas de honesta piedade, lágrimas de imortal contentamento!
(CAMÕES, Luís Vaz de. Obra completa, 2003)
Leia o poema de Luís de Camões, para responder à questão. No soneto, o eu lírico dirige-se diretamente a seus leitores no seguinte verso:
A“Olhai como Amor gera, num momento,” (4ª estrofe)
B“A vista, que em si mesma não se atreve,” (2ª estrofe)
C“Lágrimas de imortal contentamento!” (4ª estrofe)
D“Jura Amor que brandura de vontade” (3ª estrofe)
E“Amor, que o gesto humano na alma escreve,” (1ª estrofe)
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GabaritoA — “Olhai como Amor gera, num momento,” (4ª estrofe)
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Vocativo e a interpelação direta ao leitor no soneto de Camões
Gabarito: letra A. O verso em que o eu lírico se dirige diretamente aos leitores é "Olhai como Amor gera, num momento," (4ª estrofe), pois o verbo "Olhai" está no imperativo (2ª pessoa do plural), forma verbal que expressa ordem, convite ou conselho e, por isso, instaura um interlocutor explícito — os leitores a quem se fala. As demais alternativas apresentam verbos no presente do indicativo ou formas nominais, que não configuram interpelação direta.
O comando da questão pede que se identifique o verso em que o eu lírico "dirige-se diretamente a seus leitores". Isso não é uma questão de compreensão global do poema, mas de reconhecimento de um recurso gramatical específico: o vocativo e o modo imperativo, que materializam a função apelativa ou conativa da linguagem. A banca não quer que se interprete o sentido do amor ou das lágrimas; quer que se localize o momento em que o texto "quebra a quarta parede" e chama o leitor para participar.
No poema, o eu lírico descreve o Amor e seus efeitos (1ª a 3ª estrofes) e, na 4ª estrofe, muda de estratégia: em vez de apenas narrar, ele convoca o leitor a observar. O verbo "Olhai" é a chave. No português clássico de Camões, "olhai" é a forma do imperativo afirmativo para a 2ª pessoa do plural (vós). O imperativo é o modo verbal da interpelação: só existe se houver um interlocutor a quem se ordena ou aconselha algo. Assim, "Olhai como Amor gera" significa "Vós, leitores, olhai como Amor gera". O leitor é, portanto, o vocativo implícito — o ser a quem o eu lírico se dirige.
A técnica para resolver é simples: procure o verbo no imperativo. Enquanto o indicativo relata fatos ("mostrou", "foi convertida", "jura", "endoudece"), o imperativo convoca o outro. "Olhai" é o único verbo do poema nesse modo. As demais alternativas trazem verbos no indicativo ou em formas nominais, que descrevem ou explicam, mas não interpelam ninguém.
PEGA ESSA DICA!
Em questões que pedem "dirige-se diretamente a", "interpela", "chama o interlocutor", grife os verbos no imperativo (olha, olhai, vê, vede, escuta, escutai). Eles são a marca gramatical da interpelação. Se não houver imperativo, procure vocativos explícitos ("Amigo, escuta-me").
Interpelação direta ao leitor: Marca gramatical (Modo imperativo, Vocativo implícito); Função da linguagem (Apelativa / conativa); Como identificar (Verbo no imperativo (olha, olhai, vê, vede), Vocativo explícito ("Amigo, escuta-me"))
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Olhai como Amor gera num momento,"
O verbo "Olhai" está no imperativo afirmativo, 2ª pessoa do plural (vós). O imperativo é o modo verbal que expressa ordem, pedido, convite ou conselho e, por definição, exige um interlocutor a quem a ação é dirigida. Ao dizer "Olhai", o eu lírico se dirige diretamente aos leitores, convocando-os a observar como o Amor age. É a única forma verbal do poema que instaura essa relação direta de interpelação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"A vista, que em si mesma não se atreve,"
O verbo "atreve" está no presente do indicativo, 3ª pessoa do singular. O sujeito é "a vista" (a visão), e o eu lírico descreve uma característica dela. Não há interpelação a ninguém; o texto apenas relata. A alternativa tangencia o tema ao falar de um elemento do poema, mas não corresponde ao que o enunciado pede.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Lágrimas de imortal contentamento!"
Este é um sintagma nominal, sem verbo. Não há forma verbal que indique interpelação. A frase é uma exclamação que encerra o poema, mas não se dirige a ninguém. A alternativa extrapola ao sugerir que uma exclamação sem verbo no imperativo constitui interpelação direta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Jura Amor que brandura de vontade"
O verbo "jura" está no presente do indicativo, 3ª pessoa do singular, com sujeito "Amor". O eu lírico relata o que o Amor jura, mas não se dirige a ninguém. A alternativa contradiz o que se pede, pois apresenta uma declaração sobre o Amor, não uma interpelação ao leitor.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Amor, que o gesto humano na alma escreve,"
O verbo "escreve" está no presente do indicativo, 3ª pessoa do singular, com sujeito "Amor". O termo "Amor" é o sujeito da oração, não um vocativo (não há vírgula separando um chamamento; a vírgula isola a oração adjetiva "que o gesto humano na alma escreve"). A alternativa troca o conceito: confunde o sujeito "Amor" com um vocativo, mas não há interpelação direta ao leitor.
Conclusão: a questão testa o reconhecimento do modo imperativo como marca da interpelação direta. A única forma verbal nesse modo é "Olhai", na 4ª estrofe. As demais alternativas usam o indicativo ou formas nominais, que apenas descrevem ou narram, sem convocar o leitor. Gabarito: letra A.