Questão de Português — Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais) — VUNESP 2023
Português›Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais)
Código
vu184516
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
3º AEM ( )
Moyo é uma pedra basilar de muitas vidas. Homem baixinho. Rechonchudo. Que maneja os objectos mágicos com as mãos de um artista, sem pressa, como se fosse seu todo o tempo do mundo. Com varinhas mágicas rendilhando vidas e almas de gente que vem de todos os ângulos para depositar-lhe nos ouvidos as mais incríveis confidências. Sempre despenteado, estilo rastafári. Um olhar que massaja de frescura qualquer coração em chamas. Um homem que tem para todos um sorriso de menino, uma palavra de ternura.
— Boa tarde, Moyo!
— Tu aqui?
A amizade entre o José e o Moyo não aconteceu por acaso. Passaram por aquelas mãos muitas gerações de escravos, de condenados. A todos ofereceu de presente uma palavra de esperança. Era muito respeitado pelo povo e temido pelo sistema. Por duas vezes as mãos de Moyo trouxeram José aos arrastos do além para este mundo. A primeira quando foi mordido por uma cobra medonha. A segunda quando sofreu o castigo de chibatadas no tronco, por ter tentado fugir do acampamento. O seu corpo estava transformado num puré de sangue que Moyo devolveu à vida, apenas por magia. Cuidou-o pacientemente, como uma mulher velha bordando em ponto de cruz. E embalando- lhe a alma com histórias de encantar, de homens, animais, monstros e tudo, como se de uma criança se tratasse. José dos Montes deve a vida àquele homem. Que o trouxe do além para este mundo. Que reconheceu nele um menino sem pai nem mãe, nem eira nem beira, nem esperança. Alimentara-o durante meses sem nunca pedir nada em troca.
(Paulina Chiziane. O Alegre Canto da Perdiz, 2008. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão. Assinale a alternativa em que a reescrita de informações textuais está em conformidade com a norma-padrão de regência.
AMoyo estava em casa, distraído pelo manejo de seus objetos mágicos, quando o amigo José chegou e cumprimentou- lhe com grande entusiasmo.
BAo cuidar de José, Moyo reconheceu que ele precisava de sua ajuda, pois era um jovem sem esperança que sua vida pudesse melhorar.
CAo se referirem a Moyo, é comum que as pessoas lhe chamem de confidente, já que ele, alegre e indistintamente, dá atenção a todas.
DPessoas de todos os cantos vão na casa de Moyo confidenciar- lhe suas histórias; ele é receptivo a todas e para cada uma tem um sorriso.
EQuando José foi castigado pelas chibatadas, Moyo zelou ao amigo, alimentando-o e esperando que ele fosse capaz de se recuperar.
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GabaritoC — Ao se referirem a Moyo, é comum que as pessoas lhe chamem de confidente, já que ele, alegre e indistintamente, dá atenção a todas.
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Regência verbal e nominal na reescritura de texto
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que respeita a norma-padrão de regência, pois emprega corretamente o verbo chamar como transitivo indireto com o pronome oblíquo átono "lhe" (chamar alguém de algo → chamar a alguém de algo). A passagem que sustenta essa reescrita é: "é comum que as pessoas lhe chamem de confidente", que corresponde ao trecho do texto em que Moyo recebe confidências de todos. As demais alternativas apresentam desvios de regência, como o uso de "cumprimentou-lhe" (A), "zelou ao amigo" (E) e "vão na casa" (D).
O comando pede que se assinale a reescrita em conformidade com a norma-padrão de regência. Isso significa que a questão não cobra apenas a fidelidade ao conteúdo do texto, mas também a correção gramatical da reescrita, especialmente no que diz respeito à regência verbal e nominal. É uma questão de gramática aplicada ao texto: a alternativa deve manter o sentido original e, ao mesmo tempo, empregar corretamente as preposições e os pronomes oblíquos.
O texto narra a relação entre Moyo e José, destacando a generosidade de Moyo, que acolhe confidências de todos e salva a vida de José por duas vezes. A reescrita correta deve preservar essas informações, mas o foco principal é a regência. A banca explora justamente os verbos que mudam de sentido ou de transitividade conforme a regência, como "chamar", "cumprimentar", "zelar" e "ir".
A técnica para resolver é testar cada alternativa perguntando: o verbo/nome exige preposição? Qual? O pronome oblíquo é adequado? Vamos analisar cada uma.
Regência: verbo "chamar"
1Transitivo direto
chamar alguém
Pronome: o/a
2Transitivo indireto
chamar a alguém
Pronome: lhe
"chamar-lhe de confidente" (correto)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: regência do verbo "cumprimentar". O verbo "cumprimentar" é transitivo direto: cumprimentar alguém. Portanto, o pronome oblíquo deve ser "o" (cumprimentou-o), e não "lhe" (que é objeto indireto). A reescrita "cumprimentou-lhe" está incorreta. Além disso, o texto não afirma que José cumprimentou Moyo com entusiasmo; apenas há o diálogo "Boa tarde, Moyo!" e "Tu aqui?", sem indicação de entusiasmo. A alternativa extrapola ao acrescentar essa informação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: regência nominal e verbal. A expressão "sem esperança que sua vida pudesse melhorar" está inadequada. O correto seria "sem esperança de que sua vida pudesse melhorar" (regência nominal de "esperança": esperança de algo). Além disso, o texto diz que Moyo reconheceu em José "um menino sem pai nem mãe, nem eira nem beira, nem esperança", mas não afirma que José precisava de ajuda para melhorar de vida; isso é uma inferência não autorizada. A alternativa também troca o sentido: o texto fala de esperança como algo que falta, não como expectativa de melhora.
Alternativa C — ✅ Correta
Regência correta do verbo "chamar". O verbo "chamar" pode ser transitivo direto (chamar alguém) ou indireto (chamar a alguém). Quando se usa o pronome oblíquo átono "lhe", a construção correta é "chamar-lhe" (chamar a ele). A alternativa C escreve "as pessoas lhe chamem de confidente", o que está de acordo com a norma-padrão: "chamar a alguém de algo". O texto sustenta essa ideia: "depositar-lhe nos ouvidos as mais incríveis confidências" e "tem para todos um sorriso de menino, uma palavra de ternura". A reescrita preserva o sentido e a regência.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: regência do verbo "ir". O verbo "ir" exige a preposição "a" quando indica destino: ir a algum lugar. Portanto, "vão na casa de Moyo" está incorreto; o correto seria "vão à casa de Moyo" (com crase, pois "casa" admite artigo). Além disso, o texto diz que as pessoas vêm "de todos os ângulos" para depositar confidências, mas não especifica que vão à casa dele; isso é uma extrapolação. A alternativa também usa "confidenciar-lhe" de forma correta, mas o erro de regência de "ir" já a invalida.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: regência do verbo "zelar". O verbo "zelar" exige a preposição "por": zelar por alguém. Portanto, "zelou ao amigo" está incorreto; o correto seria "zelou pelo amigo". O texto diz que Moyo "cuidou-o pacientemente" e "alimentara-o durante meses", mas não usa o verbo "zelar". A alternativa tenta reescrever com um verbo de sentido próximo, mas erra a regência. Além disso, "esperando que ele fosse capaz de se recuperar" é uma inferência não autorizada; o texto diz que Moyo o trouxe de volta à vida, mas não menciona expectativa de recuperação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura desvios de regência verbal e nominal, oferecendo reescritas que parecem fiéis ao texto, mas que empregam preposições ou pronomes incorretos. Fique atento aos verbos que mudam de transitividade conforme o contexto.
PEGA ESSA DICA!
Ao reescrever, verifique sempre a regência do verbo principal e do nome. Pergunte: "quem?" (objeto direto) ou "a quem?/de quem?/por quem?" (objeto indireto). Isso evita erros como "cumprimentou-lhe" e "zelou ao amigo".
Conclusão: a única alternativa que mantém a regência correta e o sentido do texto é a letra C. As demais apresentam desvios de regência (A, D, E) ou de regência e sentido (B).