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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184540
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Jaguariúna
Ano
2023
Cargo
Ag ( )

Éramos quatro escritoras em volta de uma mesa, num restaurante. A conversa não podia estar mais divertida. Até que um sujeito passou por nós, nos reconheceu, cumprimentou e disse: “Posso imaginar o papo cabeça que está rolando aí”. E saiu de perto com uma cara de “Deus me livre”.

 

O simpático cidadão ficaria corado se escutasse um pedacinho do nosso “papo cabeça”. Logo nos perguntamos: será mesmo que as pessoas pensam que a gente se reúne para falar sobre filósofos e que tentamos desvendar o significado de cada verso dos Lusíadas enquanto dividimos uma pizza marguerita?

 

Não abro mão de conversas inteligentes, mas, para longas dissertações, existe hora e lugar. Eu mesma, podendo, corro para o outro lado quando alguém começa uma conferência didática-enciclopédica em mesa de bar. Numa sala de universidade, é estimulante. Em meio a uma palestra num auditório, empolga. Escutar um sábio falar durante um jantar, na casa de alguém, salva a noite. Mas num boteco barulhento, em meio a bolinhos de bacalhau, copos de chope e cercado por amigos da adolescência, quem vai querer escutar sobre a profundidade poética de um brilhante cineasta polonês?

 

E se for um primeiro jantar a dois, romântico, aí o papo cabeça funciona mais ou menos como um ex que entrou no recinto para quebrar o clima. Dá aquela vontade súbita de pedir a conta.

 

Em nosso último encontro, minhas amigas e eu conversamos sobre as vantagens triunfais da maturidade, sobre a diferença da nossa geração para a de nossos filhos, sobre a viagem que uma de nós fez aos Lençóis Maranhenses, sobre a Anitta, sobre uma fofoca que aconteceu na cidade, sobre uma exposição que ainda está em cartaz em São Paulo, sobre paixões infernais, sobre amores inventados e mais outras coisas porque os assuntos são sempre múltiplos e vêm acompanhados de muitas gargalhadas. Somos criaturas trágicas, mas isso a gente deixa para debater na consulta com o analista. Fora do horário do expediente, nosso papo cabeça desce a linha do pescoço, ronda o coração e onde mais a alma alcança — enquanto isso, o cérebro descansa.

 

(Martha Medeiros. Papo cabeça. https://oglobo.globo.com, 24.09.2022. Adaptado)

Texto

   

A partir da leitura do texto, é correto afirmar que

  1. Aa autora acredita que não há momento certo para se ter uma discussão intelectual intensa.
  2. Ba reunião da autora deu a impressão errada a um passante.
  3. Ca capacidade da autora de conversar sobre futilidades é condicionada por suas companhias.
  4. Da presença de alguém inteligente na plateia de uma palestra arruína a diversão dos presentes.
  5. Euma viagem aos Lençóis Maranhenses pode se tornar um assunto entediante mesmo num bar.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a reunião da autora deu a impressão errada a um passante.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Papo cabeça: a impressão errada do passante

Gabarito: letra B. A reunião da autora deu a impressão errada a um passante, pois o homem que passou pela mesa das escritoras presumiu que elas estavam tendo uma conversa intelectual profunda ("papo cabeça"), quando, na verdade, a conversa era descontraída e variada. O texto confirma isso no primeiro parágrafo: o sujeito disse "Posso imaginar o papo cabeça que está rolando aí" e saiu com cara de "Deus me livre", enquanto a autora, no último parágrafo, descreve que a conversa real era sobre assuntos cotidianos, fofocas e gargalhadas.

O comando da questão é de compreensão: pede-se o que é "correto afirmar" a partir da leitura, ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma informação explícita ou diretamente depreensível do texto, sem acréscimos de fora. A alternativa correta é a que traduz exatamente o episódio narrado no início da crônica.

O texto de Martha Medeiros é uma crônica narrativo-argumentativa em que a autora desconstrói o estereótipo de que escritoras reunidas só falam de temas eruditos. O movimento central é a ironia: o passante imagina um "papo cabeça" (conversa intelectual), mas a autora mostra que a conversa real era múltipla e leve — "sobre as vantagens triunfais da maturidade, sobre a diferença da nossa geração para a de nossos filhos, sobre a viagem que uma de nós fez aos Lençóis Maranhenses, sobre a Anitta, sobre uma fofoca que aconteceu na cidade, sobre uma exposição que ainda está em cartaz em São Paulo, sobre paixões infernais, sobre amores inventados e mais outras coisas porque os assuntos são sempre múltiplos e vêm acompanhados de muitas gargalhadas". A tese é que não há contradição entre ser intelectual e ter conversas leves; o "papo cabeça" pode descer "a linha do pescoço, ronda o coração e onde mais a alma alcança — enquanto isso, o cérebro descansa".

A técnica que decide esta questão é simples: localizar a passagem que cada alternativa parafraseia e verificar se a paráfrase é fiel. A alternativa B é a única que encontra correspondência direta no texto — o passante formou uma impressão (a de que elas falavam de filosofia) que não correspondia à realidade da conversa. As demais ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem o que está escrito.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — alternativas que soam plausíveis (como a A, sobre "não haver momento certo") mas que o texto não afirma. A correta é a que se ancora no episódio concreto narrado, não em generalizações.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A autora não acredita que não há momento certo para discussão intelectual. Pelo contrário, ela afirma que existe hora e lugar: "Não abro mão de conversas inteligentes, mas, para longas dissertações, existe hora e lugar". Ela cita exemplos de momentos adequados: "Numa sala de universidade, é estimulante. Em meio a uma palestra num auditório, empolga. Escutar um sábio falar durante um jantar, na casa de alguém, salva a noite". A alternativa contradiz o texto ao inverter a posição da autora.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto narra que um passante reconheceu as escritoras e disse: "Posso imaginar o papo cabeça que está rolando aí", saindo com cara de "Deus me livre". A autora então revela que a conversa real era bem diferente: "Logo nos perguntamos: será mesmo que as pessoas pensam que a gente se reúne para falar sobre filósofos e que tentamos desvendar o significado de cada verso dos Lusíadas enquanto dividimos uma pizza marguerita?". No último parágrafo, ela lista os assuntos reais — fofocas, viagens, Anitta, gargalhadas — mostrando que a impressão do passante foi errada. A alternativa é uma paráfrase fiel desse episódio.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O texto não diz que a capacidade da autora de conversar sobre futilidades é condicionada pelas companhias. A autora afirma que os assuntos são "sempre múltiplos" e que a conversa varia naturalmente: "os assuntos são sempre múltiplos e vêm acompanhados de muitas gargalhadas". Não há nenhuma relação de condicionamento entre as companhias e a capacidade de falar de futilidades. A alternativa extrapola ao criar uma relação causal que o texto não estabelece.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O texto não afirma que a presença de alguém inteligente na plateia de uma palestra arruína a diversão. Na verdade, a autora diz que "Em meio a uma palestra num auditório, empolga" — ou seja, a palestra é um momento adequado para discussão intelectual. A alternativa contradiz o texto ao inverter o sentido da afirmação da autora.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O texto menciona a viagem aos Lençóis Maranhenses como um dos assuntos da conversa, mas não diz que ela se tornou entediante. Pelo contrário, a conversa era divertida: "os assuntos são sempre múltiplos e vêm acompanhados de muitas gargalhadas". A alternativa extrapola ao atribuir um caráter entediante a um assunto que o texto apresenta como parte de uma conversa agradável.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, teste cada alternativa perguntando: "o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta é a única inteiramente sustentada pelo texto — nem mais, nem menos do que ele diz.

Gabarito: letra B — a única alternativa que encontra respaldo direto no episódio narrado no primeiro parágrafo e confirmado no último.

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