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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184547
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Jundiaí
Ano
2023
Cargo
Ass Adm Sau ( )

O golpe está aí

 

Os celulares multiplicaram a chance de golpes. São de todo tipo: falsas pirâmides, oferecimento de serviços, falsos sequestros de familiares e assim por diante. Nossos sentimentos são sempre os mesmos: quando analisamos o golpe em setores que nunca nos enganariam, ficamos desolados com a ingenuidade alheia; quando se trata de algo que já fizemos, somos compreensivos. Nossa empatia é narcísica*, em geral.

 

Critiquei meu pai que quase caiu, lá por 2008, em um golpe de falso sequestro meu. “Como, pai, você, advogado, acostumado a analisar estelionatos, pode ter acreditado em uma história tão estapafúrdia?”

 

Ele argumentou comigo que o risco a um filho cegava quaisquer prudências e acionava um modo automático de defesa. O suposto grito de um filho apagava o título de advogado, e o risco à minha integridade o fragilizava. O amor tem razões alheias à razão em si, advertia Pascal.

 

Pensando nas muitas chances de golpe, acho importante que todos tenhamos presentes as zonas desprotegidas da mente. Risco aos filhos? Inquietudes financeiras? Sabendo onde estão nossos fios desencapados, fica mais fácil identificar risco de choque grave. Como posso agir então?

 

Devo programar meu cérebro. A voz gritando da minha filha me desestabiliza? Vou treinar e insistir muitas vezes que, em caso de ter o alarme acionado por uma ligação repentina, tomarei duas atitudes: ligarei para ela e para uma terceira pessoa (de preferência sem o mesmo envolvimento emocional) e seguirei a crise com a orientação alheia. Devo repetir, treinar, repetir e formar meu cérebro a essa reação. Reitero comigo todos os dias: “Se minha filha estiver em risco, envolverei meu cunhado e ligarei para ela”. Treinar a reação não impede a cegueira das prudências, mas cria um botão emergencial. Ao vivo e em segredo, a família pode treinar uma palavra-passe de emergência. O nome da avó ou o nome de um animal de estimação conhecido de todos. A palavra- -passe não deve estar no celular, pois ele pode ser clonado.

 

Todos possuímos fragilidades. O golpe está aí: cairemos todos. Os que se prepararem internamente possuirão maior esperança de evitar trambiqueiros.

(Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo, 16 de nov. 2022. Adaptado)

 

*narcísica: relacionada ao mito de Narciso, que significa amor excessivo à própria imagem, que é voltado para si mesmo.

Leia o texto para responder à questão.     Analisando o primeiro parágrafo, a frase final – Nossa empatia é narcísica, em geral. – significa que
  1. Asentimos, geralmente, afinidade com pessoas golpeadas.
  2. Bé dirigida aos outros nossa compreensão, normalmente.
  3. Cfalta, geralmente, consideração com as pessoas ingênuas.
  4. Dnota-se, normalmente, indiferença quanto às nossas reações.
  5. Eé maior a nossa compreensão e direcionada a nós mesmos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — é maior a nossa compreensão e direcionada a nós mesmos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido de “empatia narcísica” no texto

Gabarito: letra E. A frase final do primeiro parágrafo – “Nossa empatia é narcísica, em geral.” – significa que nossa compreensão é maior e direcionada a nós mesmos, como se lê na nota de rodapé: “narcísica: relacionada ao mito de Narciso, que significa amor excessivo à própria imagem, que é voltado para si mesmo”. A alternativa E é a única que capta esse duplo movimento: a empatia é maior (porque nos compreendemos quando o golpe nos atingiria) e voltada para nós mesmos (narcísica).

O comando da questão

O enunciado pede que se analise o primeiro parágrafo e se interprete o sentido da frase final. Isso é uma questão de compreensão com inferência: a resposta não está literalmente escrita, mas é deduzida a partir de pistas do próprio texto – especialmente a nota de rodapé, que define o adjetivo “narcísica”. O candidato não pode trazer conhecimento de fora; deve ancorar-se no que o texto oferece.

O texto e o movimento argumentativo

No primeiro parágrafo, o autor descreve como reagimos aos golpes: quando o golpe atinge outros, ficamos “desolados com a ingenuidade alheia”; quando atinge nós, somos “compreensivos”. Ou seja, nossa compaixão é seletiva: só sentimos verdadeiramente quando a situação nos toca. A frase “Nossa empatia é narcísica, em geral.” sintetiza essa ideia: a empatia é voltada para si mesmo, porque nos identificamos com o sofrimento apenas quando ele poderia ser nosso. A nota de rodapé confirma: “narcísica” = “amor excessivo à própria imagem, que é voltado para si mesmo”.

A técnica que decide

A palavra-chave é “narcísica”. Sem a nota, o leitor poderia entender “narcísica” como “egoísta” ou “fria”, mas o texto a define explicitamente: “voltado para si mesmo”. Portanto, a empatia narcísica é aquela que se volta para o próprio eu, não para o outro. A alternativa E traduz isso com precisão: “é maior a nossa compreensão e direcionada a nós mesmos”. As demais alternativas ou invertem o sentido (dizem que a compreensão é dirigida aos outros) ou introduzem ideias ausentes (como “falta de consideração” ou “indiferença”).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a ambiguidade de “narcísica” e a tendência de associar empatia a algo positivo. Alternativas como B e C parecem plausíveis, mas invertem o sentido: a empatia não é dirigida aos outros, e sim a nós mesmos.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

“sentimos, geralmente, afinidade com pessoas golpeadas.”

O texto não afirma que sentimos afinidade com as vítimas de golpe. Pelo contrário, quando o golpe atinge os outros, ficamos “desolados com a ingenuidade alheia” – ou seja, há um certo desprezo, não afinidade. A alternativa extrapola e contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“é dirigida aos outros nossa compreensão, normalmente.”

Esta alternativa inverte o sentido da frase. O texto diz que a empatia é “narcísica”, ou seja, voltada para si mesmo, não para os outros. A compreensão que temos é maior quando o golpe nos atinge, não quando atinge terceiros. Erro de troca de termo: “narcísica” foi substituída por “dirigida aos outros”.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“falta, geralmente, consideração com as pessoas ingênuas.”

O texto menciona que ficamos “desolados com a ingenuidade alheia”, mas isso não equivale a “falta de consideração”. A ideia central é a seletividade da empatia, não a ausência de consideração. A alternativa extrapola ao transformar uma reação específica em uma característica geral.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“nota-se, normalmente, indiferença quanto às nossas reações.”

O texto não fala de indiferença em relação às nossas próprias reações. Pelo contrário, quando o golpe nos atinge, somos “compreensivos” – há envolvimento, não indiferença. A alternativa contradiz o texto e introduz uma ideia ausente.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“é maior a nossa compreensão e direcionada a nós mesmos.”

Esta alternativa é a paráfrase fiel da frase final, apoiada na nota de rodapé: “narcísica” = “voltado para si mesmo”. O texto mostra que nossa compreensão é maior quando o golpe nos atinge (somos “compreensivos”) e menor quando atinge os outros (ficamos “desolados com a ingenuidade alheia”). Portanto, a empatia é maior e direcionada a nós mesmos.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, grife as palavras definidas em nota de rodapé – elas são a chave para o sentido. E desconfie de alternativas que invertem a direção da ação (para os outros × para si mesmo).

Gabarito: letra E.

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